O Globo Mar desta quinta vai ao Nordeste, na divisa entre Sergipe e Alagoas. E quem faz a linha divisória entre os dois estados é a natureza. De um lado, está o mar. Do outro, o Rio São Francisco, um dois mais importantes do Brasil, um dos maiores do mundo, cheio de histórias, cheio de polêmica. A região vive de pesca, turismo e agricultura. E o repórter Ernesto Paglia foi à sede do encontro das águas riquíssimas do São Francisco e do poderoso Oceano Atlântico.


A partir de 1876 e durante muito tempo, o navegante que chegasse pelo mar à foz do Rio São Francisco sabia que podia confiar em um ponto de referência sólido, que estava lá sempre, piscando a noite inteira, indicando o caminho: é o Farol do Cabeço. Hoje, ele está fora de combate. Praticamente, metade dele está debaixo d’água. A água do Atlântico avançou sobre a foz do São Francisco e hoje ele foi substituído por outro farol, que fica do lado alagoano.
O velho farol ficava na Ilha do Cabeço, em uma comunidade sergipana, que se chamava Cabeço e que hoje está totalmente submersa. Em 1988, metade do vilarejo já tinha sumido. Em 2000, saíram os últimos moradores. Fora d’água ficaram só a ponta do farol e um pequeno pedaço mais alto da ilha, que não era habitado.
Mas Ernesto Paglia encontra sinal de vida atual no local: parabólica, caixa d’água nova, aquecimento solar. É que o pescador Benito também tinha ido embora, mas voltou para o que sobrou do Cabeço e construiu uma nova casa só para passar temporadas. “Em um dia só, praticamente, ele destruiu quase o resto todo do Cabeço. Retiramos umas coisas da igreja, os bancos”, conta.
Quando o mar encobriu a vila do Cabeço, os moradores foram transferidos para Saramém, onde desembarcamos no dia seguinte. Na cidade, percebemos a preocupação com a força da água do mar. A força do mar vem comendo terra, tirando pedaços inteiros do barranco.
O mar avança porque o São Francisco enfraqueceu. O volume de água que chega à foz começou a cair nos anos 80 com a construção, rio acima, de hidrelétricas que represaram a água. São nove hidrelétricas só no São Francisco, 33 somando todas as construídas nos afluentes.
Para evitar nova tragédia, Saramém foi erguida longe da foz, a quase um quilômetro da margem do rio. Mas é na beira do São Francisco que tudo continua acontecendo. Na Ilha do Cabeço, todos viviam da pesca. Em Saramém, foi preciso improvisar. Os moradores revelam que agora a comunidade vive de pesca e turismo.
As cocadeiras pegam carona no barco dos turistas até a maior atração turística da foz: as dunas da margem alagoana. E os compradores desembarcam por uma verdadeira escadaria. Hoje, as dunas são a marca registrada da foz do Rio São Francisco, do encontro das águas do Velho Chico com o Atlântico.
Antigamente essa área era sujeita a inundações. Uma vez por ano, na época das chuvas, o rio crescia, transbordava, formava lagoas, pântanos salgados, mangue, importantes para a reprodução dos peixes da região. Hoje em dia, só tem duna e areia. O visual é bonito para turistas, mas muito ruim para a pesca e para os pescadores da região.
No local onde o São Francisco encontra o Oceano Atlântico, quem espera ver o choque poderoso da água doce com a água salgada do mar se frustra. A água do São Francisco diminuiu muito de vazão. Com isso, hoje esse encontro é um encontro entre amigos, um aperto de mãos.
Navegamos em mar aberto e seguimos pelo São Francisco. O rio entra pelo Atlântico e tinge o mar de marrom em uma faixa de litoral que avança 25 quilômetros para o sul, direção Sergipe, e mais 18 quilômetros para o norte, por Alagoas.
Vamos rumo ao norte. E nossa preocupação é checar o estrago da onda que varreu nosso convés. Na segunda manhã, na foz do São Francisco, pegamos carona para ver o trabalho dos camaroneiro em Pontal do Peba.
O camaroneiro chega, passa sua carga para um caiaque, que por sua vez transfere para uma carrocinha. A mesma charrete que trouxe o camarão leva o óleo para os barcos continuarem o seu trabalho, porque não para 24 horas por dia. Dois pescadores trabalham em um turno. Quando voltam, outra dupla pega o barco e vai pescar mais camarão.
Todos parecem descontentes. Hoje, ninguém pode fazer nada no barracão, se não gelar. Ninguém pode fazer filé, beneficiar camarão nenhum no Peba. Mas as fileteiras precisam trabalhar e continuam o serviço de qualquer jeito, em barracões improvisados.
O Ministério Público proibiu a limpeza do camarão por causa da sujeira. A cidade não tem esgoto e os restos acabam na praia. O que já seria ruim em qualquer lugar é ainda pior em Pontal do Peba, que fica em uma área de proteção ambiental. O governo exige que a comunidade faça adaptações para continuar produzindo o camarão.
Juarez, que pesca há 40 anos, acha que tudo isso se resolve. Pior, é a falta de camarão. “Para você ter ideia, às vezes, era tanto que fazia buraco, enterrava, para não ter comércio. Hoje acabou tudo isso”, comenta.
“Uma barragem no meio do São Francisco tem reflexo no camarão oceânico. Existem pesquisas que mostram que a produção de camarão está associada à vazão de grandes rios. Quanto maior a vazão, maior a produção de camarão, porque mais alimento chega para esses camarões”, explica Marcelo Vianna.
A vazão do São Francisco diminuiu 45%. A quantidade de sedimentos caiu 95%.
“É incrível isso, porque você faz uma hidrelétrica rio acima, a quilômetros. E isso tem uma consequência no mar, na produção pesqueira, bem distante, fora do rio, já no oceano”,
Deixamos a comunidade do Pontal. Nosso rumo agora é sul. Vamos conhecer o litoral de Sergipe, também banhado pelas águas do São Francisco. Ressabiados, evitamos uma nova saída pela foz. O caminho para o mar desta vez será por um braço de rio, em meio ao manguezal da Reserva Biológica de Santa Isabel. Nas praias da reserva, fica a maior área de desova das tartarugas oliva. Em 10 anos, a população de tartarugas-oliva na reserva aumentou 15 vezes.
Com muita energia, começa a festa de Bom Jesus dos Navegantes em Saramém. O povo vai chegando, mas tem gente que guardou lugar com antecedência. Tem comida, bebida, trio elétrico.
No ponto de largada da corrida de canoas, do lado alagoano, vivemos momentos de tensão. Os barcos já estão com suas velas levantadas. E o vento começa a fazer seu trabalho. O Globo Mar coloca sua bandeira gloriosa no Barco Charmoso.
Os barcos largam, e começa a regata. Sai a primeira categoria. Depois, é a vez da segunda. No passado, alguém já chamou essas embarcações de borboletas do São Francisco. Quando elas ficam em pé, lembram mesmo borboletas. Movidos a puro orgulho e brio, lá vão eles.
Perto da boia de chegada, em Saramém, uma manobra radical garante à canoa de velas azul e verde a vitória na segunda bateria. Na primeira, o nosso bravo representante ficou em último lugar. Com uma ultrapassagem no final, a canoa de velas azuis leva à vitória. O Sheba termina em um segundo lugar. Em terceiro, vem o Ajax, a canoa que virou na largada.
A cultura do povo do São Francisco ainda é capaz de fazer festas bonitas. Mas o grande rio sofre, reduzido à metade de suas águas e quase sem trazer mais os nutrientes que alimentavam os peixes no passado. É o preço que o rio paga para produzir 15% da energia do país.
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