16/11/2012

Uma trupe mágica

Com sua mistura de música e teatro, banda O Teatro Mágico é atração de hoje da Bienal Internacional do Livro
Fenômeno da internet que não ficou no primeiro milhão de downloads de fama, O Teatro Mágico volta a Fortaleza como a principal atração musical de hoje na Bienal Internacional do Livro. Juntando música, circo e teatro - ou sendo o próprio teatro em sua forma plena -, a trupe chega com o novo show "A sociedade do Espetáculo", inspirado no escritor francês Guy Debord, cujos textos foram a base do Maio de 68. Líder da banda, o vocalista Fernando Anitelli garante para Fortaleza uma das maiores apresentações do ano.

Os shows da banda O Teatro Mágico costumam ocupar todos os espaços do palco: malabarismos

Desconhecidos da "maioria" e idolatrados por uma legião de seguidores e fãs que sempre lotam os shows, os artistas seguem na música independente e, há quase dez anos, fazem da internet plataforma para seus sons e protestos pela "arte independente".

A web, aliás, é plataforma para muita coisa, mas a maior possibilidade de interlocução ainda hoje a diferencia de outros meios de comunicação. O fato é que uma correlação de "forças" (o artistas e seu público) fez com que jovens parecidos com os recém-saídos dos bancos das faculdades de ciências humanas escutados por outros jovens idem se tornassem um "fenômeno" de popularidade nacional sem tocar no rádio ou na televisão. Até hoje, foram mais de seis milhões de downloads oficiais e outros cinco milhões de transmissões de músicas do primeiro e do segundo CD nos sites Palco MP3 e Trama Virtual.

Estar alheio ao mainstream e ainda assim ser amado pelo público que gosta de suas músicas em várias cidades do Brasil faz de O Teatro Mágico uma caixinha de surpresas. Quem abre, encontra ritmos e canções de amor e de protestos sociais. Encontra voz e violão de Fernando Anitelli (criador e líder) interpretando suas composições, declamando poesias, cantando a palavra; a performance circense de Andrea Barbour e Wallace Kyoskys, voz e guitarra de Daniel Santiago, Tiago do Espírito Santo (baixo), Rafael dos Santos (bateria), Willians Marques (percussão), Galdino Octopus (violino e voz) e Silvio de Pieri (sax e flauta).

Com influência desde Clube da Esquina (álbum coletivo de músicos liderados, em 1972, por Milton Nascimento e Lô Borges) à música tradicional gaúcha, os paulistas de Osasco tentam inovar na estética musical no CD que fecha a trilogia iniciada com Entrada para Raros (inspirada na obra "O lobo da estepe", de Herman Hesse) e "Segundo Ato" (problematiza o primeiro e reflete sobre a "narcotização" da comunicação). O Teatro tem um som próprio que consegue ser legitimado graças às suas letras, com hits que grudam, mas nunca soltos do resto da música, apesar da força de um "só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você", refrão de "O anjo Mais Velho", já garantida para o show de logo mais.

Em "A Sociedade do Espetáculo", o grupo faz uma reflexão sobre a sociedade do consumo a partir do livro homônimo do escritor francês Guy Debord (1931-1994), este fundamentado em Karl Marx. Em miúdos, a noção de valor dada como representação do trabalho socialmente necessário para uma mercadoria reduziu o próprio homem a tal. As faixas mais conhecidas do álbum são "Nosso Pequeno Castelo" e "Amanhã...Será?", inspirada na Primavera Árabe. Ainda tem "Esse mundo não vale o mundo", inspirada nos versos de Cantiga de Enganar, de Carlos Drummond de Andrade. O DVD do último álbum foi gravado neste mês, em São Paulo, com previsão de lançamento para março de 2013. No final do mesmo ano será lançado o quatro CD da trupe, acabando com a suspeita de que ela acabaria após a trilogia.

Independente

Ter os canais alternativos como seu principal meio é uma opção ou única saída por falta de espaço nos meios de comunicação mais tradicionais? "São as duas coisas. A gente já recebeu convite de várias gravadoras, multinacionais, até, todas com o mesmo discurso: administrar o projeto pelos próximos três, quatro anos. Mas a gente bate numa tecla que é sagrada, o público e a nossa obra: o público pode ter acesso como hoje, que é livre?, eles dizem ´não´; o nosso CD pode custar R$5? ´Não´. Então para a gente isso não é interessante", afirma Fernando Anitelli.

Essa briga por espaço fez os artistas de O Teatro Mágico participarem ativamente da atual discussão sobre a política nacional de cultura e os direitos autorais no Brasil, e também fazer pressão na CPI que investigou o Escritório Central de Arrecadação do Direito Autoral (Ecad). "É uma caixa preta, você não sabe com quem fala (no Ecad). O relatório da CPI já comprovou que existe uma quadrilha. Em mais de 30 anos, ele só tem ata de 14 reuniões. Só o Ecad recolhe mais dinheiro que o governo dispõe para a pasta da Cultura durante um ano", reclama Anitelli, que anos atrás foi multado pelo Ecad por tocar as suas próprias músicas em um show. "Porque mandei o set list fora do prazo de 15 dias. Disseram que estavam protegendo minha obra. Protegendo minha obra de mim?", explica.

Bienal

O setlist do show hoje em Fortaleza foi escolhido com base na temática da bienal e na expectativa de rever o público. "Será um apanhado da nossa carreira. É o novo CD, mas tocaremos os grandes clássicos; em Fortaleza não vamos deixar de fora "Camarada Dágua". Também tem música nova, que não gravamos em nenhum local", avisa Anitelli.

Fãs do grupo já combinaram no Facebook de "amanhecer" na fila do Centro de Eventos do Ceará para a distribuição de ingressos a partir das 14h (o show será 19h). Quem não conhece O Teatro Mágico terá a oportunidade de ver uma multidão em coro emocionado que pula e canta acompanhando os "artistas mágicos".

Mais informações:
Show do grupo O Teatro Mágico, hoje, a partir das 19h, na Bienal Internacional do Livro, no Centro de Eventos do Ceará. A distribuição de ingressos começa às 14h.

MELQUÍADES JÚNIORREPÓRTER 
Diário do Nordeste

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