Dom Aldo Pagotto, sss*
Nós, filhos da pequenina gigante Paraíba, “rio das águas difíceis de navegar”, celebramos 427 anos da saga. Nosso povo foi vocacionado a lutar pela sua autonomia, construindo o seu porvir. Desde a nossa origem resistimos às invasões forasteiras entre conquistas e dissabores. Nossa memória histórica conserva a bandeira da esperança da construção do progresso. A pequenina vila de Filipeia de Nossa Senhora das Neves, fundada aos 5 de agosto de 1585 sob o domínio luso-ibérico, foi pensada estrategicamente em função de investimentos no setor primário da época.
Nossos ancestrais conheceram as pródigas riquezas do nosso entorno e também a exploração da mão-de-obra escrava. Hostes anglo-saxãs incitadas à exploração e domínio pressagiavam a luta contínua de um povo de bravos. Sem recursos humanos, sem um exército organizado, o povo aborígene, rude, humilde, profligou os inimigos.
O rio caudaloso e cheio de obstáculos à navegação é referencial vivo da índole do nosso povo guerreiro. Quão difícil é singrar as águas da vida, repleta de sucessivas provações conhecidas ao longo dos quatro séculos de nossa história. O povo de nossa pequenina gigante é chamado a perseverar na busca incansável pela união de seus filhos e filhas, superando a tentação das divisões que sempre comprometeram nosso porvir.
Quais as curvas e as pedras do leito do rio devem ser superadas? Faça-se comparação com irmãos mais próximos dos estados circunvizinhos, a visão atávica de nos enxergar menores, apoucados, o desestímulo de alcançar metas desafiantes. Nossa vocação é capitanear o porvir, tornando-nos sujeitos de nossa história!
A pequenina Paraíba encerra a grandeza de suas potencialidades. Do adormecimento ao ressurgimento para novos investimentos, priorizando a capacitação do povo: o capital mais precioso - o humano. Inspiremo-nos no hino da padroeira de nossa Capital e Estado, a Senhora das Neves, que proclama a benevolência do Pai que olha a pequenez de sua serva e cumpre a promessa que fez aos antepassados de realizar maravilhas, destinadas às gerações sucessivas. Nesse espírito aberto ao porvir serviçal, perguntemos: o que cada um de nós pode fazer para que a Paraíba cresça e o povo se desenvolva? A provocação é indeclinável.
Peçamos a Deus o espírito de fé e amor solidário, capaz de partilhar os dons colocados ao crescimento do povo, raça eleita que trabalha e alcança seu desenvolvimento espiritual e temporal. Na atual mudança de época o que depende de mim na construção da cidade e da cidadania? Quais as ameaças que se transformam em oportunidades? O que depende de nós para a superação das divisões que desmascaram a nossa reta intenção de procurar o melhor para todos? O que depende dos que governam pelo povo e para o povo? O que eu posso fazer para que o meu povo se desenvolva? Qual é a minha colaboração junto aos que precisam de um sentido para suas vidas?
O Senhor da história conceda-nos saúde e prosperidade integrando-nos nos projetos de concidadania, abraçados com amor e assumidos com sacrifício e lutas que jamais faltarão. O rio da vida é caudaloso e “difícil de navegar” e continuará apresentando desafios a serem enfrentados na busca incessante de alternativas de soluções.
Arcebispo Metropolitano da Paraíba
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