Evangelização resiste ao tempo
Criado em 1969, o Movimento Encontro de Irmãos ampliou discussões e hoje avalia também drogas, violência, insegurança e relações familiares
As discussões mudaram. Em vez de falar apenas de falta d’água, saneamento e pavimentação de ruas, os debates abordam hoje as drogas, a violência, a falta de segurança pública, a fragilidade das relações familiares. O objetivo, no entanto, permanece o mesmo de 40 anos atrás, quando começou em maio de 1969: pobres discutindo as dificuldades das suas comunidades a partir de reflexões sobre o Evangelho. Criado por dom Helder, o Movimento de Evangelização Encontro de Irmãos resiste ao tempo e foi uma das poucas iniciativas que seu sucessor, dom José Cardoso Sobrinho, não acabou. Ao contrário das Comunidades Eclesiais de Base, que perderam força com o atual arcebispado.
Muitos sindicatos, clubes de mães, associações e conselhos de moradores nasceram a partir do Encontro de Irmãos. A Associação de Moradores do Loteamento Céu Azul, em Timbi, Camaragibe, Grande Recife, é um exemplo. “Pessoas que participavam das nossas reuniões criaram a associação, que já conseguiu levar transporte público para a comunidade”, diz uma das coordenadoras do movimento, Adeílza Silva. No Morro da Conceição, Zona Norte do Recife, escadarias, coleta de lixo e outros benefícios foram conquistados pelo movimento.
A Escola Estadual Mardônio Coelho, na Bomba do Hemetério, também Zona Norte, é mais um exemplo. Na década de 80, um texto do Evangelho que falava sobre leprosos foi lido por um grupo de irmãos. Durante o debate, os participantes relacionaram a lepra às mazelas que sofriam. Chegaram à conclusão que, entre outros problemas, faltava uma escola para o bairro. Reivindicaram ao governo e conseguiram a construção do colégio. Outra luta marcante foi pelo abastecimento d’água. Houve uma passeata, em 1982, até a Compesa, com 2.500 pessoas, para cobrar água nas torneiras.
Atualmente, são cerca de 70 grupos no Grande Recife e no município de Escada, Zona da Mata. Cada grupo tem entre 10 e 20 pessoas. As reuniões são uma vez por semana. Em outros tempos, o movimento chegou a ter mais de 300 grupos. No início, na década de 70, os católicos se reuniam para ouvir, pela Rádio Olinda, um programa de dom Helder, que lia o Evangelho e fazia reflexões. “Ele dizia que ninguém era melhor do que todos nós juntos”, conta Maria Nazaré Costa, também coordenadora do Encontro de Irmãos.
Após o programa radiofônico, os grupos se reuniam nas ruas, em ladeiras, embaixo de postes (poucas casas dispunham de energia elétrica). Mas nem sempre foi fácil. Discutir questões sociais e conscientizar o povo não eram ações bem-vistas pela ditadura. Às vezes, militares se infiltravam nos grupos. Quando isso ocorria, os leigos apenas cantavam e rezavam o terço. Em junho de 1973, um dos coordenadores do movimento, José Henrique Meira, ficou preso uma semana. Foi torturado. “Os militares queriam saber o que dom Helder nos ensinava”, relata Henrique.
Hoje, apesar das dificuldades, a evangelização continua. “É mais difícil porque a televisão tomou conta dos lares. Quando a gente chega para um encontro, os jovens saem para ver as novelas”, lamenta Nazaré. “Também sentimos falta de mais apoio dos padres”, ressente-se. “Dom Helder dizia que temos que mudar muito para continuarmos sendo os mesmos. Continuamos atuando. Somos fermento para conscientizar os pobres, à luz do Evangelho, da importância de reivindicar um mundo melhor.”
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