Dom Luciano Mendes de Almeida*
Eis aí para as comunidades cristãs o sentido do
tempo litúrgico do Advento, isto é, da preparação e espera da vinda de Jesus
Cristo. Trata-se, em primeiro lugar, de recordar e agradecer a entrada de Jesus
Cristo, Filho de Deus, na história da humanidade, nascendo entre os pobres, na
pequena cidade de Belém, anunciando a todos o amor de Deus, oferecendo ao mundo
perdão, paz e vida eterna e feliz. O dia 25 de dezembro marca, assim, a grande
alegria do início da salvação proclamada a todos os povos. Natal de Cristo
significa a revelação da infinita bondade de Deus, que ama a todos, nos
reconcilia com Ele e estabelece vínculos de fraternidade entre nós.
A celebração litúrgica do Advento inclui, também, o olhar para o futuro e a
expectativa da vinda gloriosa do Salvador no fim dos tempos para concluir a sua
missão e fazer o julgamento das pessoas e dos povos, revelando a plenitude dos
desígnios divinos de salvação e a realização da promessa de felicidade na
comunhão com Deus e entre nós.
Há, no entanto, um outro aspecto que pertence ao tempo litúrgico do Advento e que requer especial atenção das comunidades. Refere-se à presença de Cristo Ressuscitado na história, conforme a sua palavra: "Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos". (Mt. 28, 20). Essa presença se manifesta à luz da fé e fortalece e alegra os discípulos de Cristo. Conhecemos desde as primeiras comunidades a intervenção de Cristo na vida dos apóstolos e dos mártires, sustentando a coragem e confortando-os em meio aos sofrimentos. Percebemos, ainda, a presença de Jesus infundindo amor e dando graça no testemunho de vida de tantas pessoas que são, para nós, exemplo de virtude e dedicação ao próximo.
Basta pensar no devotamento da Madre Teresa de Calcutá, da irmã Dulce, na firmeza e bondade da irmã Dorothy, assim como no incansável afeto de tantas santas mães e pais de família, cuidando de crianças com deficiência e dos homens e mulheres que se consagram ao serviço dos enfermos, idosos e excluídos da sociedade.
Somos, no entanto, convidados a perceber em nossa vida quotidiana que Jesus Cristo nos ensina a descobrir a sua presença nas pessoas com que convivemos. Lembremo-nos que, no juízo final, Cristo vai nos perguntar sobre a nossa atitude para com o faminto, o enfermo, o encarcerado. "Tive fome e me destes de comer". Quando, Senhor? "Tudo o que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes" (Mt. 25, 40).
Eis aí a grande mensagem do Advento: saber reconhecer Jesus Cristo em cada irmão e em cada irmã. Isso abre horizontes de partilha e perdão, não só nos gestos individuais mas no empenho em promover as políticas públicas que assegurem condições de vida para os mais necessitados.
Nestes tempos em que a esperança parece enfraquecida, procuremos, neste Natal, vencer o egoísmo e abrir o coração para acolher o próximo, à luz da certeza de que o próprio Cristo se identifica com cada irmão e quer assim ser amado e auxiliado.

São Paulo, sábado, 03 de dezembro de 2005

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