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02/10/2014

Qual é nossa missão em vida?

É preciso estarmos atentos à nossa caminhada. Caso contrário, gastamos nosso tempo fora do trilho.
Cada comunidade precisa saber sua finalidade e seu sentido.
Por Dom José Alberto Moura*

Tudo o que há na natureza tem razão de ser. Até os mosquitos! A fé em Deus, com maior razão tem sua finalidade. Aliás, sem Ele, o ser humano se coloca no pedestal de seu orgulho e arruína a si mesmo, o semelhante, a natureza, a política, a economia, a ciência e tudo o mais!

Isaías faz a comparação do povo hebreu com uma vinha. Mas ela, mesmo bem cultivada, não deu frutas boas. Cometeu barbaridades, contrariamente ao cultivo do amor que o Criador lhe tinha devotado. Por isso, foi arrancada para um plantio de melhor qualidade (Isaias 5,1-7). Na parábola dos vinhateiros Jesus nos apresenta semelhante comparação e nos adverte sobre a necessidade de cumprirmos a missão que Deus nos dá (Cf. Mateus 21,33-43). Ele nos deu o tesouro da vida para o cultivarmos em bem nosso e do semelhante, dentro dos critérios da vida apresentado pelo Senhor. É preciso estarmos atentos ao sentido da mesma em nossa caminhada, tendo em vista seu objetivo. Caso contrário, gastamos nosso tempo fora do trilho e não nos realizamos como pessoas humanas. Sem assumir os critérios ou valores naturais e sobrenaturais que Deus nos outorga, desperdiçamos a oportunidade de ganharmos tentos para uma recompensa satisfatória e sermos felizes de verdade. Fora do caminho da vida de sentido, nós nos arruinamos. Nosso ganho de mérito na existência é proporcional ao bem que realizamos às pessoas e a toda a comunidade.

É inerente à razão de ser de cada instituição, comunidade e religião a missão a cumprir. Desde o início de cada uma é preciso saber sua finalidade e seu sentido. Quanto menor for seu objetivo será pequeno seu papel. A grandeza da missão da Igreja instituída por Jesus é imensurável. Ele a quis para ser grande luz para a sociedade enxergar o caminho que leva à sua plena realização. A convivência na justiça e promoção da dignidade humana é sua verdadeira vocação. A história presente tem de ser construída com a construção da vida no planeta que honre o Criador. Imagem e semelhança de Deus, o ser humano é uma pérola escolhida pelo amor divino. Deve ser burilada e protegida para glorificar seu Criador, a ponto de se parecer com Ele na convivência de um amor sem medida. A missão a ele dada é a de ajudar a criar uma convivência de tal ordem a que cada um tenha todo o necessário para viver respaldado em sua dignidade. Enquanto isso não acontecer, é preciso cada um fazer a doação de si pelo bem do outro, mesmo com o sacrifício da própria vida, como fez exemplarmente o Filho de Deus. Mais: a finalidade de tudo vai além da história presente. O já da história deve levar o ser humano a projetar-se para o infinito da vida eterna nos amplexos divinos. Isso se consegue no impulso da vida presente para se conseguir tal objetivo. A mediação é o amor vivenciado. Eis o grande porquê da vida humana!

Nosso desafio em vista disso é esmerar-nos para acertar nossos passos com os de Deus, colocando nossa vida, com todos os talentos individuais, a serviço dessa causa. Enquanto não o conseguirmos, nossa ascese e exercitação boa vontade são exigidas a cada momento. Precisamos de ajuda, uns dos outros e de Deus, bem como de usar os meios por Ele deixamos na humanidade, na natureza e, privilegiadamente, em sua Igreja, para nos sustentarmos nesse nosso esforço. Jesus mesmo lembra a necessidade de contarmos com Ele e orarmos sem cessar. A Palavra dele nos anima e fortifica. Nosso emprenho evangelizador e missionário não nos deixam sem motivo para também encantarmos os outros com o projeto de Jesus, para termos vida plenamente realizada já na terra.

Nossa missão, em ordem à realização vocacional e à da Igreja, tem pleno sentido para tornarmos o mundo mais irmão, com os valores do Reino de Deus e sua justiça!
CNBB, 01-10-2014.
*Dom José Alberto Moura é arcebispo de Montes Claros (MG).

01/10/2014

Palavras de vida eterna

Recebemos uma graça especial de Deus: poder escutá-lo. Cabe-nos anunciar sua Palavra no mundo em que vivemos.
'Quem acende uma vela é o primeiro a ser iluminado por ela', ensina a sabedoria chinesa.
Por Dom Murilo S.R. Krieger*

A Igreja Católica designou setembro o Mês da Bíblia. Em seu último domingo, celebrou-se o Dia Nacional da Bíblia. Outras Igrejas dedicam uma outra data para destacar o valor dela. A razão da escolha do mês de setembro para ressaltar a importância desse livro sagrado se deve a que, no último dia deste mês (30), celebra-se a memória de S. Jerônimo († 420), que a traduziu dos originais hebraico, aramaico e grego para o latim, língua então falada pelo povo.

Nós, cristãos, valorizamos o fato de adorarmos um Deus que, na sua bondade e sabedoria, revelou-se a si mesmo e manifestou o mistério de sua vontade. Por causa de seu imenso amor, Ele nos fala como a amigos, convidando-nos a estar com ele em seu convívio. Em seu Filho Jesus Cristo, Deus nos revela a verdade profunda a seu respeito e a respeito de nossa salvação. Entende-se, pois, a observação do apóstolo Pedro: “Nascestes de novo, não de uma semente corruptível, mas incorruptível, mediante a Palavra do Senhor, viva e permanente” (1Pe 1,23).

Fruto de um Sínodo sobre a Palavra de Deus (2008), o papa emérito Bento XVI presenteou a Igreja com uma Exortação Apostólica (“Verbum Domini”: Palavra do Senhor), que destaca o fato de Deus ter pronunciado sua Palavra eterna de modo humano. Essa Exortação é um convite para (1) redescobrirmos a Palavra de Deus, fonte de constante renovação eclesial – renovação que supõe escuta, meditação e conversão de coração; (2) promovermos a animação bíblica da pastoral, a fim de que a Palavra de Deus seja sempre mais o coração de toda atividade pastoral; (3) sermos testemunhas da Palavra, comunicando a todos a alegria que nasce do encontro com a Pessoa de Cristo; (4) empreendermos uma nova evangelização, na certeza da eficácia da Palavra divina; (5) favorecermos o diálogo ecumênico, convictos de que “escutar e meditar juntos as Escrituras nos faz viver uma comunhão real, ainda que não ainda plena”; e, finalmente, (6) amarmos a Palavra de Deus, deixando-nos guiar pelo Espírito Santo.

É uma graça especial poder escutar Deus que nos fala e mantém um diálogo conosco. Consola-nos saber que, nesse diálogo, a iniciativa é dele (“Ele nos amou primeiro”: S. João). À sua iniciativa, respondemos com fé, utilizando-nos, se possível, de palavras que Ele próprio nos revelou – por exemplo: os Salmos.

Descobre-se cada vez mais a importância da “Leitura orante da Bíblia” (“Lectio divina”), isto é: a leitura da Sagrada Escritura acompanhada de oração. Santo Agostinho expressava essa leitura assim: “A tua oração é a tua palavra dirigida a Deus. Quando lês a Sagrada Escritura, é Deus que te fala; quando rezas, és tu que falas a Deus”. Segundo Orígines, um dos mestres nesse tipo de leitura bíblica, para uma leitura orante é necessário não só que conheçamos a Bíblia, mas que tenhamos uma profunda intimidade com Cristo.

