Pe. João
Carlos Ribeiro*
Depois de ter entregado aos leitores “O
Peregrino da Paz” e “Nascido Para as Coisas Maiores”, por ocasião do centenário
do cidadão do planeta (1909-2009), nosso querido Pe. Geovane, sacerdote da
Arquidiocese de Fortaleza, há 24 anos, quer mostrar neste trabalho a homenagem
do todos nós a Dom Helder Pessoa Câmara, na riqueza e na força de sua
personalidade, profundamente marcada pela graça de Deus e, por isso mesmo,
humano ao extremo.
Dom Helder marcou a região
metropolitana do Recife, nos anos em que foi nosso arcebispo. Esteve à frente
do rebanho em momentos sociais muito tensos e difíceis, como foi o tempo da
ditadura militar. O Brasil e o mundo conheceram um Dom Helder porta-voz dos
injustiçados e dos empobrecidos. Um homem lúcido, profeta segundo o Evangelho,
dono de palavras fortes e contundentes. Mas nós conhecemos mais do que esse
profeta respeitado no exterior e temido, em seu país, por suas posições em
favor de um mundo fraterno e solidário e de uma Igreja pobre e servidora.
Conhecemos um Dom Helder respeitoso das pessoas e cheio de amor para com os
sofredores. Um homem simples e ao alcance das pessoas de qualquer classe
social.
Com toda certeza, uma das obras mais
significativas de Dom Helder foi o Encontro de Irmãos. O Movimento de
Evangelização Encontro de Irmãos nasceu da confiança do Dom no povo pobre da
periferia. Ele acreditou no povo sofredor dos bairros populares e o convocou
para a grande tarefa da evangelização. Começou no rádio, dando dicas sobre o
trabalho com a Bíblia. Passou a reunir as lideranças que foram surgindo. O povo
pegou a Bíblia nas mãos e foi à luta. Formaram-se grupos que passaram a ler e
estudar a Bíblia semanalmente. A meditação dos textos sagrados animou a
participação das pessoas nas lutas dos bairros, reforçou a presença dos
cristãos nas associações de moradores, formou gerações de cristãos de fé e de
compromisso. E continua formando, porque o Encontro de Irmãos continua vivo e
atuante, graças a Deus.
É o Dom Helder do qual hoje nos
lembramos. Um homem do povo. Um homem de Deus. Como ele falava de Deus... Havia
tanto amor nas suas palavras, quando se referia ao Criador e Pai.... Havia
tanta emoção nas palavras da consagração que o vimos muitas vezes chorando ao
celebrar a Missa. E sempre repetia com toda convicção que o verdadeiro
celebrante da Missa é Nosso Senhor Jesus Cristo.
Não há quem não se lembre com afeto da
figura de Dom Hélder: a simplicidade de vida que ele abraçou, morando na
sacristia da Igreja das Fronteiras; como ia a pé para a Cúria na Rua do
Giriquiti, mesmo sob ameaça de forças paramilitares ligados ao regime militar;
como abraçava os bêbados, os bêbados que teimavam em pedir-lhe a bênção na rua
ou na porta de sua casa. Como esse homem era respeitoso com as pessoas: a
qualquer um recebia e abraçava independentemente de quem fosse com a mesma
alegria e sinceridade.
Ao inesquecível Dom Helder, figura
humana abençoada e santa, nossa renovada e imorredoura gratidão! Comparamo-lo
ao “Apóstolo dos gentios”, pelos seus grandes sonhos e utopias, na riqueza de
sua lavra literária, homilias, conferências, exortações e viagens pelo mundo
inteiro, numa palavra, “outro cavaleiro andante”, que ao assumir a Arquidiocese de Olinda
e Recife em abril de 1964, disse com todas as letras: “Quem estiver sofrendo,
no corpo ou na alma; quem, pobre ou rico, estiver desesperado, terá lugar no
coração do bispo”. É Uma oportunidade a mais para
aprendermos, com ele, o respeito pelos humildes, a confiança nos sofredores, o
amor incondicional ao Pai e Criador.
Ao Pe. Geovane Saraiva, nossos
agradecimentos e aplausos, por mais uma homenagem a Dom Helder, renovada nesta
obra, que o mantém vivo como referência e memória admirável, cujo testemunho
continua a produzir frutos abundantes. Parabéns Pe. Geovane!
*Pe. João Carlos,
cantor, compositor e escritor. É Padre Salesiano, atualmente ocupa o cargo de
superior da congregação salesiana no nordeste do Brasil.

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