No final de setembro, uma discussão entre funcionários de uma fábrica da Foxconn em Taiyuan, no norte da China, na qual trabalham 79 mil funcionários, acabou se transformando em um tumulto generalizado. A manifestação, que teria sido motivada pela insatisfação crescente dos operários com as condições de trabalho, envolveu cerca de dois mil trabalhadores e deixou um saldo de 40 feridos. Só foi controlada dez horas depois, com a intervenção da polícia, que enviou 5 mil homens do batalhão de choque ao local. Em 2010, numa outra fábrica da Foxconn na China, 18 trabalhadores tentaram o suicídio – 14 morreram. Como os salários são baixos – o valor inicial, hoje, depois dos três aumentos concedidos desde 2010 é de US$ 290 (R$ 600) por mês –, muitos funcionários multiplicam as horas extras para aumentar seus ganhos. Uma auditoria encomendada pela Apple constatou a realização de jornadas de mais de 60 horas por semana, por até 11 dias sem descanso, e levou a Foxconn a promover mudanças no ambiente de trabalho e a fixar limites para as horas extras.
Inimagináveis até pouco tempo atrás, as violentas disputas trabalhistas ocorridas na Foxconn, o maior empregador privado da China, são um símbolo das grandes transformações que se estão esboçando no país, o motor mais potente da economia mundial nas últimas décadas. Vários setores estão sofrendo com o aumento de salários e a escassez de mão de obra. Ao mesmo tempo, a crise global, iniciada em 2008, escancarou a forte dependência chinesa em relação às exportações de manufaturados e colocou em xeque o bem sucedido modelo econômico da China, centrado na manufatura para exportação, na mão de obra barata, no câmbio desvalorizado e nos grandes investimentos estatais na indústria, na área de serviços e em obras de infraestrutura, como estradas e aeroportos. Como mostra o caso da Foxconn, as condições que garantiram até agora o sucesso do “capitalismo de Estado” ou “socialismo de mercado” chinês, permitindo a saída de dezenas de milhões de pessoas da miséria absoluta, dificilmente serão mantidas daqui para frente.
É difícil dizer se os novos
líderes da China estarão à
altura do desafio que lhes caberá e
se conseguirão realizar os ajustes
necessários para dar continuidade
ao “milagre econômico” chinês
Além de mudanças significativas na economia, uma troca na cúpula do poder, realizada a cada dez anos, está acontecendo no momento. Nesta semana, os novos líderes Xi Jinping e Li Keqiang deverão ser confirmados pelo Congresso Nacional do Partido Comunista da China para assumir o comando do país a partir de 2013. Eles irão substituir, respectivamente, a Hu Jintao, atual secretário-geral do Partido Comunista Chinês e presidente da República, e Wen Jiabao, o primeiro-ministro do país. Embora a expectativa seja de que eles sigam a rota traçada até agora por Jintao e Jiabao, é difícil dizer ao certo se estarão à altura do desafio que lhes caberá e se conseguirão realizar os ajustes necessários para dar continuidade ao “milagre econômico” chinês. “A crise financeira global foi um alerta para o Partido Comunista de que é hora de a China mudar o modelo que lhe serviu muito bem nas últimas décadas”, diz o economista Ren Xianfang, da consultoria IHS Global Insight, baseado em Pequim. “Os líderes chineses estão se distanciando do mantra do crescimento a qualquer custo.”
Hoje, a China é a segunda maior economia global, atrás apenas dosEstados Unidos. Qualquer suspiro do país certamente terá impacto no resto do mundo, inclusive no Brasil, que se tornou “sino-dependente” nos últimos anos – a China está prestes a desbancar os EUA como maior parceiro comercial brasileiro. Do crescimento econômico à competitividade da indústria nacional, dos preços das commodities, como soja e minério de ferro, às exportações, quase tudo, hoje, no Brasil (e no mundo) está sob a influência direta ou indireta da China. “Os próximos três anos serão críticos para os próximos vinte”, afirmou o economista David Li Daokui, diretor do Centro para a China na Economia Mundial, ligado à Universidade de Tsinghua, de Pequim, durante um seminário realizado em setembro pelo Fórum Econômico Mundial.
