Carlos Alberto dos Santos Dutra
Advogado e Diácono Permanente na Diocese de Três Lagoas-MS
Adital
O texto divulgado pela Santa Sé no dia 7 de fevereiro último reflete sobre o tempo chamado Quaresma. Essa é uma data no calendário cristão que a sociedade nem sabe direito o que é e como ele é construído, mas sabe muito bem aproveitar o feriado que o antecede para curar a ressaca do Carnaval e preparar-se para o consumo da Páscoa.
O texto assinado por Benedictus XVI reflete sobre uma passagem bíblica pouco explorada pelos católicos. "Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Heb 10, 24). Pois é com essa preocupação que discorro sobre o que o Papa chama de "o cerne da vida cristã: o amor".
- Mas como falar de amor num mundo tão cheio de ódio e violência gratuita, mundo onde todos caminham de pedras nas mãos e correm o risco de ser assaltados e mortos a cada instante em cada esquina?
O sumo pontífice parece não se importar com o grito do cidadão e segue sua homilia dizendo que esse tempo de Quaresma "é propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal".
Mas ele se importa, mais do que pensamos. Ele ouve o grito do povo lá fora, e vê com óculos de alcance, muito além de nós: a mãe famélica e doente no mais fundo da África, a criança órfã e mutilada na guerra interminável do Oriente, a criança e o jovem usado e abusado, consumido e corrompido pela droga e rio de sangue provocado pela disputa e combate a esse estado de coisas. Ele ouve, curva-se sobre si, e chora. Mas encontra forças, também para orar.
Recorre neste tempo de penitencia e oração, apresentando-nos a bela Carta aos Hebreus: "Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (10, 24). "Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade". Neste artigo falaremos apenas da primeira parte do versículo 24, onde está escrito: "Prestemos atenção”. A expressão nos quer falar da responsabilidade que devemos ter com o próximo, com o irmão.
A exegese nos mostra que o primeiro elemento é o 'convite' (prestar atenção). "O verbo grego usado, explica o texto, é 'katanoein', que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a 'observar' as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e, todavia, são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a 'dar-se conta' da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Este verbo no dia de hoje nos convida a fixar o olhar no outro (...) e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos".
Isso porque vivemos um mundo cada vez mais preocupado com o que é excêntrico e extravagante, mais preocupado com o silicone que nos torna belos e o celular que nos conecta ao mundo, pouco importando o sofrimento que passa a nossa volta. Não falo dos problemas sociais, políticos ou econômicos que nos consomem e nos diminuem a cada ano, falo do que diz respeito à condição humana, da falta de solidariedade e de fraternidade.
Diz o texto ministerial que, "com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela 'esfera privada'. Por isso neste tempo da Quaresma ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o 'guarda' dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem".
O que nos move nestes 40 dias e 40 noites de oração, jejum e penitência, sem dúvida, deve ser a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento que podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: "O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende” (Prov 29, 7). "O fato de 'prestar atenção' ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual". E aqui, recorda o Papa, um aspecto da vida cristã bastante esquecido: "a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna".
Serve-nos de alento as palavras da Sagrada Escritura: "Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber” (Prov 9, 8-9). "O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado neste caso para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11)".
A Quaresma nos faz lembrar também a tradição das obras espirituais de misericórdia da Igreja, entre elas, a de "corrigir os que erram”. É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. "Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui --confessa o Papa--, na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem".
Diz o apóstolo Paulo: 'Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado' (Gl 6, 1). "Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade". Um mundo renovado exige dos cristãos, por conseguinte, um renovado testemunho de amor e comprometimento com o Outro. Oxalá este apelo de conversão ressoe forte junto a todos na celebração da Páscoa, razão de ser da Quaresma.
Publicado em 22 de fevereiro de 2012.












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