25/07/2013

Má distribuição de renda


Nenhuma medicina racional suportaria constatar febre alta e constante no enfermo sem fazer pesquisa séria sobre a etiologia. Uma vez atingida a causa, seria criminosa se não organizasse terapia adequada. O corpo físico tem a vantagem de denunciar imediatamente tanto a doença quanto a cura.

O corpo social do Brasil faz séculos está enfermo da má distribuição de renda. Vem projeto, sai projeto. Cria-se outro projeto. Mudam-se os governos. Até sociólogo esperadamente de corte de esquerda assume o poder. Lá vem o IBGE com o mesmo diagnóstico de doença grave, persistente, até agora incurável: má distribuição de renda.

Já não se pode atribuir à simples burrice humana. A ciência da economia já tem muitos modelos de desenvolvimento, muitas pesquisas e experiências bem sucedidas em diversos países. Nem mesmo a ignorância das causas endêmicas dessa doença tropical. Só pode ser descuido com o doente, falta de responsabilidade política daqueles que têm condições de reverter o quadro, acomodação do doente que fica à espera do remédio às portas das farmácias dos políticos corruptos.

É hora de reverter absolutamente o quadro. Os governos populares começaram esperançosos. No entanto, os colarinhos brancos continuam a roubar à vontade na certeza tranquila da impunidade cúmplice dos três poderes. Difícil libertar-se à revelia de poderes maiores. A sociedade civil necessita de muita energia espiritual para, cansada e desiludida da gentalha que a domina há séculos, forçar a mudança de rumos da nação.

Rasgou-se a túnica inconsútil do desmando com o processo de impeachment ao Presidente Collor e a consequente renúncia, com a prisão de um presidente de Tribunal, com a cassação de senador e deputado por corrupção com algum que outro gesto de punição dos até então impunes.

Agora há força política para que a ponta do iceberg revele o conjunto da política nacional que até então desconheceu os elementos básicos da constituição: soberania e natureza popular. Soberania reivindica não ser notas de rodapé dos scripts de Washington. O primeiro olhar seja para a própria nação, sobretudo se ela é pobre, marginalizada. Mais que nenhuma carece de autodefender-se dos devoradores de sempre.

A natureza popular da política visa diretamente à melhor distribuição de renda. É de evidência palmar que todos ganham com ela. A fortuna, que os ricos gastam para defender-se da pobreza, seria muito mais bem empregada ética e materialmente se dirigisse a diminui-la. Os poderosos dormiriam mais tranquilos de consciência e de perigos orquestrados ou imaginados advirem da mancha escura da pobreza.

Grandes espaços das grandes cidades são roubados continuamente dos habitantes, ao serem interditados pela violência urbana. Foge-se deles. Ou passa-se por eles na velocidade da luz para não se deixar surpreender nalguma malha perigosa do tráfico. E durante a noite a cidade está quase inteiramente fechando-se para os verdadeiros moradores, ilhados nos apartamentos ou condomínios, enquanto a marginalidade solta, reina. Já não se habita a cidade. Tudo vem sendo modificado lentamente, a olhos vistos, sem que algo de substancioso se faça. E a febre da má distribuição persiste corroendo o organismo. Podíamos olhar para a política e exclamar como Cícero ao ver o arqui-inimigo Catilina imune, perpetrando seus crimes: “Até quando abusarás de nossa paciência? Por quanto este teu furor nos engana?”

João Batista Libânio é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação. 

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