Recebemos uma graça especial de Deus: poder escutá-lo. Cabe-nos anunciar sua Palavra no mundo em que vivemos, lembrados de que a credibilidade desse anúncio depende da coerência de nossa vida com os ensinamentos dessa Palavra. O Papa Paulo VI, que será beatificado no próximo dia 19 de outubro, lembrava que “o mundo reclama evangelizadores que lhe falem de um Deus que eles conheçam e lhes seja familiar como se eles vissem o invisível” (EN, 76).

Na Arquidiocese de São Salvador da Bahia, como nas demais Dioceses, nosso amor à Palavra de Deus tem-se manifestado na multiplicação de Círculos Bíblicos, dos quais participam famílias, amigos e vizinhos. Reunindo-se regularmente, todos leem a Bíblia e refletem sobre o que leram. Dessa leitura e reflexão nascem, espontaneamente, orações e gestos concretos em favor dos que precisam de uma atenção especial daquele grupo.

“Quem acende uma vela é o primeiro a ser iluminado por ela”, ensina a sabedoria chinesa. Familiarizando-nos com as Sagradas Escrituras, nós mesmos acabamos fazendo uma profunda experiência da verdadeira alegria – aquela alegria que nasce da certeza de que somente o Senhor tem palavras de vida eterna.
CNBB, 29-09-2014.
*Dom Murilo S.R. Krieger é arcebispo de São Salvador da Bahia (BA) e Primaz do Brasil.

30/09/2014

Aprendendo a ler e a ouvir a Palavra de Deus

Sem a referência constante à Palavra de Deus, perdemos nossa referência religiosa principal.
Quem lê ou escuta, coloca-se diante de Deus.
Por Dom Odilo Pedro Scherer*

No Brasil, setembro é o mês da Bíblia. Há algumas décadas, este “mês temático” era ocasião para uma intensa animação bíblica nas comunidades: divulgação da Bíblia, cursos introdutórios à sua leitura compreensão, atividades com crianças e jovens para promover o amor à Palavra de Deus...
Tenho a impressão que esse entusiasmo anda em baixa contido atualmente. Será por não se perceber da mesma forma a importância da Bíblia para a Igreja? Em todo caso, não é isso que a Igreja entende. Tivemos em 2008 uma assembléia do Sínodo dos Bispos sobre “a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”, depois da qual o papa Bento XVI fez a extraordinária Exortação Apostólica Verbum Domini (“A Palavra do Senhor”). Vale a pena retomá-la e absorver melhor a riqueza de suas orientações.
Em novembro de 2013, o papa Francisco entregou à Igreja a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (“A Alegria do Evangelho”), na qual trata da alegria despertada em nós pelo encontro com Cristo e com Deus, sobretudo através da Sagrada Palavra. Essa alegria leva a partilhar com os outros a experiência realizada.
Sem a referência constante à Palavra de Deus, anunciada, acolhida, crida e vivida como uma experiência pessoal de encontro com Deus na Igreja, perdemos a nossa referência religiosa principal, que é a acolhida do dom de Deus e da salvação em Cristo Jesus; a Igreja precisa evitar sempre a tentação de ser referência última para si mesma: ela é discípula e servidora da Palavra de Deus e testemunha do amor de Deus “derramado em nossos corações”...
Falamos da necessidade de uma boa “iniciação à vida cristã”: penso que tenhamos aqui uma questão fundamental para a iniciação à vida cristã. Nossa fé - e se quisermos, nossa “religião” – tem seu fundamento e sua referência última na Palavra de Deus, e não em nós mesmos, nem em projetos humanos. Nossa fé é resposta à Palavra de Deus, que se manifestou e falou; é resposta a Deus, em última análise.
Daí a importância do primeiro anúncio, ou querigma, bem feito, para se confrontar com essa realidade. Se conseguirmos ajudar as pessoas a se colocarem em atitude de escuta atenta da Palavra de Deus, como sendo o próprio Deus que interpela e fala, então teremos conseguido algo importante. A resposta de fé será também resposta pessoal a um Deus pessoal, e não a uma verdade abstrata.
Após o querigma vem a iniciação à escuta e à acolhida constante da Palavra de Deus. Ninguém nasce conhecendo a Bíblia, nem seus métodos de leitura, nem a fé que a Igreja nutre em relação à Palavra de Deus. Tudo isso precisa ser apreendido com métodos adequados. É preciso haver uma iniciação à leitura bíblica, aos métodos de compreensão e acolhida de Palavra, à resposta que deve ser dada à Palavra.
Isso pode acontecer em qualquer momento e período da vida; mas na comunidade católica é importante que as crianças já sejam iniciadas à escuta e acolhida da Palavra de Deus. Elas aprendem a se colocar diante do “mistério da Palavra” e a se familiarizar com ela; da mesma forma, os adolescentes, jovens e também os adultos, que ainda não foram iniciados nessa prática.
Desnecessário é dizer que não se trata apenas de um exercício intelectual: muito mais que isso, trata-se de uma experiência de encontro pessoal, de uma “mistagogia” e de um exercício de fé orante.
Ao “ler a Palavra”, é preciso ter presente sempre que há um “tu” que fala através dela e da linguagem humana usada. Quem lê ou escuta, coloca-se diante de Deus que fala através da linguagem humana: “fala, Senhor, teu servo escuta”; e aprende a dar sua resposta, não ao leitor ou narrador da Palavra, mas a Deus que fala: Creio, Senhor! Glória a vós, Senhor!
CNBB, 29-09-2014.
*Dom Odilo Pedro Scherer é cardeal e arcebispo de São Paulo (SP).

29/09/2014

Entrando pela porta do reino de Deus

Para isso, é preciso reconhecer a condição de pecador, ter coragem do arrependimento e a força para recomeçar.
O contato com Jesus é marcado pelo chamado à conversão.
Por Dom Alberto Taveira Corrêa*

