18/01/2013

Dois dos favoritos ao Oscar de 2013 recorrem a temas históricos e ao patriotismo


Revista Época
A HORA H O clímax de A hora mais escura. Os fuzileiros se preparam para entrar no esconderijo de Bin Laden (Foto: Jonathan Olley/divulgação)Dois dos grandes favoritos aos principais prêmios do Oscar 2013 – os filmes A hora mais escura e Lincoln – foram aclamados com uma sequência de notas altas poucas vezes vista na crítica americana. Veículos renomados como os jornais The New York Times e Washington Post, assim como a revista Time, deram 100 para A hora mais escura, previsto para estrear no Brasil no fim de fevereiro. O filme Lincoln, dirigido por Steven Spielberg e que chega aos cinemas brasileiros no próximo fim de semana, aproximou-se da média máxima. A repercussão dos dois filmes não se limitou a Hollywood – chegou a Washington. Os dois filmes, que têm forte pegada política, provocaram debates que vão além da qualidade artística. Desde os anos 1970, época áurea dos filmes sobre a Guerra do Vietnã, obras de cineastas não provocavam tanta controvérsia no centro do poder. Controvérsia em parte estimulada pelos estúdios – que, com finalidades propagandísticas, promoveram sessões privadas para políticos.

A hora mais escura, de Kathryn Bigelow, a mesma diretora de Guerra ao terror, trata da caçada de dez anos que culminou com a morte do terrorista Osama bin Laden, mentor dos atentados de 11 de setembro de 2001. O roteiro é baseado na obsessão de uma jovem investigadora da CIA, a personagem Maya (vivida pela atriz Jessica Chastain e baseada numa agente real, mas que até hoje não teve seu nome divulgado), em encontrar Osama bin Laden e nos obstáculos que enfrenta no caminho. “Queríamos que o foco do filme ficasse nas pessoas que elucidaram esse mistério, os agentes e os soldados da força de elite que trabalharam dia e noite, independentemente de sua afiliação política”, afirmou Kathryn a ÉPOCA. O filme causou protesto de senadores republicanos por causa de uma cena que mostra um detento sendo torturado num galpão no Paquistão. Na cena, um suspeito de terrorismo, cujo nome está atrelado à remessa de dinheiro a um dos executores do ataque de 11 de setembro, é submetido a um chocante interrogatório com violência e humilhação sexual. Os senadores republicanos John McCain, Dianne Feinstein e Carl Levin, membros do comitê de inteligência do Senado americano, redigiram uma carta de protesto endereçada ao estúdio Sony, distribuidor do filme, repreendendo as cenas de tortura e dizendo que as “implicações” dela no filme são “incorretas”.
CAUSA NOBRE Em Lincoln, o lendário presidente americano promove um vale-tudo político em nome de sua convicção pessoal. Ele achava que a escravidão tinha de ser abolida a qualquer custo (Foto: divulgação)
Lincoln, por seu turno, cativou simpatias importantes como a do presidente Barack Obama. Ele assistiu ao filme na sala de cinema da Casa Branca. A cinebiografia do presidente americano e herói nacional Abraham Lincoln (vivido pelo ator britânico Daniel Day-Lewis), que governou o país entre 1861 e 1865, mostra sem disfarces as entranhas da democracia americana da época. As cenas do filme que provocaram mais discussão são aquelas em que se narra como foi aprovada a emenda constitucional que aboliria a escravidão no país. Houve, na ocasião, negociação de cargos e propinas em troca de apoio político. Ou seja, o filme exibe os vícios da nascente democracia americana mesmo quando se tratava de lutar por uma boa causa. Um destaque do filme é a boa atuação do ator Daniel Day-Lewis, que recebeu uma indicação ao Oscar.

Hollywood sempre investiu em versões dos episódios da história americana (leia o quadro abaixo). Existem, no entanto, diferenças essenciais na maneira com que cada época tratou da política. Nos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, produzidos nos anos 1940 e 1950, os americanos são frequentemente heróis lutando contra o nazismo. Nos filmes sobre o Vietnã, Hollywood se dividiu tanto quanto o próprio país. Num mesmo ano, 1978, foram indicados ao Oscar um filme nitidamente contra o conflito, Amargo regresso, com Jane Fonda e Jon Voight, e outro que retratava o drama dos americanos na luta contra os vietcongues, O franco-atirador, com Robert De Niro e Meryl Streep. Era fácil rotular o primeiro como um filme “de esquerda” e o segundo (por acaso, muito melhor) como “de direita”.


A visão que os cineastas têm hoje é bem mais matizada. Pode-se dizer que tanto A hora mais escura como Lincoln – acrescentando-se a estes Argo, de Ben Affleck, que também concorre ao Oscar – são “patrióticos”, no sentido de que defendem as grandes causas americanas: a guerra ao terror e a luta pela democracia. Todos eles mostram, no entanto, os pecados na luta por objetivos nobres. Argo é favorável ao resgate dos americanos presos na embaixada americana em Teerã, mas ao mesmo tempo critica o apoio que os Estados Unidos deram ao ditador iraniano Reza Pahlavi, que levou o país à situação de calamidade mostrada no filme. Para o historiador Richard Holzer, autor de mais de 20 livros sobre Abraham Lincoln, existe hoje nos Estados Unidos uma sede de discussão histórica e política. “Por muito tempo, os cineastas americanos foram relutantes, ou temerosos, ao usar a história do país como inspiração”, diz ele. “Hoje, o povo está ávido por essa janela para o passado.”
  

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