04/07/2012

Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)



A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) chega à sua 10ª edição nesta quarta-feira, com uma programação em homenagem ao poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Apesar dos 110 anos de seu nascimento, porém, Drummond não é a figura principal do evento, que conta com expoentes da literatura contemporânea como o americano Jonathan Franzen, o inglês Ian McEwan e o espanhol Enrique Vila-Matas. Ao todo, são 39 escritores convidados, 20 deles estrangeiros. Até domingo, eles se revezarão em vinte mesas de debate no palco principal da festa, a tenda dos autores, em volta da qual outros duzentos eventos, entre festivais paralelos, uma edição infantil, lançamentos de livros e coquetéis de editoras, vão orbitar.
É difícil saber que rumos para a literatura aponta uma programação tão ampla e heterogênea. Ou, isso dito de outra forma, é fácil ficar desnorteado e com a sensação de que a indústria cultural, aquele dito ser autômato que vomita lançamentos sem descanso na cabeça das pessoas, está vencendo o leitor pelo cansaço. Mas não é bem assim. Uma análise mais acurada da programação permite uma seleção dos autores da festa, assim como das leituras sugeridas pela Flip em que é possível investir com segurança. VEJA Meus Livros dá sua mãozinha.
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VALE A PENA LER
Ian McEwanNão é à toa que ele está voltando. Uma das estrelas da edição de 2004, o autor de livros já clássicos como Amsterdam e Reparação é um dos grandes do nosso tempo, um nome capaz de reforçar qualquer evento. Para confirmar essa tese, ou mesmo para presentear os brasileiros, McEwan volta a Paraty com Serena, seu novo e ótimo romance, que está sendo lançado primeiro no Brasil – só no decorrer do segundo semestre ele chegará à Inglaterra e aos Estados Unidos. Serena é daqueles livros que exemplificam a importância de um autor. Nas lojas desde a última sexta, o romance conta uma história de espionagem para, a partir dela, discutir a investigação presente em toda relação humana e na própria literatura.