Em todas as celebrações eucarísticas ouvimos a proclamação da Igreja, que ressoa a Escritura: "Felizes os convidados para a Ceia do Senhor" (Cf. Ap19, 9). E é grande a alegria por saber que o chamado de Deus quer incluir a todos. Na oração do Rosário, o terceiro mistério luminoso nos faz contemplar justamente o chamado à conversão, que ocorre com o anúncio do Reino de Deus. É que da parte do Senhor existe a clara vontade de salvar a todos, envolvendo as diversas gerações e situações humanas. Ao se tratar de uma grande consolação, resulta igualmente provocante a responsabilidade entregue à liberdade humana, pois Deus não impõe, mas convoca e convida. Conversando com um jovem em recuperação na "Fazenda da Esperança", Comunidade Terapêutica presente em tantas partes de nosso país e do mundo, ouvi uma afirmação surpreendente. Dizia ele que seu drama maior era uma porteira aberta, por saber que, se quisesse, poderia ir embora. Sabia que o maior presente dado por Deus era entrar pelos umbrais da liberdade que o conduziam, pela estrada do Evangelho, a uma vida nova!
Jesus estabeleceu contato com todas as classes de pessoas, pelo que escandalizava a muitos. Era uma multidão de estropiados, rejeitados da sociedade, doentes de toda ordem, gente solitária, publicanos, pecadores de qualquer classificação. O Evangelho apenas permite entrever os dramas humanos que se apresentavam ao Senhor. Não muito diferente das imagens oferecidas ao vivo e a cores em nossos dias, com pessoas sofrendo toda espécie de miséria. As guerras localizadas ou espalhadas por nossas cidades pela violência e a miséria mostram um mundo machucado e desorientado, carente de encontrar aberta a porta do Reino de Deus! Que seja uma imensa procissão em busca de Deus! Que a meta seja o regaço misericordioso daquele que veio para os pecadores!
Também nossa história pessoal é repleta de idas e vindas, marcadas pelo mistério do pecado, malgrado o desejo de acertar esteja presente, pela própria vontade de Deus que nos criou. Muitas vezes damos nossa resposta positiva aos apelos de Deus e depois seguimos por outra estrada, cedendo ao egoísmo, turrões, cabeças duras que pretendem ser donas da verdade. Podemos ser também como o filho pirracento do primeiro momento que depois se converte e obedece ao Pai. "Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois mudou de atitude e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu:‘ Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi" (Mt 21, 28-30). Cada pessoa sabe de sua aventura humana de liberdade, quedas, arrependimento, coragem para recomeçar, pedidos de perdão aos milhares, encontros com a misericórdia de Deus. Escute a palavra de Deus: "Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e faz o que é direito e justo, conservará a própria vida. Arrependendo-se de todos os crimes que cometeu, ele certamente viverá, não morrerá" (Ez 18, 27-28).
O contato de Jesus com as pessoas é marcado pelo chamado constante à conversão. O início de sua pregação resume a proposta que faz à humanidade: "Depois que João foi preso, Jesus veio para a Galiléia, proclamando a Boa Nova de Deus: Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede na Boa-Nova" (Mc 1, 14-15). Os cobradores de impostos convertidos e as prostitutas que acreditaram em Jesus, mudando radicalmente sua vida, são referências da possibilidade de transformação inscrita por Deus no coração humano (Cf. Mt 21, 28-32).
Os publicanos, cobradores de impostos, traidores do povo por trabalharem para os romanos, manipulavam a fonte permanente de tentação para o ser humano, o dinheiro! A malversação das verbas públicas e as torneiras abertas, pelas quais passam milhões e bilhões, ainda estão expostas diante de nossos olhos, nos dias que vivemos. Multiplicam-se os escândalos, revelam-se operações fraudulentas, mas o "deus dinheiro" continua atraindo as pessoas, traindo-as mesmo quando, confrontadas com acusações e provas dizem não saber de nada. A conversão passa pelo bolso, pois exige um uso dos bens segundo o plano de Deus, fundamentado na partilha e na comunhão. Chamem-se Mateus ou Zaqueu, ou quem sabe estejam no templo orando ao lado de um fariseu, é possível e desejável que os homens e mulheres, todos nós, mudemos o modo de usar os bens da terra!
Outro campo delicado é o da afetividade e da sexualidade e a degradação do uso de tais realidades, sob o título de prostituição. O corpo continua a ser vendido, não só nas zonas de prostituição de nossas cidades. Há outras formas de negociá-lo! Até se enfeita mais este comércio, justificando-o com a falsa liberdade de expor a intimidade das pessoas. Entretanto, o Evangelho de todos os tempos dará nome de Mulher adúltera, ou Samaritana, Prostituta ou outros qualificativos e profissões, a muitas pessoas que creem em Jesus Salvador e a Ele se convertem, mesmo depois de uma vida de miséria e sofrimento.
Com os publicanos e as prostitutas, amplie-se o horizonte para se sentirem envolvidos no chamado à conversão todos os homens e mulheres de nosso tempo, cada um de nós em primeiro lugar, seja qual for o nosso currículo! Encontram-se abertas as portas e as inscrições! Para entrar no Reino de Deus, as condições são o reconhecimento sincero da condição de pecadores, a coragem do arrependimento, a força para recomeçar quantas vezes for necessário, a sinceridade do olhar que se encontra com a misericórdia de Deus. Vale ainda olhar ao nosso redor e fazer festa com aqueles muitos que, também pecadores, são nossos companheiros, irmãos e irmãs que peregrinam na estrada da conversão, sem julgá-los ou pretender excluí-los.
É tempo de pedir com sinceridade: "Ó Deus, que mostrais vosso poder, sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais".
CNBB, 29-09-2014.
*Dom Alberto Taveira Corrêa é arcebispo de Belém do Pará (PA).

Novo Catecismo: O desejo de Deus no coração do homem


No nosso espaço dedicado aos 20 anos da publicação do Novo Catecismo, vamos tratar na edição de hoje sobre desejo de Deus inscrito no coração do homem.

O Catecismo nos diz, no número 27, que "o desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar". A vocação do homem à comunhão com Deus é justamente a reflexão que o Pe. Gerson Schmidt nos traz no programa de hoje:

“Amado ouvinte!

Estamos refletindo, no primeira parte do Catecismo da Igreja Católica, nas páginas iniciais, sobre o tema da Fé. O que é, afinal, a Fé? A Dei Verbum 8 afirma que "pela fé o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando 'ao Deus revelador o obséquio pleno do seu intelecto e da sua vontade', e dando voluntário assentimento à revelação feita por Ele”. Pela fé, portanto, conforme os padres conciliares, há uma entrega do homem a Deus que se revela, pela inteligência, vontade, num consentir pleno à revelação. 

O Catecismo aponta, no número 26, que a fé é uma resposta do homem a Deus que se revela ao ser humano e ao mesmo tempo lhe confere uma luz extraordinária e superabundante respondendo a cada um de nós sobre o sentido último de nossa vida. Afinal, por que existo? Por que estou no mundo? Qual o sentido da minha vida? Por que eu e você estamos aqui nessa terra? Para comer, beber e dormir e passar o tempo? 
No ponto seguinte, no número 27 do Catecismo, já existe uma resposta a essas afirmativas, digo, perguntas, que fazemos da razão de nosso existir. Diz ali que o homem é criado por Deus e para Deus e Deus não cessa de atrair o homem a si. Então existe em nós, intrinsecamente, por essência ontológica e criatural, porque assim Deus nos fez, um desejo de infinitude depositado pelo Criador e Pai de cada um de nós. O homem tem o desejo de Deus e, afirma Santo Agostinho, que nosso coração andará irriquieto, insatisfeito enquanto não repousar em Deus. Ou como o mesmo santo continua a declarar, como desabafo, no Livro das confissões: “Agora eu te reconheço e confesso, a ti que tiveste compaixão de mim, quando eu não te conhecia. Tu estavas mais dentro de mim do que a minha parte mais íntima”. 

Há um convite do Criador a cada um de nós, como afirma o constituição conciliar Gaudium et Spes número 19: 

“Este convite que Deus dirige ao homem, de dialogar com ele, começa com a existência humana. Pois se o homem existe, é porque Deus o criou por amor e, por amor, não cessa de dar-lhe o ser, e o homem só vive plenamente, segundo a verdade, se reconhecer livremente este amor e se entregar ao seu Criador”.

