Dom Aldo Pagotto, sss*
Em meio à seca, uma entre as piores ocorridas nas últimas décadas, o que o Governo Federal e os governos estaduais farão ante as expectativas de (ao menos algum) êxito a ser alcançado na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável Rio+20? O fenômeno das secas e das estiagens prolongadas é a sina secular do Nordeste. Os Estados afetados pela desertificação ocupam 11,5% do território nacional, comportando 32 milhões de seres humanos atualmente. O potencial produtivo do Nordeste concentra-se na esfera dessa área ora comprometida. Há perda (quase que) total da safra agrícola, da produção agropecuária e do setor da ovinocaprinocultura. A falta de investimentos no setor produtivo afeta a economia, desarticulando o desenvolvimento e, portanto, provocando o empobrecimento da população, especialmente a mais carente. A “bolsa-família” e o carro-pipa não sustentam nem resolvem o problema secular da falta de investimentos no Nordeste.
Há 20 anos a “Eco 92” tratou sobre o combate à desertificação não só do solo, como também da desagregação socioambiental. Seguiram-se à Eco 92 várias conferências promovidas pela ONU, tratando explicitamente da convivência com biomas inóspitos que, entanto, podem se tornar produtivos, graças à tecnologia moderna. Entanto, situações consideradas irreversíveis transformam-se com práticas corresponsáveis dos gestores públicos, cabendo-lhes investir no capital humano, técnico e financeiro. A Califórnia é exemplo emblemático dos mais exitosos e divulgados, bem como a transposição de águas de rios, a exemplo do Rio Piracicaba que abastece a gigantesca capital paulista. Espera-se um eventual êxito da “Conferência Rio+20”. Seria mais lógico, prático, objetivo, perguntar aos nossos gestores públicos e aos respectivos governos dos Estados do Nordeste o que planejam como projeto de Estado (não apenas como plano de um governo), sobre as formas de convivência com o semiárido que abrange 86% da Região Nordeste.
Ora, se uma parte considerável do território nordestino encontra-se no semiárido, é preciso explorar as potencialidades de sua biodiversidade que estão adormecidas, especialmente no campo geológico e energético. O bioma da caatinga é uma das zonas do semiárido com diversidade de flora e de fauna espetaculares, comportando espécies nativas de grande valor biológico. Existem métodos modernos adequados para manter a sua matriz forrageira. Não obstante a variedade do solo do semiárido e da caatinga seja rica em vegetais com teores minerais, nossas águas de subsolo são, geralmente, salobras.
Estudos científicos e encaminhamentos tecnológicos transformam a ameaça da seca em valor agregado, na elaboração de políticas agrícolas, como a irrigação por micro aspersão; a revitalização de nossas bacias hidrográficas, com várias medidas de preservação ambiental. A ameaça torna-se oportunidade de expansão. Vide os campos produtivos de Israel, em meio às zonas desertificadas e inóspitas. É lamentável constatar que existe bom suporte técnico para a convivência com o semiárido. Por que nossos gestores não investem prioritariamente na execução dos projetos de desenvolvimento sustentável? Que adotem uma política de permanente capacitação para a convivência e investimentos produtivos no semiárido.
É lamentável constatar que a ideologia do atraso vença a esperança de inclusão com justiça social. É lamentável registrar o atraso mental e gerencial que reproduz a política da improvisação e dos efeitos paliativos: para a seca, carro-pipa e um dinheirinho a mais que talvez sirva para fazer caixa de campanha em ano eleitoral.
*Arcebispo Metropolitano da Paraíba
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