Almir Magalhães*
No dia 11 de outubro deste ano, a Igreja Católica comemora os 50 anos da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II (sua abertura foi a 11 de outubro de 1962). Este Concílio provocou reformas, mudanças de comportamento, posicionamentos diferentes, renovação espiritual, censuras. Produziu 16 documentos enfocando os mais variados temas. Ele ainda não esgotou todas as suas possibilidades, pois o processo de recepção do mesmo pela comunidade eclesial continua, não de forma linear e progressiva, mas numa dinâmica de acolhimento e tensões, pelo pluralismo próprio da vida da Igreja.
Gostaria de destacar, no discurso da Papa João XXIII, por ocasião da abertura solene do Concílio, um pequeno texto digno de nota, porquanto evidencia o espírito que tinha o Papa que teve a coragem de anunciar este Concílio no dia 25 de janeiro de 1959. Assim se expressou João XXIII:
“A Igreja, no passado, sempre se opôs aos erros e os condenou com grande severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere recorrer ao remédio da misericórdia a usar as armas do castigo. Em face das necessidades atuais, julga mais conveniente elucidar melhor sua doutrina do que condenar os que delas se afastam.”
O espírito deste trecho é fenomenal - afinal de contas ele sinaliza para uma mudança radical na forma de a Igreja se relacionar com a sociedade moderna, passando a utilizar um outro princípio, aquele da misericórdia, aproximando-se do Evangelho.
É evidente que o remédio da misericórdia, aqui aplicável para substituir as condenações do passado com relação à sociedade moderna, não pode ser reduzido a esta perspectiva e ser ampliado para todas as esferas, também micro, da convivência e das relações humanas no interior da vida eclesial.
É incrível, mas ao analisarmos referida convivência, nos deparamos com uma lacuna no que diz respeito à espiritualidade que deveria fundamentar este princípio misericórdia, não obstante alguns grupos afirmarem o contrário.
É claro, temos que compreender os limites da condição humana, sua contingência e finitude, como elementos que vão sempre se constituir em bloqueios para a realização dos valores evangélicos ou de qualquer ideal mais nobre.
Na sociedade atual, se assiste a uma inversão de valores. A ética é substituída pela estética, o valor supremo é o mercado (o lucro) e a dignidade humana não é levada em consideração. Os cristãos, alimentados por um modelo de configuração eclesial hoje hegemônico, estão insensíveis às interpelações que brotam da vida, sobretudo das ingentes necessidades de nossos irmãos e irmãs, apesar das políticas públicas compensatórias dos últimos governos.
Um exemplo deste descompasso entre a nossa espiritualidade e a relação com a vida está no pouco caso que foi dado a um projeto da CNBB intitulado “ Exigências evangélicas e éticas da superação da miséria e da fome” (Doc. 69), texto aprovado por unanimidade na 40ª Assembleia Geral, em abril de 2002, portanto, há dez anos. A pergunta que fica: quais as paróquias que levaram a sério este projeto? Que pastorais conheceram este documento? As novas comunidades, grupos de oração, movimentos, Comunidades Eclesiais de Base, Renovação Carismática Católica, imaginaram em algum momento a existência de uma indicação tão expressiva e deu seu sim a esta proposta?
Afinal de contas, o que está na base é o amor gratuito dos cristãos pelas pessoas que padecem. Assumir este caminho é produzir gestos de misericórdia.
* É diretor geral e professor da Faculdade Católica de Fortaleza

Padre Almir profetiza, posto que denuncia e anuncia: Todo Cristão precisa abraçar as causas do seu tempo, porque ser Cristão é ser advogado da granda causa humana. A Igreja, para ser digna da sua vocação, precisa ser "mãe", olhar misericordiosamente para cada homeme e mulher do planeta e fazer dele ou dela sua causa.
ResponderExcluirParabéns Almir. Lembre-se que está de pé a minha proposta de publicar um livro seu.
Abraços,