Portanto, amado ouvinte, diferentemente do que os filósofos pré-socráticos afirmavam que Deus fosse inacessível, o catecismo deixa claro que o homem é um ser religioso e que é capaz de Deus. Como afirma os Atos dos apóstolos que Deus não está longe de cada um de nós: “Pois nele vivemos, nos movemos e somos” 9. Esse desejo de Deus é tão expressivo no salmo 63 (algumas bíblias 62 – mas eu aqui vou sempre ter a referência da Bíblia de Jerusalém – que é salmo 63) quando o salmista reza com toda a sua alma e que rezamos na Liturgia das Horas de Domingo da Primeira semana: 

“Ó Deus, vós sois o meu Deus, com ardor vos procuro. 
Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anseia 
como a terra árida, sedenta e sequiosa, sem água. 
Minha alma se agarra em vós, com poder vossa mão me sustenta”. 10

Ou ainda como no salmo 42 em que se faz a belíssima comparação do ser homem como Corça que é um animal dotado de olfato privilegiado que lhe possibilita sentir cheiro de água a quilômetros. Olha só que poético, que oração fantástica do salmista: 

“Como uma corça suspira pelas correntes das águas,
Assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.
A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; 
Quando terei a alegria de ver a face de Deus?
As minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite, 
enquanto insistente repetem os inimigos: Onde está o teu Deus”.

A paz e a benção, amado irmão”.
8 DV, n° 5
9 Cf. At 17,23-28
10 Sl 63, 2s. 


(JE)



Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/news/2014/09/29/novo_catecismo:_o_desejo_de_deus_no_cora%C3%A7%C3%A3o_do_homem/bra-828095
do site da Rádio Vaticano 

Papa destaca proteção dos anjos ao homem na luta contra o mal

Francisco destacou que o demônio sempre quer destruir o homem, mas que os anjos defendem o ser humano nessa luta contra o mal
Da Redação, com Rádio Vaticano
Francisco destaca que os anjos defendem o ser humano na luta contra o mal / Foto: L'Osservatore Romano
Francisco destaca que os anjos defendem o ser humano na luta contra o mal / Foto: L’Osservatore Romano
O Papa Francisco celebrou a Missa na Casa Santa Marta nesta segunda-feira, 29, destacando na homilia a luta dos anjos contra o mal. Segundo Francisco, satanás nos apresenta coisas como se fossem boas, mas sua intenção é destruir o homem. Os anjos, porém, defendem o homem nessa luta.
Francisco focou-se nessa reflexão no dia em que a Igreja celebra a festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. As leituras do diaapresentam imagens fortes, disse o Papa, como a visão da glória de Deus contada pelo profeta Daniel e a luta do arcanjo Miguel e seus anjos contra o diabo.
Em sua homilia o Santo Padre concentrou-se na luta que é travada entre o demônio e Deus, o que aconteceu depois que satanás tentou destruir a mulher que estava para dar à luz seu filho. E explicou que satanás sempre procura destruir o homem.
“Desde o início, a Bíblia nos fala disto: desta sedução de satanás para nos destruir. Talvez por inveja. Nós lemos no Salmo 8: ‘Tu fizeste o homem superior aos anjos’, e aquela inteligência tão grande do anjo não podia levar nos ombros esta humilhação, que uma criatura inferior fosse feita superior a ele; por isso procurava destruí-lo”.
O Pontífice destacou que os muitos projetos de desumanização do homem, exceto os próprios pecados, são obras de satanás, simplesmente porque ele odeia o homem. Citando o livro de Gênesis, o Papa recordou que satanás é astuto; apresenta as coisas como se fossem boas, no entanto, sua única intenção é a nossa destruição. E que o homem pode contar com o auxílio dos anjos.
“Os anjos nos defendem. Defendem o homem e defendem o Homem-Deus, o Homem superior, Jesus Cristo, que é a perfeição da humanidade. Por isso a Igreja honra os anjos, porque são aqueles que estarão na glória de Deus – estão na glória de Deus – porque defendem o grande mistério oculto de Deus, isto é, o Verbo que veio em carne”.
A tarefa do povo de Deus, segundo o Papa Francisco, é proteger em si o homem Jesus, porque é o homem que dá vida a todos os demais. Em vez disso, satanás inventa, em seus projetos de destruição, explicações humanistas que vão contra o homem, contra a humanidade de Deus.
A luta é uma realidade cotidiana na vida cristã, reconheceu o Pontífice, mas ele lembrou que Deus deu um ofício principal aos anjos: lutar e vencer. Francisco convidou os fiéis a rezarem aos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael para que continuem a lutar para defender o maior mistério da humanidade: o Verbo que se fez Homem, morreu e ressuscitou. “Este é o nosso tesouro. Rezemos para que eles continuem a lutar para protegê-lo”.
Canção Nova

28/09/2014

Elas estão à frente de nós

'Asseguro-vos que os publicanos e as prostitutas levam-lhes a dianteira no caminho do reino de Deus'.
'Deus está dentro de mim. Este Jesus entende-me!'
Por José Antonio Pagola*

Um dia, Jesus pronunciou estas duras palavras contra os dirigentes religiosos do Seu povo: "Asseguro-vos que os publicanos e as prostitutas levam-lhes a dianteira no caminho do reino de Deus". Há alguns anos, pude comprovar que a afirmação de Jesus não é um exagero.

Um grupo de prostitutas de diferentes países, acompanhadas por algumas Irmãs Oblatas, refletiram sobre Jesus com a ajuda do livro Jesus. Aproximação histórica. Todavia me comovem a força e o atrativo que tem Jesus para estas mulheres de alma simples e coração bom.

Recupero alguns dos seus testemunhos:

"Sentia-me suja, vazia e pouca coisa, todo o mundo me usava. Agora me sinto com vontade de continuar a viver porque Deus sabe muito do meu sofrimento... Deus está dentro de mim. Deus está dentro de mim. Deus está dentro de mim. Este Jesus entende-me!..."

“Agora, quando chego em casa depois do trabalho, lavo-me com água muito quente para arrancar da minha pele a sujidade e depois rezo a este Jesus, porque Ele sim me entende e sabe muito do meu sofrimento... Jesus, quero mudar de vida, guia-me, porque só Tu conheces o meu futuro...”

"Eu peço a Jesus todo o dia que me afaste deste modo de vida. Sempre que me ocorre algo, Eu O chamo e Ele me ajuda. Ele está próximo de mim, é maravilhoso... Ele me leva em Suas mãos, Ele me carrega, sinto a presença Dele..."

“De madrugada é quando mais falo com Ele. Ele me escuta melhor porque neste horário a gente dorme. Ele está aqui, não dorme. Ele sempre está aqui. À porta fechada me ajoelho e peço que mereça a Sua ajuda, que me perdoe, que eu lutarei por Ele...”

"Um dia, eu estava parada na praça e disse: Oh, meu Deus, será que eu só sirvo para isto? Só para a prostituição?... Então foi o momento em que mais senti Deus me carregando, entendeste? Transformando-me. Foi naquele momento. Tanto que eu não me esqueço. Entendeste?...”

"Eu agora falo com Jesus e lhe digo: aqui estou, acompanha-me. Tu viste o que aconteceu à minha companheira (refere-se a uma companheira assassinada num hotel). Rogo por ela e peço que nada de mal suceda às minhas companheiras. Eu não falo, mas peço por elas, pois elas são pessoas como eu...”

"Estou furiosa, triste, ferida, rejeitada, ninguém me quer, não sei a quem culpar, ou seria melhor odiar às pessoas e a mim, ou ao mundo. Repara, desde que era criança eu acreditei em Ti e permitiste que isto me acontecesse... Dou-te outra oportunidade para proteger-me agora. Bem, eu te perdoo, mas por favor não me deixes de novo..."
Instituto Humanitas Unisinos, 26-09-2014.
*José Antonio Pagola é teólogo. O texto é baseado no Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 21,28-32, que corresponde ao 26º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico.

