Uma leitura leve e agradável. Em seu novo livro, "De cima da goiabeira", Hélio Passos mistura reminiscências pessoais, do então menino que nasceu em Teresina, em 15 de agosto de 1940, com informações sobre o cenário político-social e cultural do Brasil. O texto que ultrapassa a narrativa literária, enveredando para a construção de memórias. O jornalista, escritor e biógrafo é autor de mais de 18 obras. Ele assina a coluna "Em Vez", publicada todos os domingos, no caderno Gente, do Diário do Nordeste.

Ilustração de Mino para o novo livro do jornalista Hélio Passos
Passos usa a sensibilidade para nortear os textos que compõem o livro. De forma simples, qualidade que o autor considera essencial àqueles que enveredam pelos caminhos da literatura, discorre sobre diversos temas, dividindo aquilo que tem de mais precioso: o conhecimentos. "Quero morrer escrevendo", afirma, justificando deixar várias obras para os filhos e os netos.
Saber
"A minha preocupação quando escrevo é transmitir conhecimento", diz, criticando o egocentrismo daqueles que não dividem o que sabem. Numa demonstração de que está sempre produzindo, fala com entusiasmo sobre o seu novo projeto, o livro "Cruzes na estrada" (nome provisório), fruto de pesquisa que iniciou sobre os marcos colocados nas sepulturas, encontradas ao longo das estradas no interior do Ceará.
O autor já começou a trabalhar, faltando a parte de campo, ou seja, as viagens. A intenção é procurar a família dos mortos a fim de construir essas histórias, protagonizadas por anônimos. No momento, trabalha na distribuição do livro "De cima da goiabeira", dedicado a sua mulher, Maria do Desterro, "único amor da minha vida e a quem devo o céu, a terra e o mar", assinala na dedicatória da obra.
Casado há 44 anos, duas filhas, explica que a obra foi escrita apenas para os amigos e a família, sendo enviada pelos Correios. "Vou continuar escrevendo porque a escrita é a minha vida", projeta Hélio Passos, que incorporou ao seu cotidiano a arte de escrever.
Pela manhã, ao acordar, exercita a atividade, dividida entre leituras. Atualmente, está lendo "O diário da Corte", de Paulo Francis, jornalista que abre o capítulo dedicado ao jornalismo, destacando alguns nomes da imprensa cearense nas áreas da política e do colunismo social. Essa é a obra mais densa do autor, que demonstra habilidade na arte de lidar com a escrita, em textos marcados pela precisão da informação, herança do jornalismo, pontuados por impressões pessoais, fruto de vasta bagagem cultural.
A capa apresenta um design gráfico, que prima pela simplicidade, assinada pelo artista visual Mino (Hermínio Castelo Branco), que traduz em traços, formas e cores precisas, o significado do título da obra: um garoto, lendo um livro, pendurado numa árvore. O jornalista pede para começar a conversa, que funciona como um verdadeiro passeio pela literatura nacional e universal, pelo porquê da escolha do título. "Tinha entre os meus 17 e 18 anos e meu pai, que era folclorista e biógrafo era muito exigente com a minha leitura", lembra Hélio Passos, num tom sereno e didático, assim como foi toda a conversa.
Ele ganhava muitos livros de presentes e só passava para o filho, após uma censura. Os livros "A carne de Júlio Ribeiro" e o "Crime de Padre Amaro", de Eça de Queirós, não passavam pelo crivo do censor. A justificativa era de que essa leitura não fazia bem ao espírito intelectual do jovem, que acabava burlando e conseguindo ler esses livros.
Hélio Passos recorda que "morava num casarão antigo, com janelas azuis e brancas, com um quintal que parecia um sítio, além de um rio ao fundo". O ambiente era favorável para subir numa árvore e ler as obras proibidas, como relata no livro: "Escapando da rígida vigilância do pai, que evitava a todo custo que eu lesse ´obras zarolhas´, eu, menino endiabrado e alucinado por leituras lascivas, arranjava um meio incômodo para chegar a tanto; subia na goiabeira, no fundo do quintal, e ficava lendo". No livro, assim como durante a conversa, a cada obra e autor citados, o jornalista os localiza no tempo histórico. A justificativa é democratizar conhecimento.
Paixão
Os livros constituem a principal paixão do escritor que cita o livro "A dama das camélias", de Alexandre Dumas Filho, como o primeiro que chegou as sua mãos. Hoje, é seu livro de cabeceira, como revela na obra. O amor aos livros e ao conhecimento deve ao pai. "Tive a felicidade dessa vocação ao meu pai, que lia para mim os poemas de Casimiro de Abreu", num tom saudosista, recita "ai que saudade que tenho da minha infância querida..." Não tardou para o jovem mergulhar nos clássicos nacionais e internacionais, reclamando das traduções, que segundo ele, eram péssimas e chegavam com atraso. A paixão por alguns autores foi inevitável, citando entre outros, Eça de Queiroz, José de Alencar, Dostoievski, Tchecov, Tolstoi, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Gonçalves Dias, José Lins do Rego e José Américo de Almeida. No entanto, o autor que mais impressiona o jornalista é "Humberto de Campos, maranhense de inteligência fora do comum, que entrou para a Academia Brasileira de Letras aos 34 anos".
O novo livro do jornalista constitui uma coletânea de textos recentes, publicados em jornais, escritos também para emissoras de rádio e televisão, conforme escreve o autor. Hélio Passos destaca que "mais de uma forma de expressão literária, esta obra é uma forma de conhecimento de outras experiências. Faz-nos aprofundar no mistério dessas experiências. Abre-nos caminhos para nossa identificação com elas. E também para ajuizarmos de nossas discordâncias". É assim a escrita de Hélio Passos, ao tentar dar alma as suas descrições, quer referentes às impressões de sua vida pessoal, como quando fala sobre a infância ou quando fala de temas sociais ou políticos. Aliás, a política constitui um dos seus principais objetos de investigação. Os temas são tratados com um traço característico de sua personalidade. Há anos 11 anos colabora com a colunista Regina Marshall, escrevendo notas políticas.
Música
A música constitui outra linguagem artística apreciada pelo escritor, como faz no texto "Saudosa MPB". "Nos meus 15 anos, o barato era ouvir as ondas curtas da Rádio Nacional, inaugurada em 1936", afirmando que chegou a ser a 5ª emissora mais ouvida do planeta, destacando o elenco formado por cantores, compositores, radionovelistas e humoristas. Fala do surgimento de talentos como Chiquinha Gonzaga, compositora, pianista e maestrina (1847-1935), fazendo referência à marcha-rancho "Abre Alas", de 1899. Fala de Noel Rosa e reproduz a música "Três apitos". Vale lembrar que Hélio Passos nasceu em Teresina, mas muda-se para o Rio ainda na juventude, onde permanece por 19 anos. Em 1974, volta para Fortaleza, no fim do governo de César Cals Neto, escrevendo depois a sua biografia. "Foi a minha melhor criação e fez muito sucesso", conta, ressaltando ser difícil biografar uma pessoa que não conhecia.
Diário do Nordeste
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