Carlos Alenquer*
Telefônicas surdas. O atendimento eletrônico da Oi agora tem nome de gente. É uma voz convincente – pelo menos mais do que a da GVT, que grita no seu ouvido sobre oportunidades perdidas de uma grande oferta para pagar menos pelas tarifas.
Quando você liga, a gravação se identifica como Eduardo, ou outro nome que o valha. Mas, como você não consegue respostas ao que pergunta, a gravação encaminha seu pedido para uma atendente com sotaque carioca; ela diz que a transferência de seu número para outro endereço será feita em 72 horas, a custo de 50 e tantos reais; e você insiste, desconfiado: e se o telefone ficar mudo nesse intervalo? “Nâo”, diz gentilmente Aline, ou outro nome que o valha. E acrescenta: “Seu telefone só será desligado no dia em que for transferido”.
Dez minutos depois, você tenta ligar para alguém – e seu telefone está mudo. E não adianta reclamar com o Eduardo, ou outro nome que o valha. Ele tem nome, fala, mas é surdo – tão surdo quanto a voz da GVT. É o preço que se paga pelo atendimento surdo. E mudo. [25/jun/2013]
Terno azul. Madames não gostam que Galvão Bueno apareça tanto tempo nos minutos finais do Jornal Nacional. Temem que ele acabe – além de tomar o precioso tempo de William Bonner e Patrícia Poeta – por assumir todos os papéis principais da novela das nove. [25/jun/2013]
Um Sherlock elementar. Ao contrário do detetive da série da Universal, nossos especialistas da TV a cabo, que ficam horas a fio discutindo as manifestações de rua, não conseguem responder a uma pergunta muito simples: por que o vandalismo continua a deixar sua marca por todas as cidades, destruindo exatamente aquilo que outros querem reconstruir?
Depois do chamado Movimento do Passe Livre ter conseguido seus objetivos, entra no ar o Movimento Contra a PEC 37 – que, por sinal, nenhum leigo sabe honestamente se é boa ou má. A OAB, por exemplo, acha a proposta interessante.
Detonada a PEC – que, segundo alguns, foi pautada pela grande mídia – o que virá depois? A reforma política? Mas não se faz reforma política sem a participação dos políticos. Como as manifestações se dizem apartidárias, quem vai fazer essas reformas? A Medida Provisória?
Nas redes sociais, os facebookistas discutem quem está manipulando as manifestações e quais os interesse dessas pessoas. Querem mesmo protestar ou apenas o caos? Querem colocar os políticos contra a parede ou tornar o País ingovernável?
As pessoas sabem exatamente o que estão fazendo nas ruas – ou, como diz Ariane Campos, leitora deste Diário, apenas fazem parte da Marcha da Zumbilândia?
Nenhuma dessas dúvidas poderá ser esclarecida se os especialistas não responderem a uma simples pergunta: – A quem interessa a paralização do País? O Sherlock que matar a charada vai desvendar o mistério. [24/jun/2013]
Vem pra rua! O fato de as manifestações populares utilizarem, como slogan, o comercial do Johnnie Walker e, como trilha sonora, o jingle da Fiat, não desqualifica as passeatas – ao contrário do que entendem alguns leitores deste Diário. Na verdade, nossos caminhantes apenas seguem a tendência dos movimentos reivindicatórios contra tudo e contra todos que ocorrem nos mais variados cantos do planeta.
Nossos protestos, por seu caráter difuso, querem cobrir uma quantidade imensa de reivindicações – e por isso tiveram dificuldades em expor seus verdadeiros objetivos. Coisa que a presidente, em seu pronunciamento desta sexta, tentou resumir com alguma coerência. (Só pra lembrar: dizia-se antigamente que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Parece óbvio, mas não é.)
Seja como for, o samba do crioulo doido, finalmente, tomou forma: saúde, educação e mobilidade (não exatamente nesta ordem), são os pontos fundamentais de toda essa mobilização. Dizer que isso é apolítico apenas reforça a ideia de que mudanças podem acontecer independentemente das instituições democráticas, como aliás acreditavam os seguidores da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, nos idos de março.
Por essas e por outras – e nâo sem motivo – a elite rude da Barra da Tijuca, perto do Shopping Down Town, fez valer sua opinião apartidária: entoou uma sonora vaia antes mesmo de Dilma começar seu pronunciamento na TV. [22-23/jun/2013]
Mais uma aula de jornalismo. Do Observatório de Imprensa. [22-23/jun/2013]
*Carlos Alenquer começou como jornalista (repórter e redator de rádios e jornais) em Fortaleza, depois no Rio e em Belo Horizonte. Migrou para a propaganda, mas continuou colaborando em vários jornais e revistas. Tem dois livros publicados: Anúncios (Achiamé, Rio) e 21 Poemas (Mazza, BH).
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