27/09/2014

Não te contentes com falar, age!

'As palavras voam e os gestos permanecem'. Que a Eucaristia nos permita colocar nossas vidas em acordo com Deus.
'O que quer que sejamos ou façamos, ainda não chegamos ao final da nossa humanidade'.
Vivemos a maior parte do tempo fechados em nossas rotinas. Somos feitos de como empregamos o nosso tempo, de ritos, certezas e sujeições. Mesmo assim, nossos modos de ser e de proceder foram muitas vezes escolhidos com discernimento. Pensemos, por exemplo, nas práticas da vida monástica, que podem transformar a existência toda num ritual. Enfim, não nos apressemos a condenar os hábitos todos que adquirimos, na maior parte do tempo, para estarmos "à altura".

Nem todos somos os publicanos e as prostitutas do evangelho de hoje. Apenas isto: o que quer que sejamos ou façamos, ainda não chegamos ao final da nossa humanidade, que é imagem e semelhança de Deus. Estamos a caminho para o nosso último momento. Deus vem sempre nos visitar e todos estes encontros nos convidam a nos movermos, a ir mais além, para outros lugares e outras maneiras de ser. O Cristo, visita de Deus, é o caminho, a via para a nossa última verdade e é esta a nossa vida.

"Levanta-te e anda…"; "Tens observado os mandamentos por toda a vida? Uma coisa ainda te falta…"; "Trabalhastes o dia inteiro? E agora estais aqui, servidores desocupados: de pé! Ainda há muita coisa a se fazer!" Isto não significa que não é preciso descansar nunca, mas que jamais devemos ficar satisfeitos com o que nos tornamos. É um paradoxo: na paz e na alegria é que temos de seguir a nossa estrada.

O novo para todo o mundo

É claro que fica mais fácil estar insatisfeito consigo quando se é um escroque ou um/a prostituto/a, a princípio, pelo menos. Os bem-pensantes e os que se julgam bem-feitores da humanidade têm a tendência de agradecer a Deus “por não serem como os outros homens” (Lucas 18,11) e de se deixarem repousar e regalar-se com as riquezas materiais e morais acumuladas (Lucas 12,13-19). João Batista dirigiu-se a todos, justos ou pecadores. Jesus também.

De fato, estamos todos em débito, em relação à novidade do que se manifestou em Cristo. Temos todos de nos "convertermos", ou seja, de nos voltarmos para Ele, para encontrarmos n’Ele a sua verdade. "Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez realidade nova" (2 Coríntios 5,17).

Por isso se fala de Novo Testamento e por isso Paulo insiste tanto na necessidade de nos revestirmos com o Homem Novo. Esta nova criatura, procedente de um novo nascimento, não apaga o passado pura e simplesmente, mas ultrapassa-o, completa-o, para além de todas as suas esperanças. Por isso é preciso "deixar tudo para segui-lo", vender tudo o que se tem, para adquirir este tesouro. E isto pode ser vivido materialmente, como fizeram os apóstolos, ou espiritualmente. Sob a condição de bem compreender-se que o "espiritual" é tão real quanto o material. Aquilo de que não podemos nos separar materialmente ganha, então, um sentido novo e, com isto, vivemos uma nova relação.

Sair das nossas prisões

Temos aí, nesta parábola, um filho que está decidido a ir trabalhar na vinha paterna, e o outro que se recusa a ir. Ambos, no entanto, vão modificar sua conduta; os dois vão mudar. A primeira reflexão que se impõe é que não podemos estar seguros de nada nem, sobretudo, de nós mesmos. O marasmo espiritual e humano em que agora me encontro ou, ao contrário, a euforia e a generosidade de que dei provas hoje não estarão aí para sempre. Podemos mudar completamente.

Segue, então, que vamos ficar desolados no primeiro caso e desconfiados e inseguros, no segundo? Certamente que não! Nos dois casos, podemos nos libertar da preocupação para conosco e nos colocarmos tranquilamente nas mãos de Deus. Esta feliz abertura para o Outro é o fundo mesmo da nossa fé, a experiência vivida da nossa esperança.

Os publicanos e as prostitutas são aqueles que, de início, recusaram o dom de Deus, porque ir "trabalhar na sua vinha" é um dom. O chamado de João abriu-lhes outros horizontes. Os chefes dos sacerdotes e os anciãos, operários da vinha por sua própria função, tendo sido, portanto, os primeiros a responderem ao convite divino, recusaram modificar-se. Preferiram o conforto da imobilidade no status quo, à fadiga de pôr-se a caminho.

Nós, por nossa vez, aceitemos ouvir o "levanta-te e anda" que o Cristo está nos dizendo. Não se trata de uma mobilização para um trabalho penoso, mas sim de uma libertação.
Croire
*Marcel Domergue é sacerdote jesuíta francês. O texto é baseado nas leituras do 26º Domingo do Tempo Comum (28 de setembro de 2014). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Papa sobre a Eucaristia: redescobrir a fé como fonte de Graça que traz alegria e esperança

O Santo Padre recebeu em audiência na manhã deste sábado, na Sala Clementina, no Vaticano, os participantes da Plenária do Pontifício Comitê para os Congressos Eucarísticos Internacionais, cerca de 80 pessoas.

No discurso que dirigiu aos presentes, após recordar que o próximo Congresso Eucarístico Internacional vai se realizar em Cebu, nas Filipinas, em janeiro de 2016, e agradecer pelo trabalho que estão fazendo a fim de ajudar os fiéis de todos os continentes a entenderem sempre mais e melhor o valor e a importância da Eucaristia em nossa vida, Francisco recordou que a Eucaristia tem lugar central na Igreja porque é ela quem "faz a Igreja".

Retomando uma afirmação do Concílio, que cita Santo Agostinho, o Papa recordou que a Eucaristia é "sacramento da piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade".

Em seguida, evocando o tema escolhido para o próximo Congresso Eucarístico Internacional – "Cristo em vós, esperança da glória" (Col 1,27) –, ressaltou que o mesmo é bastante significativo.

O Pontífice frisou que o tema evidencia o laço estreito e forte entre a Eucaristia, a missão e a esperança cristã.

"Hoje há uma carência de esperança no mundo, por isso a humanidade precisa ouvir a mensagem da nossa esperança em Jesus Cristo. A Igreja proclama esta mensagem com ardor renovado, utilizando novos métodos e novas expressões", disse o Santo Padre.

Com o espírito da "nova evangelização", continuou, a Igreja leva esta mensagem a todos e, de modo especial, àqueles que, mesmo sendo batizados, se distanciaram da Igreja e vivem sem ter a vida cristã como referência.

Francisco observou que o Congresso Eucarístico Internacional oferecerá a oportunidade de "experimentar e compreender a Eucaristia como um encontro transformador com o Senhor em sua palavra e em seu sacrifício de amor, a fim de que todos possam ter vida, e vida em abundância" (cf. Jo 10,10).

Em seguida, o Papa disse que o encontro com Jesus na Eucaristia será fonte de esperança para o mundo se, transformados pela força do Espírito Santo à imagem daquele que encontramos, "acolheremos a missão de transformar o mundo dando a plenitude de vida que nós mesmos recebemos e experimentamos, levando esperança, perdão, cura e amor àqueles que necessitam, em particular, aos pobres, aos deserdados e aos oprimidos, partilhando com eles a vida e as aspirações e caminhando com eles em busca de uma autêntica vida humana em Cristo Jesus".

