“O Todo-Poderoso fez por mim grandes coisas” (Lc 1,49)
Dom José Maria Pires*
Por que
não colocar nos lábios do filho as palavras de louvor que acabamos de ouvir,
saídas da boca e do coração da Mãe? A Virgem Maria, fazendo um retrospecto da
história de Israel, podia assinalar a realização do desígnio de Deus reservado
para a plenitude dos tempos. Podia reconhecer que essa maravilha se concretizou
por meio dela, o instrumento escolhido por Deus.
O que
diremos nós, o que dirá a Igreja de Olinda e Recife, a Igreja do Brasil, o que
dirá nosso querido e venerando pastor Dom Hélder Câmara, ao lançar o olhar
sobre estes 65 anos de vida sacerdotal que hoje alegremente comemoramos? Não
tem ele o direito e o dever de cantar com Maria: “O Todo-Poderoso fez por mim
grandes coisas”?
Recordar
essas “grandes coisas” não é vaidade, não é vã glória. É recordar como Maria
recordou os motivos especiais de glorificar o Senhor: “Minha alma exalta o
Senhor e meu espírito se encheu de júbilo por causa de Deus, meu salvador”.(Lc
1,47)
Senhor
Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote!
Os
promotores desta homenagem encarregaram-me da louvação. Certamente não pensavam
numa louvação a Dom Hélder, mas a Ti, ó Cristo que és sempre o Presidente Maior
desta Celebração Eucarística na qual Te fazes visível através de nosso humilde
ministério. Não a nós, Senhor! A nós, a Dom Hélder, a todos os Teus discípulos
e discípulas, concelebrantes também eles e elas da divina Liturgia, cabe sempre
a atitude de humildade recomendada por Ti no Evangelho: “Quando fizerdes tudo o
que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos uns servos quaisquer. Não fizemos mais do
que nosso dever’ “(Lc 17, 10).
Nós Te
louvamos, Senhor, porque o Ceará existe e de lá, de Messejana, chamaste um
jovem ardoroso, ordenado presbítero com apenas 22 anos e, cinco anos depois, o
fizeste migrar, como tantos milhões de outros nordestinos, para o Rio de
Janeiro.
Nós Te
bendizemos porque a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e o Conselho
Episcopal Latino Americano (CELAM) germinaram e vieram a lume no coração e na
mente de Dom Hélder antes mesmo de ele ser bispo.
Nós Te
louvamos pela Ação Católica de que ele foi Assistente Nacional, Ação Católica
que formou tantos militantes leigos e deu à Igreja do Brasil os quadros de que
ela necessitava para fazer-se presente e atuante no mundo.
Nós Te
louvamos e bendizemos pelo 36º Congresso Eucarístico Internacional celebrado no
Rio de Janeiro, organizado, animado e orientado por dois servos Teus, Dom José
Vicente Távora e Dom Hélder Câmara.
Nós Te
louvamos porque, naquele período, não foi só a Igreja a beneficiária de Tuas
graças escolhidas. Também a Sociedade civil, formada majoritariamente de
pobres, pôde acolher Tuas dádivas, passadas pelas mãos do teu servo Hélder
Câmara. Ou não foi benefício Teu a Cruzada São Sebastião visando ao
desfavelamento do Rio? E o Banco da Providência fugindo ao assistencialismo e
buscando a promoção humana? E a SUDENE, Senhor? Ela também é desse tempo de
graça. Quem teve a audácia de reunir bispos e políticos a fim de refletir os
problemas do desenvolvimento do Nordeste e encaminhar soluções concretas?
Os anos
sessenta trouxeram mudanças profundas para a Igreja e para nosso país. Dois
acontecimentos marcantes, um eclesial outro político, modificaram o curso da
história da Igreja no Brasil: a realização do Concílio Ecumênico Vaticano II e
o Golpe Militar de 31 de março de 1964. A Igreja não podia ser mais a mesma da
primeira metade do século e Dom Hélder já não podia ser mais o mesmo dos tempos
do Concílio de Trento ou do tempo em que o Brasil vivia sob regime democrático.
A realidade era outra.
A Igreja
do Vaticano II apresenta-se com novo enfoque: Povo de Deus mais do que
Hierarquia, Comunidade mais do que Sociedade, inserida no mundo mais do ao lado
do mundo, servidora e não senhora, defensora da verdade e não sua
proprietária.
Tão logo
foi dado o Golpe Militar, estando ainda em andamento o Vaticano II, fazes, ó
Jesus, Teu servo Hélder Câmara retornar ao Nordeste e o colocas no fogo cruzado
de uma Igreja em transformação e de uma sociedade civil submetida a Ditadura
Militar.