Em 2012, o crescimento do PIB deverá ficar em torno de 8%, segundo as estatísticas do governo chinês. Apesar de ainda ser uma taxa de crescimento significativa – o Brasil deverá crescer menos de 2% em 2012 – é muito menos que os 10% a 11% ao ano que a China tem alcançado nos últimos anos. Alguns acadêmicos, como Michael Pettis, professor de finanças na Universidade de Pequim, desconfiam das estatísticas oficiais e estimam que a China esteja “rodando” bem abaixo disso. Segundo Pettis, o crescimento real pode ser a metade do anunciado pelo governo. “O consumo de energia está negativo no ano, sugerindo que o crescimento é substancialmente menor do que indicam os números oficiais”, afirma, num artigo recente sobre a importância do reequilíbrio da China para o mundo. “As condições são tão alarmantes que, neste ano, o primeiro-ministro Wen Jiabao já fez vários alertas de que a economia está sob severa pressão.”No novo plano quinquenal, apresentado em março, o 12º desde a Revolução Comunista de 1949, o governo chinês elegeu duas grandes prioridades, com o objetivo de reduzir a dependência externa e compensar o impacto da crise global no setor industrial – o estímulo ao consumo interno e a expansão do setor de serviços, dos atuais 43% para 50% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2015. Se o plano, que estabelece as diretrizes da política econômica até 2016, funcionar como previsto, o modelo econômico chinês deverá passar por uma mudança considerável nos próximos anos. "Enfrentamos uma situação doméstica e internacional complexa e teremos de trabalhar duro para atingir nossos objetivos", afirma Jiabao. O plano leva em conta um cenário de desaceleração da economia, e estabelece a meta de crescimento em 7% ao ano, bem abaixo dos 10% a 11% ao ano registrados no passado recente. "Um crescimento rápido proporcionará mais emprego, mas trará também maior pressão inflacionária", diz Jibao. “Precisamos aproveitar a oportunidade para ajustar o crescimento e regular os fatores desequilibrados, descoordenados e, em última instância, insustentáveis que existem na economia chinesa há muito tempo".
Hoje, a questão do ritmo de desaceleração da
economia chinesa – o soft landing (pouso suave)
e o hard landing (pouso acidentado) – alimenta
discussões apaixonadas entre analistas externos
e domina a “indústria” global de prognósticos
Mesmo que os dados oficiais estejam certos, haverá uma redução e tanto no crescimento do país, com impacto negativo na demanda chinesa por matérias primas, em especial aquelas usadas pelo setor industrial, como minério de ferro, que é uma das principais exportações brasileiras para a China. “Nos próximos dez anos, o crescimento desproporcional da demanda chinesa por commodities minerais praticamente desaparecerá”, diz Pettis. De certa forma, sua previsão já está se concretizando em 2012, mas deverá se aprofundar ainda mais no médio e no longo prazo, se a desaceleração da economia se confirmar. Provavelmente, se não fossem os pacotes bilionários de estímulo lançados pelo governo chinês para atenuar os efeitos da crise e manter a economia em expansão, os danos causados ao Brasil e a outros países exportadores de minérios, como a Austrália, já seriam bem maiores, com impacto até no câmbio, em função da entrada de menos recursos externos no caixa.
Hoje, a questão do ritmo de desaceleração da economia chinesa – o soft landing (pouso suave) e o hard landing (pouso acidentado) – alimenta discussões apaixonadas entre analistas internacionais e domina a “indústria” global de prognósticos. Mas até agora, pelo que se pode observar, a transição chinesa tem caminhando de forma aparentemente tranqüila, se é que se pode chamar de tranquila uma guinada dessas na economia da China, o maior exportador mundial, com uma fatia de 10,4% do total das exportações, e o segundo maior importador, atrás apenas dos EUA, com 9,1% das importações. “A China está em muito melhor forma que o restante do mundo”, afirma Stephen Roach, professor da Universidade Yale, nos EUA, e ex-presidente do Morgan Stanley, um dos maiores banco americanos de investimento, na Ásia . “Há uma poderosa estratégia de reequilíbrio sendo implementada, que oferece o suporte cíclico e estrutural para evitar um pouso acidentado.”