Francisco concluiu confiando o próximo Congresso Eucarístico Internacional à Virgem Maria. Pediu que rezassem por ele e a todos concedeu sua Bênção apostólica. (RL)



Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/news/2014/09/27/papa_sobre_a_eucaristia:_redescobrir_a_f%C3%A9_como_fonte_de_gra%C3%A7a_que_traz/bra-827821
do site da Rádio Vaticano 

26/09/2014

A verdadeira prática do ´sim´

Quem quer ser feliz é conseqüente com seu 'sim' para assumir valores maiores na vida.
A prática do 'sim' vale mais do que o 'sim' dado de boca para fora.
Por Dom José Alberto Moura*

Jesus fala de dois filhos: um disse 'sim' ao pai, mas não executou o que ele pediu; o outro disse 'não' mas, em seguida, resolveu fazer o pedido do progenitor (Cf. Mateus 21,28-32). Isso acontece muito. Não basta entusiasmar-se e dizer que vai fazer isso de bom. É preciso ter força de vontade o suficiente para realizar o que Deus nos propõe.
Há quem não se interessa muito pelo compromisso de vida com valores maiores, mas logo percebe que vale a pena pautar-se por coordenadas do bem, da justiça e da realização do ideal de vida. Paulo lembra: “Vivei em harmonia, procurando a unidade. Nada façais por competição ou vanglória, mas com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outros. Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus” (Filipenses 2, 2-5).
O Divino Mestre afirma que muitos tidos como pecadores (cobradores de impostos e as prostitutas) vão chegar primeiro no céu por se terem convertido, crendo nele (Cf. Mateus 21,31). A prática do 'sim' vale mais do que o 'sim' dado somente de boca para fora. Está na hora de conhecermos quem é de convicção e de luta na prática de promoção do bem e da justiça. Precisamos mais do que nunca de pessoas de “tutano ético e moral” para a condução da política de real benefício comum.
Não basta as pessoas dizerem-se religiosas e até freqüentarem as comunidades de Igreja em certos momentos – principalmente no ano eleitoral, indo até em várias confissões religiosas diferentes – para se apresentarem e fingirem que assumem a fé com o compromisso de serem verdadeiros benfeitores do povo! Não basta as pessoas até serem de religiões e usarem do voto para a busca interesseira de vantagens para si e suas comunidades, no uso fisiológico dos cargos!
A conversão é possível, mas com a sinceridade que leva a pessoa a ser humilde e aceitar rever as próprias atitudes. Deste modo, procura afiná-las com um projeto de vida coadunado com valores de quem tem grandeza de caráter e responsabilidade de servir o próximo e toda a sociedade. Então ela reconhece o chamado de Deus para a utilização de seus dons e 0s coloca a serviço da comunidade. Deus não precisa de nada. Ele só quer uma resposta a seu chamado para fazer-nos solidários com o semelhante e o ajudarmos a crescer em seu potencial de vida digna. O mais beneficiado com a prática do sim a Deus é a própria pessoa, que vai perceber seu valor diante de Deus e dos outros.
As conseqüências das opções das pessoas advêm de forma positiva ou negativa para elas mesmas, de acordo com sua prática ou não do sim para si mesmas, a sociedade e a Deus. Quem quer ser feliz é conseqüente com seu sim para assumir valores maiores na vida. Através do profeta o Criador fala: “Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida” (Ezequiel 18, 27). Enquanto é tempo faz-se necessário rever-se para se tomar o caminho de elevado sentido à vida!
CNBB, 25-09-2014.
*Dom José Alberto Moura é arcebispo de Montes Claros (MG).

Francisco, 'Papa do encontro'


O Diretor do Centro Televisivo do Vaticano (CTV), Pe. Dario Viganó, afirmou quinta-feira, em Fátima, que Francisco é um “Papa do encontro” que tem sabido potenciar as imagens para comunicar a mensagem da Igreja.

“A comunicação do Papa, efetivamente, passa pelo meio que está hoje mais difundido, que é o da imagem: mais do que ler, hoje vê-se e escuta-se”, apontou o sacerdote, participando das Jornadas Nacionais de Comunicação Social que têm o tema 'Uma Rede de Pessoas', na cidade portuguesa de Fátima.

Para o Diretor do CTV, a estratégia midiática do Papa é “não ter nenhuma”, pois ele procura sempre “ter uma relação constante com Deus para servir a Igreja, caminhando nos caminhos que o Evangelho nos aponta: o anúncio e o cuidado dos doentes”.

“Esta é a sua força, acredito. Quando lhe perguntamos como está, o Papa não responde nunca ‘bem’, responde ‘estou em paz’. Uma paz que é ter um coração que bate ao ritmo do coração de Deus”, revela.

Pe. Viganò sustenta que a palavra de Francisco “tem a força da sua história”, como se vê diariamente nas homilias das Missas a que o Papa preside na capela da Casa de Santa Marta, por exemplo.

“Uma palavra é uma palavra, mas depende de quem a diz, de como a diz. Todo o não-verbal revela a verdade da vida do Papa”, explica Pe. Viganó à Agência Ecclesia.

“O Papa não nos diz quais são os deveres de um cristão, diz-nos aquilo que ele rezou com Deus. Essas palavras têm o peso, a força da sua vida e é isso que cativa as pessoas”, acrescenta.

O CTV tem investido nas novas tecnologias para chegar a todo o mundo com transmissões televisivas em Ultra HD (4 vezes superior à alta definição) e em 3 dimensões, já experimentadas nas canonização de João XXII e João Paulo II, a 27 de abril deste ano.

A experiência vai se repetir na beatificação do Papa Paulo VI, em 19 de outubro (Ultra HD), e na Missa de Natal deste ano, na Praça de São Pedro (3 dimensões).



Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/news/2014/09/26/francisco,_papa_do_encontro/bra-827535
do site da Rádio Vaticano 

25/09/2014

Viver ou morrer em martírio?

As comunidades devem aprender que é melhor ter seus líderes atuantes na transformação da sociedade injusta.
Cristãos devem lutar para que o martírio seja evitado.
Levados pela euforia desmedida, os Filipenses começam a atribuir valor ímpar ao martírio, pois esperam que Paulo, seu fundador e líder, dê provas definitivas de sua fé, enfrentando a morte. Paulo está disposto a morrer. Sua dúvida está no fato de poder optar entre a vida e a morte. Enfrentando o martírio, satisfaria, de uma vez por todas, seu desejo de estar com Deus: "Para mim, morrer representa um lucro".

Todavia, o anúncio de Evangelho exige sua presença: "Mas, se eu ainda continuo vivendo, poderei fazer algum trabalho útil. Por isso é que não sei bem o que escolher. Fico na indecisão: meu desejo é partir dessa vida e estar com Cristo... No entanto, por causa de vocês, é mais necessário que eu continue a viver".

Por isso é que, provavelmente, decide recorrer a um trunfo que tem em mãos: ao se declarar cidadão romano, certamente seria posto em liberdade, pois o direito romano tinha como princípio não condenar à morte um cidadão sem antes fazê-lo passar por um minucioso processo. "No entanto, por causa de vocês, é mais necessário que eu continue a viver. Convencido disso, sei que vou ficar com todos vocês, para ajudá-los a progredir e a ter alegria na fé. Assim, quando eu voltar para junto de vocês, o orgulho de vocês em Jesus Cristo irá aumentar por causa de mim".

