15/10/2013

Ponha lá o seu pezinho

Guimarães Rosa acertou em cheio ao mapear, à sua maneira, a afetividade portuguesa.


Por Lev Chaim, de Amsterdã*
“Gosto muito do português, principalmente de sua integridade afetiva” (Guimarães Rosa)

Ao abrir a janela do quarto do hotel, olhar para o mar agitado do Funchal (capital da Madeira) e ver o tempo nublado, fiz o que faço há anos. Recitei a minha frase preferida, para mudar tudo e deixar o sol aparecer: “Com Deus tudo se aclara”. As vezes dá certo, mas já no café da manhã percebi que uma mudança iria demorar. Deixei o mergulho submarino de lado e fui para a cidade. 

Mesmo sendo a décima vez que pisava na ilha, sempre me surpreendia com os portugueses madeirenses. Quando eles conversam entre si, soltos na toada do papo, tinha a nítida impressão de estar ouvindo outra língua – o russo, por exemplo.Parecia que essas duas línguas tinham a mesma entonação. E ainda mais agora,que a ilha estava cheia de turistas russos. 

O mais estranho é que não era só eu que dizia isto, mas também os holandeses que me acompanhavam. A musicalidade do madeirense, a pressa em pronunciar as palavras, atropelando-as aqui e ali, dava a falsa impressão de se estar ouvindo uma outra língua qualquer e não o português (algum linguista poderia me dar uma explicação plausível para isto?).

Entrei no shopping center, à procura de um óculos de mergulho. Foi aí que bati os olhos na Bertrand Livreiros (a livraria Bertrand, a mais antiga do país, com a primeira loja fundada no Chiado em Lisboa, em 1732).Comprei dois livros: O homem lento, do Nobel de literatura J.M. Coetzee, e Os anagramas de Varsóvia, de Richard Zimler, norte-americano que vive no Porto, autor do best-seller, O último cabalista de Lisboa. Aliás, Zimler está no Brasil para lançar o seu último romance, O sentinela. 

Daí a pouco, bati os olhos em uma linda vitrine de uma loja de sapatos para homens e mulheres. Entrei para vê-los mais de perto e notei o vendedor ocupado com uma jovem cliente, que experimentava vários sapatos de salto alto, de diferentes cores.

Num determinado momento, tirando um sapato e tentando calçar um outro no pé da moça, o vendedor, de joelhos, soltou a frase que ficou gravada em minha cabeça o dia todo, as férias toda. 

“Ponha lá o seu pezinho!”. Aquilo me trouxe o sorriso aos lábios e foi um motivo para que demorasse um pouquinho mais, para poder ouvir o resto. A moça, gentilmente, agradeceu ao rapaz. A cada nova prova, a mesma frase saia da boca do vendedor.      Passaram-se cinco pares até que ela decidisse pelo de cor vermelha.

Concentrei-me agora num modelo de sapato, enquanto esperava o vendedor terminar com a cliente. Mesmo assim, fiquei de ouvidos abertos para a cena ao lado. Ela pegou o par escolhido e se dirigiu ao caixa. Ouvi quando ela disse ao vendedor que em Lisboa não se podia encontrar algo tão “giro”, ou seja, tão bonito. 

Foi aí que notei o tamanho dos pés da jovem senhora – bem maiores que os meus. E olhe que eu já calço 40 ou 41. Encarei o vendedor à procura de algum sinal de ironia, mas não notei absolutamente nada. Ele estava concentrado em juntar os sapatos rejeitados para levá-los de volta ao estoque. Antes de sair, ele encarou-me e disse: “É este modelo que queres? Volto já e trago os sapatos”. 

Daí há alguns minutos, ele já vinha com várias caixas, para que eu escolhesse a cor que mais gostasse, pois todos eram modelos parecidos, 40 ou 41.Só de olhar o sapato na minha mão, ele já sabia o que eu queria, disse ele orgulhoso. 

Havia tirado o tênis para experimentar o primeiro sapato que me era oferecido pelas mãos hábeis do vendedor. Com a calçadeira na mão, ele tentava me ajudar. Foi então que ouvi novamente:“Ponha lá o seu pezinho”. Que hilário, que gentil!Queria rir, mas não podia. 

Ao sair da loja com o sapato novo (os francanos que perdoem), o vendedor, à porta, desejou-me um bom dia, e disse:“Vá com Deus!”. Neste exato momento, lembrei-me da última entrevista dada por Guimarães Rosa ao escritor e jornalista Arnaldo Saraiva, em novembro de 1966, quando ele comentou: “Gosto muito do português, sobretudo da sua integridade afetiva.”  

E Guimarães Rosa acertou em cheio ao mapear a afetividade da alma portuguesa dessa forma. E não é que quando saí à rua, o sol já brilhava! “Com Deus tudo se aclara!” – lembram-se? Vocês podem não acreditar, mas aconteceu assim mesmo. É bom acrescentar que o vento estava forte, o que também talvez tivesse ajudado a espantar as nuvens. Tchau e até a próxima terça.
*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora. Escreve todas as terças-feiras no Domtotal.

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