A Agência da Boa Notícia inicia uma série de entrevistas com a intenção de dar a palavra a pessoas que se destacam em nossa sociedade pelo trabalho em prol da construção da Cultura de Paz. A primeira entrevistada é a educadora Fátima Limaverde. Ela é coordenadora da Universidade Internacional da Paz no Ceará (Unipaz-CE), fundadora e diretora da Escola Vila e ambientalista, com atuação em movimentos como o SOS Cocó.
Ela tem acompanhado as manifestações que tomam conta das ruas de Fortaleza, a exemplo do que ocorre em outras cidades do Brasil. Embora reconheça que a violência está no “DNA” do Brasil, por conta, da natureza da colonização que dizimou indígenas, escravizou africanos e teve em sua base a desigualdade social, ela acredita que o País vive um momento em que todos nós podemos ser “autores e atores” de uma nova história “se agirmos com planejamento participativo, paz, amor, sabedoria e harmonia.”
Agência da Boa Notícia - Como vc analisa essa eclosão de manifestações ganhando as ruas do Brasil?
Fátima Limaverde - O Brasil foi sacudido nos últimos dias e o povo finalmente acordou do berço esplêndido e caiu na realidade. A ficha caiu e a percepção de como somos reféns na sociedade, marionetes e contribuintes de todo esse processo político e econômico, que nunca atendeu as reais necessidades do povo, chegou na consciência da população. O povo paga os impostos mas não recebe o que lhe é de direito. Quais são os exemplos dignos que temos no nosso país para mostrar para nossas crianças e jovens? Políticos? Jogadores de futebol? Estamos vivendo um momento histórico de grande responsabilidade, essa energia de indignação que acordou a população deve ser bem direcionada para que possamos traçar novas diretrizes e caminhos para um novo modelo de gestão, e só seremos autores e atores dessa nova história se agirmos com planejamento participativo, paz, amor, sabedoria e harmonia.
ABN - Como explicar tanta fúria nos confrontos envolvendo manifestantes e policiais?
Fátima Limaverde - Trazemos a violência em nosso DNA. O Brasil nasceu de uma forma muito violenta. Os colonizadores foram muito violentos, dizimaram milhões de índios, tivemos também a questão da escravidão de nossos irmãos africanos. Carregamos essa marca da violência e do poder que o colonizador trouxe. É como se agora isso esteja sendo vomitado, todo esse processo social do Brasil. Falta amor, consciência de que somos todos da grande família humana.
ABN - É possível mudar uma sociedade sem apelar para o confronto violento? Como?
Fátima Limaverde - É possível sim, desde que nossos dirigentes se sensibilizem e percebam que o nosso sistema político está totalmente desigual, e isso é tão simples de perceber que qualquer criança daria uma solução, um exemplo simples é o salário de um professor: ele formou o juiz, o doutor, o político e representa o profissional que recebe um salário indigno de se viver.
ABN - Se há tantas queixas com relação ao nível da educação no País, o que dizer, então, da Educação para a Cultura de Paz? Estamos muito longe de conseguir isso? Você destaca experiências positivas nesse sentido?
Fátima Limaverde - O problema da educação hoje, na minha opinião, não é mais só recursos, mas sim o modelo educacional que continua no velho paradigma, isso é, da mesma forma que aprendemos há cinquenta anos atrás. Os alunos do século XXI não aceitam mais a aula expositiva, eles querem descobrir, construir o aprendizado e isso não é oportunizado. Os livros didáticos fragmentados sem fazer nenhuma relação com a vida, com a realidade e tudo isso deixa o aluno sem desejo e sem prazer de frequentar a escola. Temos no Brasil modelos de educação que contemplam no seu currículo o exercício da cidadania; a consciência ecológica, política e social; a cultura de paz; valores humanos. A Escola Vila aqui em Fortaleza é um exemplo de trinta e dois anos, onde os alunos egressos tem demostrado que a semente fez a diferença em suas vidas.
ABN - De que maneira a Unipaz está participando desse momento pelo qual passa o Brasil?
Fátima Limaverde - Disseminando a cultura de paz através do Projeto Beija Flor, da Formação Holística de Base concebida por Pierre Weil fundador da Unipaz no Brasil, e que hoje acontece em vários estados através da Unidades existentes, tendo como Reitor atual Roberto Crema. Nesse momento estamos acompanhando os movimentos, levando nossa mensagem através de dinâmicas e vivências de integração, no sentido de unificar o grupo nas intervenções e estratégias a serem tomadas para as mudanças necessárias.
ABN - Que mensagem você envia para essa juventude que começa a se manifestar políticamente a partir dos novos modos de participação e articulação via redes sociais?
Fátima Limaverde - Creio na juventude, vejo que há uma transformação nas gerações atuais. As informações são mais acessíveis e fomenta na consciência desses jovens a importância de justiça social, de solidariedade, de valores morais e de desejo de consertar o mundo. São honestos e justos nas suas atribuições e deixam de lado o jeitinho brasileiro das gerações que deram continuidade a todo processo histórico que carregamos até hoje de injustiça e desigualdade. É importante que todos os jovens busquem seus direitos com dignidade, respeito e fundamentação, assim a paz estará presente nesse processo de transformação e transmutação para um novo modelo de sociedade.
Fonte: Agência da Boa Notícia
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