São Paulo correu o risco de contrariar as expectativas dos Filipenses. Preferiu fazer uso de seu título de cidadão romano e assim obter a liberdade, a fim de continuar evangelizando. E, com isso, nos ajudou a redimensionar a questão do martírio. Apesar de o martírio ser a prova mais elevada do amor pelo Reino, os cristãos devem lutar para que seja evitado, pois onde há mártires, é sinal de que a justiça ainda não aconteceu. E as comunidades devem aprender que é melhor ter seus líderes vivos e atuantes na transformação da sociedade injusta do que cultuá-los como mártires. Enfim, uma só coisa importa: viver de acordo com o Evangelho. A vida só tem sentido quando confrontada com o Evangelho, que é a própria pessoa do Senhor Jesus morto e ressuscitado.
SIR
*Eurico dos Santos Veloso é arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG).

Papa pede que cristãos não se deixem levar pela vaidade

Santo Padre alertou sobre o perigo da vaidade, dizendo que cristãos vaidosos são como “bolhas de sabão”
Da Redação, com Rádio Vaticano
Tomar cuidado com a vaidade que afasta o homem da verdade e o faz parecer uma “bolha de sabão”. Esse foi o alerta deixado pelo Papa Francisco na Santa Missa desta quinta-feira, 25, na Casa Santa Marta. O Pontífice destacou em sua homilia que, mesmo quando fazem o bem, os cristãos devem fugir da tentação de aparecer, de fazer-se ver.
Francisco destaca que cristãos vaidosos são como bolhas de sabão: belas apenas por alguns segundos / Foto: L'Osservatore Romano
Francisco destaca que cristãos vaidosos são como bolhas de sabão: belas por pouco tempo / Foto: L’Osservatore Romano
Partindo da Primeira Leitura, retirada do Livro do Eclesiastes, o Santo Padre falou sobre o perigo da vaidade, uma tentação não só para os pagãos, como também para os cristãos. Ele recordou que Jesus repreendia a todos que se vangloriavam e lhes dizia que não se deve rezar para que os outros vejam. O mesmo deve acontecer, afirmou o Papa, quando ajudamos os pobres: fazê-lo de forma oculta, pois é suficiente que Deus veja.
“O vaidoso vive para aparecer. ‘Quando você faz jejum – diz o Senhor – por favor não fique triste ali, para que todos percebam que você está jejuando; não, faça jejum com alegria; faça a penitência com alegria, que ninguém perceba’. E a vaidade é assim: é viver para aparecer, viver para fazer-se ver”.
Sua Santidade destacou que os cristãos que vivem assim – que vivem para aparecer – parecem “pavões”; são pessoas que se vangloriam de terem uma família cristã, de serem parentes de um padre ou de uma freira. E questionou como é a vida dessas pessoas nas obras de misericórdia, se, por exemplo, elas visitam os doentes.
O Santo Padre recordou, então, que Jesus sempre disse que é preciso construir a “casa”, ou seja, a vida cristã, sobre a rocha, sobre a verdade. Os vaidosos, em vez disso, constroem a “casa” sobre a areia e então a vida cristã cai, escorrega, porque eles não são capazes de resistir às tentações.
“Quantos cristãos vivem para aparecer. A vida deles parece uma bolha de sabão. É bela a bolha de sabão! Tem todas as cores! Mas dura um segundo, e depois? Também quando olhamos para alguns monumentos fúnebres, pensamos que é vaidade, porque a verdade é voltar para a terra nua, como diz o Servo de Deus Paulo VI. Espera-nos a terra nua, esta é a verdade final. Nesse meio de tempo, em me gabo ou faço alguma coisa? Faço o bem? Procuro o bem? Rezo? As coisas consistentes. E a vaidade é mentirosa, é fantasiosa, engana a si mesma, engana o vaidoso”.
Francisco explicou que é isso que acontecia com o tetrarca Herodes, como narra o Evangelho do dia. Herodes se perguntava com insistência sobre a identidade de Jesus. O Papa disse que a vaidade semeia inquietação ruim, tira a paz; é como aquela pessoa que coloca maquiagem demais e depois tem medo de tomar chuva e borrar tudo. “A vaidade não nos dá paz, somente a verdade nos dá paz”.
A única rocha sobre a qual se pode edificar a vida é Jesus, afirmou o Sumo Pontífice. O próprio Cristo foi tentado no deserto, lembrou o Papa, acrescentando que a vaidade é uma doença espiritual muito grave. “Peçamos ao Senhor a graça de não sermos vaidosos, de sermos verdadeiros com a verdade da realidade e do Evangelho”.
Canção Nova

21/09/2014

Não desvirtuar a bondade de Deus

Devemos aprender a não confundir Deus com nossos esquemas estreitos e mesquinhos.
Diante de Deus, apenas cabe a confiança.
Jesus, durante sua trajetória profética, insistiu reiteradas vezes em comunicar sua experiência de Deus como um “mistério de bondade insondável” que quebra todos nossos cálculos. Sua mensagem é tão revolucionária que depois de vinte séculos ainda há cristãos que não se animam a levá-la a sério.

Para contagiar a todos sua experiência de Deus Bom, Jesus compara sua atuação com a conduta surpreendente do dono de uma vinha. Até cinco vezes o próprio dono vai em busca dos novos diaristas para contratá-los para sua vinha. Não parece estar muito preocupado da rendição no trabalho. O que ele deseja é que nenhum diarista fique um dia a mais sem trabalho.

Por isso, no final da jornada, ele não lhes paga adaptando-se ao trabalho realizado por cada grupo. Apesar de que seu trabalho foi muito desigual, ele entrega para todos uma moeda de prata: simplesmente aquilo que uma família de camponeses da Galileia precisava cada dia para viver.

Quando o porta-voz do primeiro grupo protesta porque os últimos foram tratados da mesma forma que eles que trabalharam mais que ninguém, o dono da vinha responde-lhe com estas palavras admiráveis: “Você está com ciúme por que estou sendo generoso?”. Você vai impedir-me com seus cálculos mesquinhos de ser bom com aqueles que necessitam de seu pão para jantar?

O que está sugerindo Jesus? É um Deus que não atua com os critérios de justiça e igualdade que nós temos? É verdade que Deus, mais que estar medindo os méritos das pessoas, sempre busca responder desde sua Bondade insondável à nossa necessidade profunda de salvação?

Confesso que sinto uma grande pena quando encontro boas pessoas que imaginam Deus dedicado a tomar nota cuidadosamente dos pecados e dos méritos dos seres humanos para retribuir a cada um segundo o que ele merece. É possível imaginar um ser mais inumano que alguém dedicado a isto desde toda a eternidade?

Crer num Deus, Amigo incondicional, pode ser a experiência mais libertadora que seja possível imaginar, a força mais vigorosa para viver e para morrer. Pelo contrário, viver ante um Deus justiceiro e ameaçador pode converter-se na neurose mais perigosa e destruidora da pessoa.

Devemos aprender a não confundir Deus com nossos esquemas estreitos e mesquinhos. Não devemos desvirtuar sua Bondade insondável misturando os rasgos autênticos que provêm de Jesus com os traços de um Deus justiceiro colhidos do Antigo Testamento. Diante do Deus Bom revelado em Jesus, o único que cabe é a confiança.
Instituto Humanitas Unisinos
*José Antonio Pagola é teólogo. O texto é baseado no Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 20,1-16 que corresponde ao 25º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico.

