31/05/2012

Criaturas e filhos


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Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)
A inteligência faz o ser humano lidar com a obra criada por Deus, ou de modo autônomo ou dependente. A autossuficiência, porém,  não consegue fazer-nos seres divinos, apesar de toda a tentação para isso. Nossa realidade de criaturas nos mostra a ligação com o Criador, a ponto de reconhecermos que, sem Ele, não vamos muito longe na tentativa de alcançar a desejada  felicidade plena.
A história do ser humano na terra é cheia de altos e baixos. Nossa relação com Deus pode destacar nossa confiança em sua ajuda para  realizarmos um projeto de vida de sentido e realização. Pode também nos colocar na atitude passiva de deixar que Ele faça tudo por nós. Ele nos valoriza a ponto de nos colocar como sua imagem e semelhança. Como supremo Senhor do universo, Ele nos dá a incumbência de dominarmos, ou seja, de cuidarmos do planeta com a promoção do bem e da justiça em relação ao semelhante. Sem os ditames divinos não conseguimos realizar o cuidado com o meio ambiente e com a promoção justa dos pares. Lembramos as palavras de Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer!”.
Deus, nas três pessoas, atua em cada ser humano e o faz realizar-se também quando todas as pessoas humanas forem tratadas com respeito porque têm a presença e atuação da divindade. O Criador nos criou para vivermos em comunhão, assim como as pessoas divinas. Tudo o que denota concentração de possibilidades e riquezas materiais, intelectuais, culturais e outras, sem partilha e justiça, faz o ser humano infeliz. A realização pessoal só se dá na convivência de amor e promoção do bem de todos. Apesar de sermos criaturas, somos tratados por Deus como verdadeiros filhos. Por isso mesmo, não podemos viver sem ligação íntima com o pai comum. Na relação paternidade-filiação, há uma dependência amorosa e realizadora para o ser humano. Caso contrário, o caminho da vida  torna-se enfadonho e sem sentido.
Apesar de sermos criaturas, com relação de dependência do Absoluto, temos a confiança de que somos olhados e cuidados por Aquele que demonstra diuturnamente o cuidado por nós. Mesmo nos desmandos humanos ou desumanos, temos algo em nosso íntimo da consciência: podemos buscar socorro e sentido para a vida naquele que nos propiciou a existência. Vale a pena a vida até só para reconhecermos que o Criador nos envolve em sua Providência e nos atrai para si, apesar de todas as conseqüências de nossos limites. O apóstolo Paulo nos lembra: “Não recebestes um espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, no qual todos nós clamamos: Abá, ó Pai” (Romanos 8, 15).
O fechamento ao outro nos enclausura a ponto de nos infelicitarmos, mesmo tendo tudo na ordem material e sensível. Nossa realização se dá na prática da alteridade, cooperando com o bem do semelhante, mesmo se, para isso, tivermos de partilhar nosso tempo, nossos bens e nossa disponibilidade. Contribuimos com o benefício comum. O resultado é nossa alegria. Como Deus manifesta agrado quando estamos bem, assim nós, quando vemos o bem que  causamos aos outros.

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