02/10/2012

Susan Andrews fala sobre a ciência de ser feliz e os impactos da mídia

O que torna você feliz? Com essa frase, a psicóloga e antropóloga Susan Andrews deu início ao Fórum de Comunicação e Felicidade, realizado na última quinta-feira, 27, pela Agência da Boa Notícia, no auditório Waldyr Diogo, da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). O evento antecedeu à solenidade de entrega do Prêmio Gandhi de Comunicação 2012, concedido anualmente pela ABN para estimular a produção de trabalhos nas áreas do Jornalismo e Publicidade sobre o que de bom a sociedade produz, gerando harmonia e transformando a vida para melhor.

 Mas, voltando à pergunta inicial, a platéia foi tomada por um animado burburinho de reflexão. O que de fato traz felicidade? Foi neste clima de falar sobre o óbvio que Susan desarmou seu público. Concordando ou não com os argumentos apresentados, cada convidado parou para analisar os dados científicos apresentados pela palestrante.

CIÊNCIA HEDÔNICA
Antes de entrar no cerne do Fórum, que era discutir o papel da mídia no bem-estar coletivo, a biopsicóloga resumiu as pesquisas científicas das últimas décadas que estudaram o fenômeno da felicidade humana, estabelecendo para o público o conceito de Ciência Hedônica.

A palavra “hedônica”, disse Susan, foi criada pelo psicólogo Daniel Kahneman, vencedor do prêmio Nobel de economia em 2002. Esse termo descreve a pesquisa científica quanto as fontes da felicidade humana. De acordo com esses estudos, até um certo nível de riqueza, o sucesso material de fato traz mais felicidade. “Quando uma pessoa progride de um estado de absoluta pobreza e miséria até o atendimento das suas necessidades de sobrevivência, e desse nível de sobrevivência até uma vida confortável, e depois de uma vida confortável até um certo grau de luxo, sua felicidade de fato aumenta. No entanto, após um ponto, mais bens materiais não trazem mais satisfação. Isso é o fenômeno da adaptação. Nossas células nervosas se adaptam aos estímulos repetitivos”, explica.

A partir daí, o que importará serão os chamados “fatores não-materiais”, tais como companheirismo, famílias harmoniosas, relacionamentos amorosos, e uma sensação de se viver uma vida significativa.

Para estabelecer esse fundamento sobre felicidade, a comunidade científica cada vez mais passou a estudar o fenômeno. Segundo Susan, nos primeiros cinco anos da década de 80, apenas 200 artigos acadêmicos sobre felicidade foram publicados; nos últimos 18 meses, esse número chegou a 27.335. Hoje, afirmou ela em um artigo, que o curso mais popular da Universidade Harvard é voltado para esse tema. Atualmente se fala cada vez mais em Felicidade Interna Bruta (FIB), um conceito teve origem no reino do Butão. O pequeno país do Himalaia tem atraído interesse mundial por sua preocupação em calcular o nível de bem-estar dos cidadãos - e incentivá-lo.

A felicidade, analisa Susan, pode ser entendida como a combinação entre o grau e a frequência de emoções positivas; o nível médio de satisfação que obtemos durante um longo período e a ausência de sentimentos negativos, tais como tristeza e raiva. “Essa definição marca a felicidade como uma característica estável, e não como uma flutuação momentânea. Logo, ela não é apenas caracterizada como a falta de emoções desagradáveis, mas também como a presença de sentimentos prazerosos”, destaca.

TV E (IN)FELICIDADE
Ao explanar sobre as diretrizes da Ciência Hedônica, que nas últimas décadas vem acumulando cada vez mais artigos acadêmicos, Susan proporcionou ao público nova visão para nortear a reflexão sobre o impacto da mídia, especialmente a televisão, no estado de felicidade e/ou infelicidade da sociedade.

Entre algumas pesquisas científicas destacadas por Susan no Fórum, uma aponta um gráfico comparativo onde mostra que na mesma época que o PIB americano aumentou, a felicidade baixou e o número de pessoas assistindo televisão também cresceu.

Quebrando o protocolo, que previa perguntas por escrito do público, Susan abriu espaço para o público se expressar pelos microfones.  A relação aí estabelecida entre televisão ligada e pessoas infelizes motivou diversas opiniões divergentes no público presente, embora, a maioria que se manifestou tenha declarado uma forte preocupação com a carga de violência que é veiculada entre programas e novelas.

Os contrários à ideia de que a TV é o cerne da infelicidade da sociedade contemporâneo lembraram que o veículo não pode ser entendido como único vilão, mas um ponto de reflexão e de discernimento do que é bom e ruim no mundo.

Disposta a instigar o público, Susan cravou outro ponto de interrogação. O que tem na mídia que está afetando o nosso bem-estar? A resposta desta vez veio amarrada a uma explicação científica. “Nosso cérebro responde mais intensamente a estímulos negativos do que a positivos. Isso é o que chamamos de ‘tendência negativa’. Somos condicionados a responder estímulos negativos. Isso é uma reação instintiva a qualquer estímulo que pode nos ameaçar”, argumentou a antropóloga.