19/09/2014

Tempo de caridade e partilha

Quando o Evangelho permeia nossas vidas, até mesmo as atitudes de partilha passam a ter outro peso e conotação.
'Como posso ser feliz, se ao pobre, meu irmão, eu fechei o coração, meu amor eu recusei!'
Por Dom Orani João Tempesta*

Vivemos em nossa Arquidiocese o “Ano da Caridade”. Neste tempo, dentro daquilo que programou o Plano de Pastoral, somos chamados a nos organizar melhor em nossos trabalhos de “caridade social”.

O papa Francisco lançou no Dia dos Direitos Humanos do ano passado uma campanha mundial: “Uma família humana, pão e justiça para todas as pessoas”, organizada pela Caritas Mundial. Ele mesmo, em seu pronunciamento, lembrou: “Por isso, queridos irmãos e queridas irmãs, convido-os a abrir um espaço em seus corações para esta urgência, respeitando o direito dado por Deus a todos de ter acesso a uma alimentação adequada. Compartilhemos o que temos, em caridade cristã, com os que são obrigados a enfrentar muitos obstáculos para satisfazer uma necessidade tão primária; e, ao mesmo tempo, promovamos uma autêntica cooperação com os pobres para que, através dos frutos do seu e do nosso trabalho, possamos viver uma vida digna. Convido todas as instituições do mundo, toda a Igreja e cada um de nós, como uma única família humana, a dar voz a todas as pessoas que passam fome silenciosamente, a fim de que esta voz se torne um grito que possa sacudir o mundo”!

Como legado social da JMJ ocorrida no ano passado, foi criada a “rede” para encaminhamentos dos dependentes químicos. Também quisemos celebrar o primeiro aniversário da JMJ com uma grande campanha de alimentos para o Haiti. As notícias de que lá nos chegam é que a fome ou a nutrição seria a “grande doença” principalmente das crianças. Daí o nosso gesto concreto em arrecadar alimentos para serem distribuídos no Haiti.

Sabemos que o trabalho social é consequência da evangelização, do amor ao próximo. Nós saberemos se estamos realmente evangelizando ao sentirmos a resposta às necessidades de missão, catequese e trabalhos sociais por parte de nosso povo. Nesse sentido, neste ano da caridade, pudemos ver os grandes passos que estão sendo dados.

Meditando sobre os Evangelhos, impressiona-nos a mensagem de Cristo fundada totalmente no amor aos irmãos, na caridade. Jesus nos apresenta o Pai como o doador de tudo, que nos ama a ponto de dar o Filho à morte para a salvação dos homens. Em várias respostas aos fariseus e aos legistas, Jesus reafirmou o primeiro mandamento do amor a Deus, mas, logo a seguir, completa o amor ao próximo, que lhe são semelhantes. Ilustra-o na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37).

As cartas do apostólo João insistem no mesmo aspecto catequético e, com clareza apostólica, afirma que aquele que diz amar a Deus e não amar a seus irmãos é um mentiroso. E continua afirmando, que é muito fácil proclamar que amamos a Deus, a quem não vemos, mas se desprezamos os irmãos que estão a nosso lado, onde estão a caridade, onde estão o amor? (1Jo.4,20).

São Paulo, na sua Carta aos Coríntios (Coríntios 13), proclama e exalta a caridade. Somos levados a interpretar esse hino como o amor ao Pai Celeste. Mas, o apostólo fala da excelência do amor entre os irmãos. Ainda que eu falasse todas as línguas dos anjos, ou tivesse toda a ciência, sem a caridade seria um bronze que soa e cujo som se perde nas quebradas dos montes. Logo a seguir nos ensina em que consiste a caridade: na paciência, na humildade, no fazer o bem, na longanimidade, na partilha da dor e da alegria com os irmãos, no perdão tão difícil. E conclui pela perenidade do amor e da caridade. Tudo cessa quando vier a perfeição, exceto a caridade, pela qual seremos medidos.

No dia do Juízo, quando o Filho do Homem, na Sua glória, vier nos julgar, escreve o evangelista Mateus, Ele nos questionará sobre o nosso coração: se ele se abriu ou fechou sobre os pequeninos que moravam em nossas casas, no nosso bairro, na nossa comunidade. Uma antiga música nos recorda: “como posso ser feliz, se ao pobre, meu irmão, eu fechei o coração, meu amor eu recusei!” Já nesta vida mortal, podemos sentir as delícias dessa vida fraterna, como rezamos nos salmo: “quão bom e quão é alegre a vida comum entre os irmãos”. Não é fácil o exercício dessa caridade; o empecilho do pecado que herdamos de Adão leva-nos a outro tipo de vida. Conhecedor da natureza humana, Jesus, no Sermão da Montanha, nos dá regras práticas de sua vivência.

E como se não bastasse a Sua Palavra, deu-nos o Seu exemplo: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei, e entregou-se por amor a nós na cruz.

Partindo dessa rápida reflexão, quisemos fazer uma breve meditação do sentido e da importância da caridade na vida comunitária e pessoal.

Quando o Evangelho permeia nossas vidas, até mesmo as atitudes de partilha passam a ter outro peso e conotação. A arrecadação de alimentos para a Campanha de Alimentos para o Haiti superou todas as expectativas! Louvado seja Deus! O povo carioca demonstrou a sua abertura ao outro, a preocupação com o irmão. Tivemos oportunidade de ver isso acontecer quando do acolhimento de jovens na JMJ. Agora, também na doação de alimentos. Estamos ultimando a preparação e embalagem do que foi arrecadado para enviar ao destino, para que sejam distribuídos pela comunidade católica missionária franciscana que está no Haiti.

Mas, quero também aproveitar para agradecer o empenho de todos na arrecadação desses alimentos para ajudar os nossos irmãos haitianos. Quisemos partilhar o pouco que temos com os nossos irmãos do Haiti que se encontram numa situação de miséria material e humana. A nossa Campanha de Arrecadação aconteceu do dia 26 de julho até o dia 14 de setembro, com doações de mantimentos e doação em dinheiro em conta bancária da Caritas Arquidiocesana. Conseguimos alcançar e superar o nossa meta! Isso demonstra que existe no coração do nosso povo a abertura para o outro! Como isso foi isso possível, o será também na continua busca de acolher e ajudar o próximo na pessoa do irmão que está ao nosso lado.

Portanto, os meus agradecimentos aos bispos auxiliares, aos vigários episcopais, aos freis franciscanos na Providência de Deus, aos padres, às entidades, aos consagrados, aos diáconos e todo o amado e querido povo de Deus que se empenhou para que pudéssemos realizar esta Campanha. Esse gesto Demonstrou como é importante esse “sair de si” para olhar para o outro necessitado e partilhar. A resposta generosa nos comoveu a todos e nos fez agradecer ao Senhor pelos sinais que vemos acontecer em nossa cidade.

A todos os meus votos de “paz e bem”, e que a bênção de Deus recaia sobre cada um de vocês. Convoco-os para nunca se cansarem de repetir o gesto de um grande carioca que está caminhando para os altares, nosso querido D. Luciano Mendes de Almeida, que nos ensinou o gesto concreto que todos viveram: “em que posso ajudar?”, ou seja, o que eu posso fazer para te ajudar? Repitamos essa pergunta muitas vezes em nosso dia a dia. Para que em tudo seja Deus glorificado!
CNBB, 18-09-2014.
*Dom Orani João Tempesta é cardeal e arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro.