10/06/2012

São Oitenta!


- Oitenta? Não pode ser! Não acredito que tenha mais de setenta! - Estou a fazer oitenta anos! Na verdade não percebo como passou já tanto tempo! E os joelhos bem me dizem que não é engano
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Ria-se, deixando ver no seu olhar uma imensa paz e felicidade de viver. Dona Sarita vinha da sua horta onde couves, rosas e alfaces, cebolas, lírios e alecrim conviviam numa variedade de hortaliças, flores e árvores, em profusão de perfume e de cor, numa vitalidade primaveril. Era um espaço de tranquilidade que dona Sarita usava como o seu santuário onde rezava, sonhava, cuidava e lhe oferecia possibilidade de partilha. 

Não era só a horta e o jardim que retratavam a vitalidade desta senhora de oitenta anos:
– Tenho de me apressar porque tenho agora reunião. Somos cada vez menos e as necessidades estão a aumentar. Precisamos de mais colaboradores mas as pessoas hoje têm pouco tempo… ou se calhar não sabem a realidade, ou têm medo de a ver. Se todos colaborássemos um bocadinho, conseguíamos ajudar todos.
E lá foi dona Sarita para a reunião da Conferência de São Vicente de Paulo de que é uma entusiasta colaboradora desde a sua juventude. Ainda agora percorre a casa de amigos, empresas e serviços a solicitar ajuda para famílias com carências. Como as ajudas são mais escassas do que as necessidades, socorre-se muitas vezes de alguma poupança que consegue fazer da sua pensão. E sempre que pode, tenta trazer para o grupo novos colaboradores.

A atenção ao que se passa à sua volta fá-la ser “remédio”, como presentemente o é para a sua amiga Agostinha. Há três meses que vai a sua casa todos os dias dar-lhe a medicação e sobretudo, assegurar-lhe que a vida tem sentido e que não está sozinha. Ficam a conversar ou a fazer alguma tarefa em conjunto. Este é o momento do dia em que Agostinha esquece as dores e por isso já não sabe dispensar esta “presença terapêutica” mais potente do que os comprimidos que toma. E tem a garantia da sua companhia enquanto for necessário. 

Quando regressa a casa, dona Sarita traz um sorriso e uma serenidade luminosa. Os joelhos doem-lhe mas no coração traz um prazer imenso. É assim que sabe viver e que, com toda a humildade afirma: eu sou abençoada por Deus que me dá tanta coisa boa para eu aproveitar e distribuir!
No final do dia, dona Sarita descansa o corpo cansado, cobre-se com a sua mantinha e agradece ao seu Deus tanto sinal de Amor que lhe dá, colocando no seu caminho pessoas com quem pode partilhar e preencher o seu mundo. 

Por tudo isto, talvez por o seu dia ser um sempre renovado jorrar de vida, os oitenta anos só se notam nos joelhos. A vitalidade da sua generosidade e a sabedoria apaixonada com que usa  o coração, dá brilho às marcas que a idade lhe traz.

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