23/02/2012

O desenvolvimento em curso e o tempo da vida

J. B. Libanio
Padre jesuíta, escritor e teólogo. Ensina na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e é vice-pároco em Vespasiano
Adital
Certo senhor gritava chamando os empregados que andavam longe. Alguém, irritado com tanta gritaria, deu-lhe um binóculo. Ao usá-lo, viu as pessoas bem pertinho e sussurrou-lhes o nome. Só que ninguém veio.
Isso, que se conta como piada, está a acontecer conosco em relação ao tipo de desenvolvimento em curso. As vozes críticas já gritam faz tempo, alertando-nos contra seus perigos. Então alguém encosta o binóculo do capitalismo e mostra a enormidade de bens produzidos a seduzir-nos e alimentar-nos o consumismo. Diante de tantos bens, calamos. Mas só que nenhum dos males longínquos ficou resolvido.
Sim. Temos tecnologia, ciência, cérebros, conhecimentos suficientes para resolver o problema. Mas há outra força maior que anestesia as energias rebeldes e proféticas. O Primeiro Mundo se arroga centro da cultura, possuidor maior de prêmios Nobel, sede das melhores universidades do mundo, qualificado de AAA+ nos indicadores importantes do desenvolvimento. Pois bem, precisamente ele sofre da terrível cegueira do sistema capitalista neoliberal. Capaz de elaborar cálculos matemáticos de alta sofisticação, desconhece o bê-á-bá da vida, da sustentabilidade do cosmos.
Confunde desenvolvimento, crescimento do PIB, maior produção de bens materiais com a qualidade humana de viver e existir de toda a humanidade. Enquanto pequena fração de pessoas se empanturra de bens supérfluos até o desperdício, grandes maiorias morrem de fome. Fato tão evidente e brutal se cobre com o véu vergonhoso da necessidade de o capital gerar capital, independentemente de sua finalidade social.
A acumulação privada não permite perceber o que falta aos outros, mesmo que esses se contem aos bilhões. Os trilhões de dólares circulando no vazio da especulação não trazem gota de vida para bilhões de famintos. E inteligências brilhantes não percebem tal monstruosidade. Por quê?
Moralismo barato não resolve. Essa cegueira lança raízes mais fundas. Que existe no ser humano que o dinheiro, o consumo, a aparência de riqueza, o desejo de ser o homem mais rico do mundo, os contratos desportivos bilionários, as mansões deslumbrantes fascinam tanto? Cada dia as breves notícias dos principais portais da internet informam sobre a vida dos famosos que exibem grifes caras, que frequentam hotéis custosos, que ostentam luxo deslumbrante. O lado escuro da pobreza entra como estatística, mas sem nenhum interesse. Por quê? Que deseja esse ser humano?
Deve habitar-lhe um infinito de desejos que não sabe equacionar toda vez que perde a dimensão espiritual e transcendente da vida. Ao projetar o infinito sobre as coisas, elas se alçam às alturas da exterioridade, do preço, do deslumbramento visual, da ostentação, do poder.
Que pena que tudo isso carrega dentro de si o germe do tempo, enquanto o infinito do ser humano aspira à eternidade. Eis o drama do ser humano! Por mais que vivamos dopados durante os anos férteis e vigorosos da existência pela droga do sucesso, há momentos do soar do despertador do eu profundo que nos acorda para a verdade! Momentos de Deus!

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