Biólogo espanhol assassinado em reserva ambiental que defendia no interior do Rio de Janeiro
![]() Gonzalo Alonso Hernández: amor pela natureza e um tiro na cabeça (Foto: Arquivo) |
Por Francho Barón*
Da casa que Gonzalo Alonso Hernández construiu no topo de um bucólico monte a 850 metros de altura, a beleza do cenário era de tirar o fôlego. O lugar é um dos pontos mais altos que rodeiam um vale cortado pelo rio das Pedras. Lá, Gonzalo passava horas contemplando o Pico do Papagaio e, um pouco ao lado, a pedra Chata, uma montanha com 1.380m de altura, que ele raramente escalava em seus passeios pelo parque natural de Cunhambebe.
O biólogo espanhol de 49 anos, calçando botas de caçador, percorria diariamente, na companhia de seus três cães, as trilhas desse lugar idílico onde só mesmo um eremita ou um louco viveriam em completo isolamento. E ele o fez até que no domingo (11.08) alguém acabou com sua vida com um disparo na nuca.
Gonzalo chegou ao Brasil em 1997, enviado pela empresa espanhola Telefônica, onde ocupava o cargo de executivo na área de investigação e desenvolvimento, com a missão de implantar uma filial de telefonia móvel da Vivo. Nos primeiros anos viveu no Rio mas, com o passar do tempo, passou a cultivar o sonho de comprar um pedaço de terra em algum lugar isolado onde pudesse viver a uma distância segura das grandes cidades. Comprou uma área de 3,6 hectares há 40km de Angra dos Reis e teve a sorte de, pouco depois, que a área fosse declarada reserva ambiental.
Um defensor da natureza
Na primeira vez que subiu até o ponto mais alto da sua pequena propriedade, em frente ao Pico do Papagaio, prometeu a si mesmo passar ali o resto da sua vida. Essa declaração íntima de intenção aconteceu pouco antes de a Telefônica tentar de todas as maneiras levá-lo de volta à Espanha. Gonzalo não apenas se recusou como forçou sua demissão definitiva da empresa. Virada essa página, o biólogo fechou seu apartamento no Rio e subiu a montanha de onde nunca mais desceu.
Vivia sozinho de segunda a sexta, na companhia apenas dos cachorros e de alguma visita esporádica. Nos fins de semana sua companheira, Maria de Lourdes Pena Campos, de 48 anos, percorria os 160km que separam o Rio da “Chácara do Montanhês”, como o biólogo batizou sua propriedade, para estar com o namorado e descansar do seu trabalho de consultora técnica de uma concessionária de carros de luxo.
Logo Gonzalo tornou-se conhecido na região como o flagelo de quem tentasse agredir a natureza exuberante do parque de Cunhambebe com seus 38 mil hectares de montanhas e mata atlântica. Não raro era visto metido em discussões com “pilotos” de motoserras ou tirando fotos e filmando as atividades ilegais de extratores de areia do rio das Pedras. “Ele tinha uma forma brusca e descontrolada de falar com esse tipo de gente,se percebia algo que lhe desagradasse, mas mesmo assim era uma pessoa querida na comunidade”, conta José Amado Alves, um dos vizinhos que encontraram seu cadáver no dia 11 de agosto.
Um tiro na nuca
No domingo antes de sua morte, Gonzalo acordou, tomou o café da manhã na companhia de Lourdes e foi à missa. Depois do seu passeio matutino, preparou uma paella que os dois saborearam no almoço. Depois de da dose costumeira de cachaça, fez uma breve siesta e, à tarde, levou Lourdes ao terminal rodoviário de Piraí, de onde a mulher embarcou para o Rio. Ali se despediram pela última vez com um beijo.
Ás 20h30 o casal conversou por telefone pela última vez. Mais tarde, porém, Lourdes voltou a ligar várias vezes, mas o telefone não atendia. Cedo na segunda-feira, ela decidiu voltar às pressas ao local. O carro de Gonzalo estava na garagem e a casa permanecia fechada, mas os fios de luz e telefone tinham sido cortados.
Não foi preciso ir muito longe. No dia seguinte os irmãos Amado e Adão Alves encontraram o corpo inerte do biólogo a 15 metros do portão de acesso à propriedade. O cadáver estava submerso a meio metro de profundidade no rio das Pedras sob folhas de bananeira. Segundo as investigações preliminares, Gonçalo levou um único tiro na nuca.
O projétil foi encontrado perto do corpo. Seu computador portátil e o telefone celular desapareceram. Para o comissário da Polícia Civil de Rio Claro, Marco Antônio Alves, a primeira hipótese é que tenha sido um crime de vingança por se tratar de um biólogo comprometido com a causa ambiental, um homem que protestava e enfrentava quem ameaçasse a integridade do parque de Cunhambebe. Oficialmente só existe uma denúncia contra um grupo de exploradores do Rio das Pedras onde o corpo de Gonçalo foi encontrado submerso.
*A reportagem de Francho Barón foi publicada no jornal espanhol El País. Tradução: Marco Lacerda

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