Cigano autêntico, o ‘bailaor’ de Sevilha fascina platéias ao redor do mundo com a magia de sua dança.
![]() Farruquito: estréia na Broadway aos cinco anos (Foto: Divulgação) |
Por Marco Lacerda*
São pouquíssimos os ‘bailaores’ que restaram e que guardam a essência do melhor flamenco. Mais difícil ainda é encontrar um deles com menos de 30 anos. Aos 28, Farruquito conquistou seu lugar nesta cena tão peculiar há bastante tempo o seu lugar na cena cultural espanhola.
O flamenco é uma arte em que a transmissão genética, ou melhor dizendo, a cultura compartilhada em família sempre teve papel fundamental na continuidade dessa forma de expressão corporal. ‘Farruquito é neto do grande Farruco, um dos mais impressionantes ‘bailaores’ da história por sua capacidade inesgotável de transmitir emoção.
Cigano de boa cepa, nascido em Sevilha, Juan Manuel Fernández Montoya, o Farruquito, foi criado na tradição do flamenco clássico com as chaves culturais específicas da sua etnia. Além disso, é um jovem apaixonado pelos filmes da ‘época dourada’, leitor voraz de boa poesia e romances de Gabriel García Márquez. Não podia dar errado.
Em apresentação recente em Granada, o bailaor Farruquito disse ao público que superlotava o teatro que “para ser um dos bons na dança flamenca é necessário mergulhar de cabeça nela, informar-se sobre suas vivências, sua cultura, seu canto e suas guitarras, porque não se pode aprender uma forma de viver trancado num estúdio”.
A dedicação, a disciplina diária e a paixão são outros ingredientes para tornar-se um bom bailaor de flamenco, porque, graças a sua vasta experiência, apesar da pouca idade, “esta é uma estrada que, uma vez iniciada, não tem fim”.
Patrimônio da humanidade
Seu grande mestre foi o avô, Farruco, mas também lhe serviram como inspiração outros profissionais, pois nesta arte aprende com todo mundo. Por isso mesmo Farruquito leva aos palcos em que sobe a experiência de uma legião de companheiros de profissão.
Um de seus maiores ídolos sempre foi Michael Jackson, pois, apesar da música pop ser bastante diferente do flamenco, leva em suas raízes algumas semelhanças, principalmente no que diz respeito a sentido de ritmo. “Jackson transmitia verdade, preparo e segurança no palco”, diz Farruquito que confessa sentir-se identificado com a forma de fazer as coisas que sempre conduziu o rei do pop. Dos componentes das performances de Jackson o único que o jovem bailaor nunca adotou foi a grandiosidade dos cenários.Para ele isso deve estar sempre em segundo plano.
Aos que defendem a opinião de que o flamenco deve evoluir ele responde: “Tudo evolui, mas o belo é encontrar o equilíbrio entre tradição e evolução. Por causa disso, segundo os críticos espanhóis seus espetáculos estão lotadas, com fila de espera na porta do teatro.
Juan Manuel Fernández Montoya nasceu em 1984. Seu pai, morto em 2001, era o cantaor Juan Fernández Flores, El Moreno, e sua mãe, a bailaora Rosario Montoya Manzano, La Farruca. Debutou na Broadway quando tinha apenas cinco anos e, aos 15, participou ao lado do avô do filme ‘Flamenco’, de Carlos Saura.
Farruquito foi condenado a três anos de prisão pelo atropelamento e morte de Benjamín Olalla, em setembro de 2003. Obteve liberdade condicional depois de seis meses graças ao uso de uma pulseira de controle que lhe permitia dormir fora do cárcere pois era controlado à distância pelo dispositivo. Principal herdeiro da dança de seu avô, Farruquito encarna formas de sentir e expressar o flamenco hoje consideradas universalmente patrimônios da Humanidade.
"Flamenco", filme de Carlos Saura, com Farruquito. Veja o vídeo:
*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total

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