Com as pressões crescentes dos trabalhadores chineses por aumentos salariais e a ligeira valorização acumulada pelo yuan nos últimos anos, a competitividade da China já vem perdendo algum espaço para outros pólos industriais emergentes, como México, Vietnã, Cambodja e Bangladesh. Esse movimento deverá tirar um pouco da pressão exercida sobre a indústria de outros países, como o Brasil, se não for anulado, no caso brasileiro, por uma nova valorização do real, considerada improvável por muitos analistas, dado o empenho do governo brasileiro em manter o câmbio na faixa de R$ 2 – ou até um pouco mais – por dólar.
“O crescimento baseado em exportações impôs custos e riscos aos parceiros econômicos da China”, diz o americano Nicholas Lardy, do Instituto Peterson para Economia Internacional, com sede em Washington, nos EUA, vice-presidente do Comitê Nacional de Relações Estados Unidos-China e autor de uma série de livros sobre o país, o mais recente dos quais é “O crescimento da China depois da crise econômica global”, sem tradução no Brasil. “Se o crescimento da China se reequilibrar e o superávit nas contas externas for reduzido, os custos e riscos de seus parceiros também deverão diminuir.”
Com a mudança no modelo econômico
chinês, o longo ciclo de deflação nos preços
dos manufaturados, viabilizado pela integração
progressiva do país no mercado global,
também deverá chegar ao fim
Essa mudança certamente será festejada pela indústria mundial e brasileira, mas não será uma boa notícia para o consumidor. Se a mudança mencionada por Lardy realmente acontecer, o longo ciclo de deflação nos preços dos manufaturados, viabilizado pela integração progressiva da China no mercado global, também estará chegando ao fim. No Brasil, isso será agravado, em prejuízo do consumidor, pelo fim do ciclo de valorização do real, que se manteve em alta por quase uma década, até o ano passado, e pelas medidas protecionistas adotadas pelo governo nos últimos anos, que encareceram os produtos estrangeiros ainda mais.
Para essa nova fase do capitalismo chinês se concretizar, a redução do peso da indústria manufatureira na economia terá de ser compensada pelo crescimento proporcional do setor de serviços, como prevê o plano qüinqüenal. Só que o crescimento dos serviços não é tão simples como pode parecer à primeira vista e vai exigir profundas reformas na China, de difícil costura política. Muitos serviços, como os financeiros, ainda são controlados pelo Estado e sua abertura à iniciativa privada enfrenta uma dura resistência da burocracia estatal, que não quer perder seus privilégios. Na verdade, isso não chega a ser uma novidade, mas, desde a abertura da economia, há 34 anos, nenhum governo conseguiu encará-la para valer. “A grande questão é saber se é possível reorientar a economia chinesa para o consumo sem contrariar interesses arraigados na economia”, diz Armid Subramanian, ex-diretor assistente de pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI) e colega de Lardy no Instituto Peterson. “Sem reformas, não há como alcançar o sucesso no futuro”, afirma David Li Daokui, do Centro para a China na Economia Mundial, de Pequim.
Até agora, o consumidor chinês também não emitiu sinais claros de que está disposto a agir como gostariam as autoridades e os planejadores da economia. Se a idéia do governo é estimular o mercado interno, o consumidor terá que estar disposto a fazer algo que ele não faz hoje: gastar mais. A China tem um dos maiores níveis de poupança do mundo, na faixa de 50% do PIB (no Brasil, está abaixo de 20%). No total, são US$ 4 trilhões depositados em contas de poupança, de acordo com dados oficiais. Apesar do retorno negativo (abaixo da inflação) da aplicação, o consumidor chinês resiste em ir às compras com entusiasmo, ao contrário do que costumam fazer os brasileiros, cujo comportamento neste quesito é muito parecido com o dos americanos.