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Javier Cercas
É no jogo entre ficção e realidade que o professor de literatura espanhol Javier Cercas constrói o seu estilo. Um jogo que sugere perguntas sobre a construção da própria narrativa e onde ficção e realidade medem forças. A realidade, na obra de Cercas, é quase sempre emprestada de episódios históricos caros a seu país, como a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), pauta de Soldados de Salamina, livro que foi adaptado para o cinema por David Trueba em 2003 e está sendo relançado agora pela Globo Livros. A editora também está lançando o premiado Anatomia de um Instante (tradução de Ari Roitman e Maria Alzira Brum, 436 páginas, 49,90 reais). O romance reconta o frustrado golpe de estado de 1981 – conhecido como 23-F, um momento decisivo na história da democracia espanhola.
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AdonisCandidato de longa data ao Prêmio Nobel, o poeta sírio Adonis carrega no currículo o feito de ter renovado a poesia árabe. Ela seguiu um mesmo padrão por doze séculos, do VIII ao XX, quando Adonis, unindo aquilo que admirava da produção dos antigos autores árabes ao que apreciava na poesia ocidental, libertou rimas e versos. Assim como McEwan, vem para a Flip guarnecido de um bom lançamento. Com tradução e organização do professor de literatura da USP Michel Sleiman, Poemas, livro editado pela Companhia das Letras, reúne uma seleta de textos que mostram o gosto de Adonis por versos longos, com jeito de prosa a la Walt Whitman, e sua queda pelo épico e por imagens fortes.
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James Shapiro
Especialista em um dos maiores nomes da criação universal, o inglês William Shakespeare, Shapiro tem sempre algo interessante a dizer sobre literatura, mercado de arte e fabricação de mitos. No novo Quem Escreveu Shakespeare? (tradução de Christian Schwartz e Liliana Negrello, Nossa Cultura, páginas, 59 reais), o americano investiga os questionamentos sobre a autoria de obras que hoje levam a assinatura do dramaturgo – Mark Twain, Sigmund Freud e Henry James foram alguns dos que duvidaram que o autor de Otelo tenha realmente assinado tudo o que é atribuído a ele.
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NEM TANTO ASSIM…
Jonathan Franzen
Incensado como o principal nome desta edição da Flip, Franzen é exatamente isso: um escritor incensado. Os livros que o projetaram, As Correções e Liberdade, e especialmente este último, apresentam um autor com domínio textual e a ambição, não condenável embora sempre arriscada, de compor um painel da sociedade americana como se fazia antigamente. Mas também com a péssima mania de exalar moral – Franzen questiona o uso da tecnologia, abraça a causa ambiental e é contra o consumismo. Seus artigos e ensaios, como os reunidos emComo Ficar Sozinho (tradução de Oscar Pilagallo, 336 páginas, 46 reais), que a Companhia das Letras acaba de lançar, são superiores à sua ficção. Ainda assim, com seu desejo de ser um decalque de seu tempo, o escritor corre o risco de ser lembrado como o brasileiro Júlio Ribeiro (aliás, quem se lembra dele?). Ribeiro foi um sucesso comercial no Rio de Janeiro do século XIX com o livro A Carne, hoje usado como referência em universidades para entender o Naturalismo, tal o amontoado de conceitos e clichês reunidos.
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Jennifer Egan
Padece do mesmo mal de Franzen: tenta soar como a voz de seu tempo, no que deixa correr certa moral contemporânea em sua obra – ela se preocupa com questões ecológicas e com a dominação tecnológica sobre o homem, algo que aliás remonta ao século XIX, quando Mary Shelley escreveu Frankenstein de olho num mundo crescentemente controlado pela ciência.A Visita Cruel do Tempo, romance lançado aqui pela Intrínseca, foi o vencedor do Pulitzer em 2011, o que faz pensar na decisão tomada este ano pelo prêmio de não laurear ninguém. Se o livro de Jennifer Egan, com sua pegada novelesca semelhante à de Liberdade, de Franzen, e seu jeitão esquemático venceu a disputa no ano passado, o que havia de pior este ano?
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Enrique Vila-Matas
Outro a retornar à Flip, da qual participou em 2005. É um bom autor, com texto saboroso e uma boa biblioteca – além de uma justa reverência à literatura argentina. Mas não se pode negar que seus romances repousam sobre uma fórmula que se deixa perceber com facilidade, dando a quem lê a sensação de que o livro foi construído sobre um esquema, uma fôrma pré-definida. Dublinesca, por exemplo, livro lançado pela Cosac Naify no país no ano passado, segue o padrão do ensaio, de que Vila-Matas se diz leitor assíduo, e que, apesar de dar sabor extra ao texto, dá também a aparência de repetir uma receita de bolo. No início, o autor apresenta o seu objeto de estudo e o método usado para perscrutá-lo. Depois, desenvolve o enredo, repetindo padrões de seus livros anteriores.
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J. M. Le Clézio
Prova de que o Nobel não pode ser considerado um bom leitor, o francês vencedor do prêmio em 2008 tem um texto enfadonho, que não diz nada a ninguém. A Flip perdeu pouco com o seu cancelamento.

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APOSTAS
Teju ColeNigeriano radicado nos Estados Unidos, Cole estreou como romancista com impacto. Cidade Aberta, livro recém-lançado pela Companhia das Letras, acompanha as andanças de um nigeriano residente em Nova York – assim como o autor – pela cidade e pelo mundo. Numa prosa fluente, as lembranças desoladas do 11 de Setembro se misturam a reflexões sobre identidade, pertencimento e solidão. Um começo promissor.
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Alejandro Zambra
Alardeado como uma das vozes mais instigantes da novíssima literatura latino-americana, o chileno Alejandro Zambra, nascido em 1975 em Santiago, tem Bonsai, seu romance de estreia, publicado agora no Brasil pela Cosac Naify. O livro obteve diversos prêmios importantes e foi adaptado para o cinema por Cristián Jiménez, em 2011. Mais importante do que repassar o currículo da obra, porém, talvez seja observar como nela Zambra parece seguir caminhos abertos por Roberto Bolaño, escritor que também é de origem chilena e se tornou um verdadeiro fenômeno editorial na América Latina.

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