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13/07/2013

As Confissões de Santo Agostinho

"Para Agostinho, o tempo é uma distensão de nossa alma, o passado é o presente das coisas em nossa memória, o presente é o presente das coisas em nossa atenção e o futuro é o presente na expectativa das coisas que virão".

Francisco José da Silva*


Aurelius Agustinus (354-398) é um dos maiores filósofos cristãos de todos os tempos, produziu uma obra imensa. Podemos citar, entre outras, Confissões, Livre-arbítrio, Doutrina cristã, A verdadeira religião’ A Trindade e Cidade de Deus, em que são discutidas as principais questões dos primeiros séculos do Cristianismo. Agostinho foi professor de retórica, envolveu-se com o maniqueísmo, além do platonismo e do neoplatonismo (Plotino), tornou-se cristão e posteriormente bispo na cidade africana de Hipona.
Sua obra fundamental e mais conhecida é Confissões (escrita entre 397-398), em que apresenta o seu processo de conversão, além das angústias e problemas teológicos enfrentados por ele. Esta obra é composta de duas partes e 13 capítulos, na primeira parte trata dos seguintes pontos: infância (I), os pecados da adolescência (II), os estudos (III), o professor (IV), em Roma e Milão (V), entre amigos (VI), a caminho de Deus (VII), a conversão (VIII), o batismo (IX), o encontro de Deus (X); na segunda parte, a análise do tempo (XI), a criação (XII) e a paz (XIII). É uma obra de rara beleza literária, intercalada com orações e diálogos com Deus, nos quais podemos entrever todos os afetos e sentimentos do filósofo diante das mais variadas experiências de sua vida, sua busca incessante pela serenidade e paz de espírito, sua investigação sobre o mal e sua origem na liberdade humana, seu encontro de Deus no mais intimo do homem, bem como sua análise profunda da memória e do tempo.

Entre as questões mais discutidas por ele, podemos destacar a questão da origem do mal, a crítica do maniqueísmo, a análise da memória e do tempo, a compreensão da Trindade e a teoria das duas cidades. Na obra Confissões, destacamos a análise da memória, que parte da busca de Deus no livro X, uma das mais belas páginas da literatura espiritual do Ocidente, onde o autor pergunta a todos os seres da natureza pela identidade de Deus, acabando por encontrá-lo no seu interior, na intimidade, em especial na memória, o receptáculo de todas as nossas percepções, o “ventre do espírito” diria Agostinho.
Em seguida, o autor faz uma reflexão sobre as paixões e as tentações que nos afastam de Deus, chagando a chamada tríplice tentação “a concupiscência dos olhos, da carne e a ambição do mundo” (Livro X, cap. 30). O tempo surge no livro seguinte (XI) como o grande mistério a ser devassado pelo filósofo de Hipona. Segundo ele, como podemos medir o tempo se ele é um perpétuo fluxo? Como podemos falar de passado, presente e futuro, se o primeiro já não mais existe, o segundo é mobilidade constante e o último ainda não existe?

A conclusão de Agostinho é que o tempo é uma “certa distensão da alma” (Livro XI, cap.26-28), refutando as ideias dos antigos gregos de que o tempo seria um movimento cosmológico ou resultado do movimento dos astros (como pensavam Platão e Aristóteles), citando o livro de Josué (Josué 10, 11), Agostinho demonstra que mesmo quando na narrativa o Sol é parado por Deus, a duração dos acontecimentos permanece e os judeus conseguem conquistar Gabaon.
Para Agostinho, o tempo é uma distensão de nossa alma, o passado é o presente das coisas em nossa memória, o presente é o presente das coisas em nossa atenção e o futuro é o presente na expectativa das coisas que virão. Com isso, o filósofo de Hipona muda a concepção de tempo antiga (pensado agora como tempo psicológico) e desenvolve o conceito de interioridade, desconhecido pelos gregos.

*Francisco José da Silva é mestre em Filosofia e professor da UFC Cariri

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