Mandela está enterrado. O que virá agora, os africanos não sabem. Ninguém sabe.
Nelson Mandela, finalmente tocado pela bênção dos espaços calmos. (Foto: Arquivo) |
Por Celso Adolfo*
Madiba está enterrado. Preso, era um preto preso. Com carteirinha de "preto liberto", fez o inimaginável: esticou duas cordas, uma do ódio e outra de juta; amarrou uma na outra e suas pontas em dois baobás. Quando era provável um tombo, equilibrou-se. Fez o que fez e os elogios estão pra tudo que é lado. O que virá agora, africanos não sabem. Ninguém sabe. Por enquanto, só elogios. Seja no Bar do Nica, no Rendez-vouz Nossa Senhora dos Estudantes, na Barbearia de Sô Nonô, nas favelas onde se oxigena cabelo preto e se estica cabelos cabindas. Eles não faltarão nas próximas redações colegiais nem no Enem do ano que vem.
Quando Kennedy foi morto em 1963, para nós, meninos em São Domingos do Prata, era certo que a bondade, o entendimento, a temperança e a beleza tinham desaparecido de Dallas e do cosmo. Certo mesmo é que cada uma dessas qualidades, agora no túmulo de Madiba, sofreu alguma perda. O que virá agora, africanos não sabem. Ninguém sabe.
Elogios de fim de ano, os menos confiáveis sempre vêm nas reflexões, com profundidade e lodo de piscinão, das bocas aproveitadoras de políticos. Pagará pelo conjunto a parte deles que merece confiança. Pretos e pobres de todo tipo, jogados aos restos da História, ouvirão tudo isso.
Assunto enrolado, peguei no flagra um conhecido em enorme confusão mental, dizendo-se simpático aos pretos efrontalmente contra as cotas para os pretos:repentinamente ele elogiava o preto que recebeu nome de herói inglês, Nelson, o almirante. Mas issonão lhe moveu a curiosidade.
Enterrado Madiba, continue-se com os elogios, começando por esse, mas, em latim,língua na qual tudo parece preciso e mais bonito, e que coube a Niccolò Machiavelli: Tanto nomini nullum par elogium. A língua portuguesa não o empobreceria: "Tão grande homem nenhum elogio alcança".
Drummond disse que "os homens são como as moedas; devemos tomá-los pelo seu valor, seja qual for o seu cunho;" José de Alencar, que "mais entrado na vida o homem aprende a economizar a sua alma".
Jornalistas foram fundo, e Jânio de Freitas disse que "silenciosa, em meio ao tanto que foi dito e entre todos os que representaram poderes e povos a homenageá-lo, esteve em tudo a evidência, por contraste, da falta de estadistas no mundo atual".
Gonçalo M. Tavares e o seu amigo Bloom disseram que "as derrotas devem surgir enquanto somos novos e fortes, pois aí os insucessos fortalecem, enquanto mais tarde poderão enfraquecer. Uma derrota no tempo certo é aquilo que te fará vencer no tempo certo".
Nos livros de Pedro Maciel há coisas que são a cara de Madiba: "A hora dele não é deste tempo; é preciso ter fé na desesperança; morrer é como chover no meio do lago; há um deus para cada morto;estou além do meu tempo, mas dentro do Cosmo".
Tendo visto os homens e as coisas de que são capazes, Madiba está "profundamente na superfície" de tudo, sabendo que é custoso compreender a si e a seu semelhante.
Marcel Schwob poderia ter dito:"Madiba, finalmente, foi tocado pela bênção dos espaços calmos". E que vivendo o que viveu, Madibapreso sonhava-se livre percorrendo áfricas e Qunu, e assim "percorria as ruas nas noites de peste e tempestade".
Enterraram Madiba.O mágico do esquecimento, Mr. Forgetfulness, sempre estica o seu negro véu que tudo cobre e faz sumir. Para contrapô-lo, surge o Copperfild da lembrança, Mr. Memory, que pede e a sua ajudante loira e sensual faz aquele estrondo no palco: sob a fumaça reaparece Madiba na forma do que disse e o espetáculo e vida podem prosseguir.
Numa louca viagem da imaginação, viu-se Madiba pousado na nuvem onde mortos pousam, mas, apenas mortos com direito a vida e voos depois da vida finda. Levantou-se e disse, com modéstia, o que não dissera aos estádios lotados: que as suas intervenções foram gestos bons, corretos aqui, falhos ali, mas, que tudo (e a sua vida), segundo sentença retirada à vida de Paolo Uccello (que também lhe cabia), tinha ido "do centro à circunferência" e que tudo (e a sua vida) voltaria "da circunferência ao centro".
Milly Viljoen, uma professora preta à beira de uma estrada de Qunu, disse que não podia evitar amar este homem e se emocionar com todas as suas palavras, e que era dignificante vê-lo no seu lugar de descanso final.
*Celso Adolfo é compositor.
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