Milhões de chineses não têm qualquer proteção social, como saúde e previdência, e se isso não mudar, dificilmente vão abrir mão da poupança que formaram para se proteger contra imprevistos. Embora 430 milhões de chineses tenham acesso hoje aos serviços básicos de saúde contra 40 milhões há uma década, ainda é pouco para um país com 1,3 bilhão de habitantes. “O imposto oculto que as famílias pagam ao aplicar suas poupanças por taxas de juro negativas (abaixo da inflação) representa uma transferência de 5% a 8% dos poupadores domésticos aos bancos (públicos)”, diz Pettis, da Universidade de Pequim.
Para o consumo subir, a taxa de investimento, hoje também próxima de 50% do PIB e a grande alavanca do desenvolvimento chinês, junto com as exportações, terá de diminuir bastante – um desafio exatamente oposto ao do Brasil, cuja taxa de investimento não alcança nem 20% do PIB. Em geral, nos países em que o investimento é tão alto, o consumo é desestimulado e a poupança, incentivada – e, na China, não é diferente. “Ainda vai levar muitos anos para o consumo crescer suficientemente para substituir o investimento como motor da economia”, afirma Pettis. A qualidade dos investimentos também terá de melhorar muito. A construção de cidades fantasmas, pontes para lugar nenhum e novos aeroportos vazios, como acontece na China, só para manter o nível de atividade econômica, é um anabolizante que não é sustentável ao longo do tempo.
Já há quem defenda a revisão da política
de um filho por casal implementada nos
tempos de Mao Tsé Tung, o Grande Timoneiro,
que comandou com mão de ferro a China desde
a Revolução de 1949 até sua morte, em 1976
O governo ainda precisará reformar o Hukou, o sistema de registro de domicílio de residentes rurais e urbanos, para estimular o consumo da população. Milhões de trabalhadores que migraram para as cidades não são tratados como residentes permanentes e não têm acesso às escolas públicas, às moradias destinadas à população de baixa renda e ao seguro desemprego. Em vez de gastar seu dinheiro, eles preferem poupar para ajudar suas famílias, que continuam a viver no campo. Se esse “gargalo” for resolvido, milhões de chineses poderão se sentir mais confiantes para ampliar os seus gastos. A questão fundiária também terá de ser resolvida pelo governo. Hoje, as terras não pertencem aos habitantes do campo – só nas cidades. Os agricultores podem alugá-las, mas não vendê-las ou usá-las como garantia de crédito, o que também acaba por limitar a expansão do consumo.
Finalmente, para forjar as bases da nova China no século XXI, o governo ainda terá de equacionar o problema demográfico do país, causado pelo envelhecimento da população. Segundo as projeções, a população em idade produtiva deverá começar a declinar em 2016, com a chegada à idade adulta da geração nascida sob o império da política de filho único em vigor no país. Em 2015, a população com mais de 60 anos deverá alcançar 10,6% do total e, em 2050, de acordo com as projeções, cerca de um terço da população, o que será decisivo para delinear o novo perfil de consumo do país. Já há até quem defenda a revisão da política de um filho por casal implementada ainda nos tempos de Mao Tse Tung, o Grande Timoneiro, que comandou com mão de ferro a China desde a Revolução de 1949 até sua morte, em 1976. Outros defendem o aumento gradual da idade de aposentadoria, de forma semelhante ao que aconteceu no Brasil.”Essa é a única solução viável para evitar um risco financeiro de longo prazo ao sistema de previdência nacional”, afirma o pesquisador chinês Yan Yiyong, diretor do Instituto de Pesquisa de Desenvolvimento Social.
No mundo cartesiano dos planejadores econômicos do Estado, a estratégia para a China superar os limites de seu até hoje bem sucedido “socialismo de mercado” está definida e sua concretização é apenas uma questão de tempo. Agora, no mundo real, nem tudo segue o que diz a teoria. Se a transição para um novo modelo econômico, com foco no mercado interno e nos serviços, vai seguir o roteiro delineado pelos burocratas de Pequim, é algo que só o tempo vai dizer. No caso da China, em razão do peso que adquiriu na economia global, talvez seja conveniente torcer para que, no mínimo, essa transição se faça sem grandes solavancos.
Revista Época
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