segunda-feira, 11 de junho de 2012

7º Encontro Mundial das Famílias


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Cardeal Odilo Pedro Scherer*
1. Em Milão, no dia 03 de junho, foi concluído o 7º Encontro Mundial de Famílias, com a Missa celebrada pela papa Bento 16 diante de mais de um milhão de pessoas. Qual é o balanço final desse 7º Encontro?
R. Os Encontros Mundiais de Famílias foram iniciados por João Paulo II em 1994, em Roma, para trazer novamente a família ao centro das reflexões da sociedade e da Igreja. Creio que este objetivo mais uma vez foi largamente alcançado. O Encontro teve um tema de indiscutível atualidade e interesse; contou com uma programação intensa e uma participação expressiva de casais do mundo inteiro, além de estudiosos das temáticas familiares, cardeais e bispos, e finalmente do próprio papa Bento 16.
2. O tema – família, trabalho e festa – surpreendeu por não enfocar uma questão especificamente religiosa ou moral. Que motivos levaram a tratar esse tema?
R. A família é, antes de tudo, uma realidade humana, social e economicamente significativa. É preciso falar novamente da família a partir dessas realidades antropológicas fundamentais e das relações interpessoais.
Trabalho e festa são essenciais à vida da família. A questão do trabalho, em muitos lugares, torna difícil a formação e a “sustentabilidade” da família; sem trabalho, ou por excessivo trabalho, a família entra em crise. Quando as relações familiares e do casamento são postas em segundo plano, diante da pressão econômica, algo de errado está acontecendo e se torna necessário parar, para avaliar a situação e redefinir prioridades.
3. E a festa?
R. A reflexão sobre a festa no contexto das questões familiares é muito significativa. De fato, a “festa” expressa gratuidade, alegria, partilha, encontro de pessoas, esperança e vida. A festa tem um significado antropológico fundamental e indica qual é, em última análise, o objetivo da existência da família. Pela negativa, podemos afirmar que a família não se forma para cultivar tristeza, dor, pesadelos e frustrações, mas o contrário de tudo isso. Embora ela também experimente dor, cruz e frustrações, como tudo o que faz parte de mundo, vale afirmar que seu objetivo e significado é a felicidade, a alegria do convívio, a doação da vida por amor, a festa. Este é um aspecto importante, a ser redescoberto hoje pelas famílias, pois isso é fonte de novas energias e esperanças para a família.  Não é sem motivo que no Cristianismo a felicidade e a vida bem-aventurada no céu são descritas com as imagens e a linguagem das bodas, da família, do banquete de irmãos, do convívio na casa paterna, da festa...
4. Como falar em “festa” para famílias que enfrentam cada dia a crua realidade da dor, da pobreza, das desavenças?
R. Há certamente muitas famílias que experimentam situações dramáticas e elas precisam ser ajudadas a superá-las mediante ações concretas de solidariedade e ajuda fraterna. No entanto, é preciso também evitar as ilusões que projetam para a família uma felicidade irreal, que se realiza apenas na abundância, na ausência da dor e de problemas. Todas as famílias enfrentam problemas de algum tipo. Mas é importante valorizar as pequenas alegrias, próprias da vida do casal, do convívio familiar, dos momentos marcantes, como o nascimento de um filho, aniversários, refeições em comum, o perdão dado e recebido, os encontro com os amigos e parentes... Coisas assim conseguem iluminar a vida e reacender a esperança também, lá onde parece haver apenas motivo de tristeza. Além do mais, o cristão é animado pela esperança, mesmo “contra toda esperança”, sabendo que Deus não abandona seus filhos. Para as famílias os cristãs e católicas, existe um dia de festa, todo especial, que precisa ser valorizado: é o Domingo, dia do Senhor, de encontros bonitos com Deus e com os próximo. Domingo também é o dia máximo de festa para a família.
5. Qual foi a dinâmica do Encontro?
R. De 30 de maio a 1º de junho houve um grande simpósio teológico e pastoral sobre os vários desdobramentos do tema de Encontro. Em seguida, houve seminários temáticos em várias cidades próximas de Milão e os participantes puderam se inscrever livremente. No dia 1º de junho, houve um grandioso concerto em homenagem ao Papa,  no famoso teatro “Alla Scala”, com a execução da 9ª Sinfornia, de Beethoven. No sábado, o Papa encontrou os sacerdotes, religiosos e seminaristas, na Catedral, e os crismandos do ano da arquidiocese de Milão – mais de 40 mil – no estádio San Siro. Foi um espetáculo muito bonito. À noite, houve a tocante festa das famílias, na presença do Papa, com músicas e cantos, testemunhos de famílias e perguntas ao Papa, que respondeu a todas de maneira espontânea. No domingo, 3 de junho, houve a Missa de encerramento com a participação de mais de um milhão de pessoas, entre as quais, numerosos  cardeais, bispos e autoridades italianas. No final da Missa, o Papa anunciou o próximo encontro, para 2015, em Filadélfia, nos Estados Unidos.
6. Enfim, qual é a impressão que ficou do 7º Encontro? Há um futuro para a família?
R. O Encontro tratou com realismo as situações pelas quais a família passa hoje; ao mesmo tempo, porém, com esperança. Ficou claro que a família ainda existe e com muita energia e capacidade de contribuir para o futuro da sociedade. Os discursos alarmistas e negativos sobre a família não devem apagar a esperança; há muitos jovens casais querendo levar a sério o casamento e a formação de uma família, embora estejam bem conscientes das dificuldades atuais. Uma pesquisa entre jovens universitários de Florença revelou que a grande maioria deles sonha em ter um casamento estável, com  filhos. E a Igreja manifestou, mais uma vez, que promove, incentiva, apóia e defende a família. Nem poderia ser diferente.
5. Alguma sinalização para o mundo político?
R. Sim. Que se considere a família como um sujeito social e econômico básico da sociedade, pois assim acontece, de maneira real. Por isso, que ela seja protegida e promovida com legislações adequadas. Por outro lado, que só pode ser considerada família verdadeira aquela que resulta da união de um homem e de uma mulher; esta não deve ser fragilizada ou desconsiderada em vista de outras formas de união e merece uma atenção social e política que especial, pois cumpre um papel humano e social insubstituível e imprescindível. Infelizmente, a família natural, muitas vezes, é deixada no abandono, como um barco à deriva e a desatenção à família resulta em numerosos problemas humanos e sociais, que poderiam ser evitados, ou melhor solucionados, se houvesse maior  atenção política em relação à família natural. Uma sociedade que descuida da família descuida de suas próprias bases.
* Arcebispo Metropolitano de São Paulo (SP)

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