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22/08/2012

“Só o efeito estufa pode explicar o derretimento do Ártico”


O derretimento acelerado do Ártico é coerente com o aquecimento da Terra provocado pelas emissões de gases poluentes. Vem ocorrendo, porém, em um ritmo mais rápido do que o previsto pelos pesquisadores. Para entender o que está acontecendo, um grupo de cientistas do Instituto de Meteorologia Max Planck, na Alemanha, fez uma análise de todas os fatores que poderiam estar derretendo o Polo Norte. Avaliaram causas naturais como oscilação no ciclo de radiação do Sol ou padrões de ventos e analisaram qual a probabilidade dessas variações responderem pelo derretimento observado nos últimos anos. Segundo os pesquisadores, a explicação para o derretimento é o aquecimento da atmosfera, provocado pelo efeito estufa. E o aquecimento da água do mar que, com a redução da superfície branca de gelo, absorve mais calor do sol. É o que explica o coordenador do estudo, Dick Notz:
ÉPOCA: O que está provocando a perda de gelo no Ártico?
Dirk Notz: Há três fatores para explicar a rápida diminuição na cobertura de gelo do Ártico dos últimos anos. A primeira é o calor que a atmosfera transfere para a superfície de gelo. Temos analisado de onde esse calor vem e encontramos uma relação consistente com o crescimento na concentração de gases responsáveis pelo efeito estufa na atmosfera. Só ela explica o que estamos observando na região. A outra possível fonte para esse calor que derrete o Ártico seria alguma alteração na radiação solar. Mas tem havido menos radiação emitida pelo Sol nos últimos anos, o que faria a calota de gelo crescer. Como o gelo está diminuindo, logo o Sol provavelmente não teve muita influência. O segundo fator para explicar o degelo no Ártico é que a calota polar recebe mais calor do oceano, derretendo o gelo embaixo d’água. A água esquenta porque, na medida que a cobertura de gelo branco diminui no polo, mais superfície escura de oceano fica exposta. Essa superfície absorve mais calor do sol no verão, esquentando a água do mar e derretendo mais gelo submerso. O terceiro fator para o derretimento do Ártico é que a calota poder está se delocando. Esse deslocamento começou no ínicio dos anos 1990. Na medida que a calota se desloca, ano após ano, ela vai formando gelo mais fino e frágil. Os padrões de vento responsáveis por esse deslocamento podem ser uma variação natural. Em resumo, o Ártico está diminuindo por uma combinação de três fatores: o aumento nos gases de efeito estufa da atmosfera, os feed-backs positivos que aumentam o derretimento e ainda uma oscilação natural no padrão de ventos.

ÉPOCA: Podemos descartar os ciclos de atividade solar como causa do ecolhimento do Ártico?
Notz: Como já expliquei, é bem pouco provável que a perda de gelo seja resultado dos ciclos de atividade solar. A atividade do Sol tem sido pequena nos últimos anos, enquanto o gelo no polo tem recuado cada vez mais.

ÉPOCA: O derretimento do gelo no Ártico pode ser resultado ainda do fim da última Era Glacial que nos colocou em um longo período de aquecimento da Terra?
Notz: O derretimento atual acontece num ritmo muito rápido para ser explicável pelo lento processo de saída da última Era Glacial. Seria de se esperar alguma retração do gelo como consequência natural do fim da Era Glacial. Mas a calota polar está encolhendo num ritmo muito acelerado para essa flutuação natural.

ÉPOCA: Se a retração do gelo continuar no mesmo ritmo, quando o Polo Norte ficará livre de gelo no verão?
Notz: É impossível dizer. Medições recentes feitas por satélite mostram que a cobertura de gelo ficou mais fina nos últimos anos. E esse gelo fino é mais sensível a flutuações no padrão de meteorologia da região. As estimativas variam entre “ainda nesta década”, “em meados do século” e “não no futuro próximo se conseguirmos reduzir as emissões de gases poluentes a tempo”. Sabemos que esse dia chegará. Mas é impossível calcular uma data.

ÉPOCA: Será que o Polo Norte ficará livre de gelo também no inverno?
Notz: Isso pode acontecer em algum momento. As simulações das mudanças climáticas indicam que, com maiores concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera, o Ártico pode ficar sem gelo durante o ano inteiro.

ÉPOCA: Isso já aconteceu antes?
Notz: Isso é bem difícil de avaliar. Existem algumas estimativas baseadas na análise de sedimentos do fundo do oceano. Mas esses sedimentos geralmente foram revolvidos demais. Um estudo recente com um alto grau de certeza mostrou que nada parecido aconteceu pelo menos nos últimos 1450.

ÉPOCA: Quais são as consequências para o resto do planeta da perda de gelo do Ártico?
Notz: A camada de gelo tem um papel importante na troca de calor entre o oceano e atmosfera. Ela mantém o Ártico gelado porque reflete a luz do sol no verão. Por isso, uma redução na área coberta de gelo contribui para acelerar o aquecimento de toda a região. E isso, por sua vez, contribui para acelerar o derretimento gas vastas geleiras que cobrem a Groenlândia.

ÉPOCA: Qual é a importância desse aumento nas áreas escuras do Ártico, que absorvem mais calor?
Notz: Esse fenômeno das áreas escuras de oceano absorverem mais calor do que o gelo é o chamado efeito albedo. Ele é importante para entender o clima da região. Existem outros mecanismos que em parte compensam esse efeito e ajudam a manter a cobertura de gelo. Um deles é que o gelo fino cresce mais rápido do que o grosso. Assim, a cada inverno, a cobertura de gelo se recupera pelo menos um pouco após cada redução. Se o albedo fosse realmente um fator dominante, haveria menos gelo a cada ano no Ártico. No entanto, o que vemos é uma oscilação ano a ano, com ganhos em uns e perdas em outros. E uma tendência geral de redução na área de gelo.

ÉPOCA: Um oceano Ártico sem gelo será bom para a navegação. Abrirá novas rotas pelo norte. Isso não compensa os efeitos negativos do degelo?
Notz: Depende dos valores de cada um. Alguns terão lucro financeiro com um ártico sem gelo. Não há nada errado ou certo com isso. Por outro lado, o derretimento causará o desaparecimento de um ecossistema inteiro. E mudanças climáticas drásticas. Avaliar se os ganhos compensam as perdas não é uma questão científica.
ÉPOCA: Devemos temer a exploração de petróleo no Ártico?
Notz: De novo, não há como responder do ponto de vista científico se os benefícios superam os riscos. Pessoalmente, porém, acredito que uma exploração segura de petróleo no Ártico é impossível. Qualquer acidente com uma plataforma ou um petroleiro teria consequências mais sérias do que em águas mais quentes. Isso porque os pedaços remanescentes de gelo ajudariam a espalhar o petróleo derramado por toda a região.
(Alexandre Mansur)
Foto: Patrick Kelley/ Guarda Costeira Americana
Revista Época

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