sexta-feira, 30 de novembro de 2012

PORTINARI: poética da fragilidade

Vida e obra do pintor Candido Portinari são temas de novo documentário da série "Os Grandes Brasileiros"

Escreveu Candido Portinari (1903 - 1962) sobre sua obra: "Creio ter pintado o mundo que me rodeia, a gente pobre com os olhos doentes, com a cara estragada e o corpo deformado. Essa mesma gente se divertindo, se casando, tendo filhos e morrendo. Algumas dessas pessoas também com alguma saúde. Contrastando, fiz gente bonita, com a pele tratada e bem maquiada". Esse retalho de humanidade, incessantes no trabalho do pintor paulista que conquistou o mundo retratando a sua aldeia, é tema do DVD "Portinari do Brasil", realizado pela FBL Vídeos, com direção de Rozane Braga. Em 56 minutos, o documentário aborda a trajetória do artista, desde o nascimento, na pequena cidade de Brodowski (SP), até a feliz notícia do nascimento de sua neta e a profícua produção de 1961, interrompida por seu falecimento, em fevereiro de 1962.

O povo brasileiro era a maior inspiração de Portinari: negros, trabalhadores, índios, o morro, o campo

O DVD foi lançado no começo do mês, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e, desde então, tem distribuição gratuita a bibliotecas, instituições de ensino, empresas e órgãos do Governo, além de estar à venda na Livraria Cultura.

Série
O documentário é o oitavo da série "Os Grandes Brasileiros", idealizado e produzido pela FBL. "Desde o ano 2000, temos feito esta série, que homenageia os principais ícones de cada categoria: políticos, antropólogos, jornalistas e empresários. Entre os artistas plásticos, julgamos Portinari como o mais evidente", afirma Braga. Após a escolha, a produção entrou em contato com João Candido Portinari, filho único do artista, que cedeu boa parte do material necessário para o vídeo. Entre o vasto acervo reunido por ele em mais de 30 anos de Projeto Portinari, a equipe se encantou com os muitos escritos. "Quando começamos a mergulhar no universo de Portinari, nos vimos diante de uma série de memórias que ele mesmo escreveu. Portinari contou a vida dele toda em diários, apesar de ter cursado apenas até o terceiro ano do primário", revela a diretora.

Desse modo, não se encontrou forma melhor de contar sua trajetória do que em primeira pessoa. Às narrações foram acrescentados trechos de Portinari na voz do ator Herson Capri. O processo de elaboração do filme levou um ano e meio e incluiu uma viagem a Brodowski para a filmagem das estradas de terra roxa, cafezais e a capela em que o pequeno Candinho aprendeu a pintar.

Direto
"Quisemos reforçar a imagem de Portinari como um pintor social, isso é muito forte em sua história", destacou a diretora. Ainda muito jovem, Portinari deixou Brodowski para estudar pintura no Rio de Janeiro. Graças a um prêmio conquistado na capital carioca, visitou a França pela primeira vez. E, mesmo estando no turbilhão artístico de Paris, decidiu ali que pintaria o matuto de sua terra.

Desde então, dedicou-se aos trabalhadores, negros, índios, o samba no morro, a lida no campo, a quermesse, o casório, o futebol na roça. "Na minha obra só dá camponês. Mesmo quando eu faço outra coisa, sai camponês", disse certa vez. Em pouco menos de cinco décadas de artes, produziu mais de cinco mil obras, de retratos a painéis monumentais, todas inspiradas pelo mesmo espírito aldeão.

Já casado e com João Candido na juventude de seus 10 anos, Portinari retornaria à França, dessa vez para sua primeira individual em solo europeu. Na galeria Charpentier, entre tantos visitantes, estava o Duque de Windsor. "Ele gostou do meu estilo, mas não do tema. Quis comprar um quadro e me perguntou: ´O senhor não teria flores?´ Eu disse: ´Flores, não. Só miséria´".

Essa e muitas outras passagens da vida do pintor estão registradas em "Portinari do Brasil". "A luta dele pelo social foi o que mais nos emocionou", defende Braga. Para requisitar o DVD, a instituição deve enviar mensagem pelo site www.fblvideo.com.br

Estudos de Portinari em exposição na Unifor

A exposição "Guerra e Paz, de Portinari (estudos), em cartaz no Espaço Cultural Unifor, reúne 50 dos 180 estudos preparatórios realizados por Candido Portinari no processo de criação dos painéis "Guerra" e "Paz" (1956), além de documentos, fotografias, recortes de jornais dos anos 1950 e vídeos. Os estudos foram realizados a partir de 1952, quando o artista começou a trabalhar nas obras, encomendadas pelo governo brasileiro para presentear a Organização das Nações Unidas (ONU). Durante quatro anos, Candido Portinari produziu aqueles que seriam seus dois últimos e maiores trabalhos artísticos.

Desenhos e maquetes feitos por Portinari antes da criar "Guerra" e "Paz" estão expostos na Unifor

Os murais "Guerra" e "Paz" possuem, aproximadamente, 14 metros de altura por 10 de largura. O convite para elaborá-los chegou ao artista quando já havia sido alertado pelos médicos do risco de uma intoxicação pelas tintas. Mesmo assim, Portinari aceitou.

O pintor teve como ateliê o auditório dos estúdios da extinta TV Tupi, onde trabalharia sobre uma superfície de 280 metros quadrados de madeira compensada naval (uma dimensão maior do que a trabalhada por Michelangelo na Capela Sistina). Antes da entrega oficial dos trabalhos à ONU, em setembro de 1957, um movimento de intelectuais e artistas apelou ao Itamaraty para que fossem expostos no Brasil antes de embarcar para os Estados Unidos. À ocasião, nem Portinari os havia visto montados integralmente. Foi assim que, em cerimônia solenemente presidida por Juscelino Kubitschek, "Guerra" e "Paz" foram expostos, lado a lado, no Theatro Municipal, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1956. Os painéis retornariam ao mesmo teatro em dezembro de 2010. Em 12 dias, 44 mil pessoas contemplariam, maravilhadas, a grandiosidade da obra do gênio. No Espaço Cultural Unifor, o público tem a oportunidade de admirar, em detalhes, os movimentos, as expressões faciais e fragmentos de cenas que viriam a compor os célebres painéis, desenhados separadamente, em grandes e pequenos rascunhos, que equivalem, por si só, a preciosas obras. Neste momento, o Projeto Portinari planeja a exposição dos painéis "Guerra" e "Paz" em Belo Horizonte (MG). A exposição Guerra e Paz, de Portinari, deve marcar a reinauguração do antigo Cine Theatro Brasil, em setembro de 2013.

Projeto Portinari
Idealizado pelo filho único do artista plástico, João Candido, o Projeto Portinari, em quase 30 anos de existência, já catalogou mais de 5.400 pinturas, desenhos e gravuras atribuídas ao pintor, além de mais de 25 mil documentos sobre sua obra, vida e época. Através dele, realizaram ainda um Programa de História Oral que resultou em 74 depoimentos, totalizando 130 horas gravadas. Oscar Niemeyer e Jorge Amado estão entre os depoimentos. (MA)

DVD
Portinari do Brasil
Direção: Sonia Garcia
FBL
2012, 50 minutos
R$ 54,90

Mais informações:
Exposição "Guerra e Paz, de Portinari (estudos)", em cartaz no Espaço Cultural Unifor até 20 de janeiro de 2013, de terça a sexta, das 8h às 20h, e sábados e domingos, das 8h às 18h, com entrada franca.

MAYARA DE ARAÚJOREPÓRTER
Doário do nordeste

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