Nesta linha de pensamento, a palestrante destacou que medo e violência chamam mais atenção do nosso cérebro porque estão ligados ao instinto de sobrevivência. “Estão explorando nosso instinto fundamental. Passamos a achar que o mundo é muito mais perigoso do que é”, afirmou.

NEURÔNIOS ESPELHOS
Conhece aquela sensação boa de olhar uma apresentação de dança e ter a vontade de dançar também? Bem, a antropóloga explicou que isso é resultado dos nossos neurônios espelhos, que fazem com que nos identifiquemos com o comportamento da outra pessoa e trazem a sensação de como o próprio observador estivesse atuando.

Susan ressaltou que esse princípio também ativa áreas do cérebro envolvidas com medo e agressão quando as pessoas assistem programas violentos. “O resultado disso são pessoas medrosas ou com comportamento agressivo. A negatividade da mídia estimula as áreas mais primitivas do cérebro ligado a sobrevivência e agressividade. A conclusão dos pesquisadores é que se mobiliza uma sensação de impotência e desespero. Parece que somos incapazes de fazer algo para mudar a situação.  A TV tende a cultivar uma sensação de perigo”, alertou a palestrante.

NOVELAS
As novelas tiveram grande espaço nesta discussão, especialmente, “Avenida Brasil”, da Rede Globo, apontada por destacar os “não-valores” da sociedade. Susan trouxe um dado alarmante. Em duas décadas, apontou ela, aconteceram milhares de separações por causa de telenovelas.

Quando os microfones foram liberados para o público manifestar suas opiniões, muitos citaram a atual novela das nove da Rede Globo como exemplo de “produto corrompido”, onde são valorizadas ações como vingança, mentira e traição. As vozes dissonantes deste discurso argumentaram que é preciso equilíbrio e, principalmente, consciência crítica para traçar o paralelo entre o bem e o mal.

Susan Andrews citou mais uma pesquisa americana que mostra a infelicidade das pessoas diretamente ligada à solidão. “As pessoas não conversam mais com os vizinhos. Elas estão sim mais vidradas na televisão”, observou. Falou também do impacto dos conteúdos negativos da mídia sobre as crianças, gerando ansiedade, medo, agitação e estresse. Segundo ela, um antídoto para esse quadro é a contação de histórias, que permite à criança, além do convívio mais humano em casa, o mergulho no universo da fantasia.

Finalizando a palestra, Susan Andrews deixou uma mensagem: “Não há como construir uma cultura de paz no Brasil, enquanto a mídia vender violência. (...) A realidade negativa é só a metade da história. A outra metade é o que pode ser feito a respeito”.

SOBRE SUSAN ANDREWS
Susan Andrews é  psicóloga e antropóloga pela Universidade de Harvard (EUA), doutora em Psicologia Transpessoal pela Universidade de Greenwich (EUA), e uma das maiores estudiosas no mundo, da chamada Ciência Hedônica, a “Ciência da Felicidade”.

Norte-americana que adotou o Brasil como pátria, quando veio para a Eco-92, Susan é hoje a coordenadora em nosso País do Movimento FIB – Felicidade Interna Bruta. E mais: o primeiro-ministro do Butão, Jigme Thinley, no encontro realizado em abril/2012, na sede das Nações Unidas em Nova York, sobre o tema "Felicidade e Bem-Estar: Definindo um Novo Paradigma Econômico", nomeou Susan Embaixadora do FIB no Brasil.

O conceito FIB nasceu no Butão, pequeno país do Himalaia, e aos poucos em outros países ganha espaço a ideia de buscar outras maneiras de medir o desenvolvimento, considerando o bem-estar da população e não somente aspectos econômicos e monetários, como faz o índice PIB - Produto Interno Bruto.
Mais que um índice, o FIB compreende nove aspectos ou dimensões que servem para nortear o desenvolvimento sustentável de uma região: padrão de vida, saúde, educação, cultura, vitalidade comunitária, uso equilibrado do tempo, ecologia, boa governança, e bem-estar psicológico. Grupos no Reino Unido, Canadá, Austrália e Brasil trabalham pela implantação do FIB. Em nosso País, existem projetos-piloto em São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal.

Susan Andrews é também a fundadora e coordenadora do Instituto Visão Futuro e autora de 12 livros, sendo os mais conhecidos “A Ciência de Ser Feliz”, que reúne as novidades sobre a Ciência Hedônica, e “Stress a seu favor”, no qual apresenta os recursos da Biopsicologia que permitem o ser humano compreender o processo de estresse e aprender a gerenciar a vida e situações de crise.

Conferencista em 40 países, como Austrália, Itália, Dinamarca, Polônia, China, Indonésia, Quênia, Índia, Egito e vários outros, no Brasil, Susan tem ministrado palestras e treinamentos para empresas e profissionais liberais nas áreas de Saúde, Psicologia, Recursos Humanos, Ecologia, Desenvolvimento Pessoal e Educação. Foi colunista das revistas Época e Época Negócios.
Fonte: Agência da Boa Notícia
Última atualização: 01/10/2012 às 21:10:39
 

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