Com Dom
Hélder à frente, foste conduzindo os acontecimentos de tal modo que, no Recife
e no Nordeste II, a Igreja Tridentina foi dando lugar à Igreja Vaticano
II.
O clero
foi se sentindo presbitério, corresponsável com seu Bispo pela caminhada da
Igreja local. Os leigos foram se organizando em comunidades, em movimentos,
associações e setores pastorais e, sem se afastarem da comunhão com a
Hierarquia, reconheceram sua autonomia e passaram a assumir suas
responsabilidades na evangelização e a dar conscientemente sua indispensável
contribuição na construção do Reino de Paz e de Justiça.
Os
jovens, afastados da participação social e política pela Revolução de 64,
contaram com a simpatia e a acolhida da Igreja de Olinda e Recife que chegou a
oferecer-lhe a vida e o sangue de um de seus filhos mais queridos, a testemunha
fiel, o mártir Pe. Antônio Henrique.
Mais do
que qualquer outra no Brasil de então, a Igreja de Olinda e Recife tornara-se
uma referência, um espaço de liberdade para quantos buscavam uma sociedade
livre e igualitária. Ela se fez a voz dos que não tinham voz.
Com Dom
Hélder, Deus se serviu de coisas muito simples e de pessoas bem humildes para
iniciar nesta Igreja o processo de entrada em vigor das mensagens do Vaticano
II. O que é um programa radiofônico de meia-hora? O que valem grupos de
rádio-ouvintes que, depois de escutarem a fala do Bispo, se concentram para
refletir e rezar as perguntas lançadas no programa? Verdadeiro Encontro de
Irmãos e Irmãs dos quais surgiram tantas Comunidades Eclesiais de Base!
Para dar
uma demonstração de que é possível com pouco dinheiro e muita solidariedade,
resolver os problemas sociais, inspirastes, Senhor Jesus, a Operação Esperança
que surgiu para manter viva a chama de uma nova sociedade sem famintos e sem
desabrigados.
Nós Te
bendizemos porque no Rio e no Recife, não deixastes Teu servo sozinho. A ele
associaste um grupo voluntário de homens e mulheres, peritos nas ciências e nas
artes, desde a Teologia, a Sociologia, a Economia, a Política ou os Meios de
Comunicação até a redação, o desenho, a datilografia e a mecanografia. O grupo
de voluntários era numeroso. É impossível enumerar todos os seus componentes.
Mas permite, ó Cristo, que Te agradeçamos o trabalho de todos e de cada um, o
apoio que deram à Tua causa e a assessoria qualificada que prestaram a Teu
servo Hélder. Deixa que nosso agradecimento chegue a todos na saudosa menção
que fazemos aqui de dois que já vêem Tua face gloriosa: Cecilinha, no Rio e Dom
Lamartine, no Recife. Por eles sabemos e sentimos que esta comunidade de irmãos
aqui reunida está em total comunhão com a Igreja Celeste de que eles já
participam.
Senhor,
lembramos fatos recentes mas todos pertencentes já ao passado. Um passado sem o
qual este presente seria outro ou nem seria. Mas Dom Hélder não é homem do
passado nem é homem de parar no presente: ele olha o futuro, ele caminha para o
futuro. Por todo mundo repercute seu grito: Ano 2.000 sem miséria! Grito que
tem inspirado as Campanhas contra a fome e contra a miséria e em favor da
cidadania. É a volta ao paraíso. Utopia que, no coração de Dom Hélder e no Teu
Coração, ó Cristo, deve transformar-se em realidade para todos os filhos e
filhas de Deus, para todos os irmãos e irmãs pelos quais derramaste Teu
sangue.
A Igreja
de Olinda e Recife não pode deixar no chão essas bandeiras nem pode permitir que
passem a outras mãos. Deve empunhá-las e assumir a vanguarda da luta pelo
Reino. Dom Hélder deu a esta Igreja uma dimensão que ultrapassa os limites
geográficos da Diocese. Atinge todo o Nordeste, terra de sofrimentos, de
injustiças mas de esperança também. Sobretudo de esperança. Dom Hélder continua
sendo para todos nós fonte de inspiração e de força.
Ele é
ainda pastor desta Igreja. Pastor Emérito não deixa de ser pastor. Como um pai
que transfere aos filhos a condução dos negócios da família, mas permanece
presente, assim o coração de Dom Hélder, enquanto pulsar, será o que foi
durante tantos anos: o coração do pastor de Olinda e Recife.
Há uma
contribuição de primeira ordem que ele pode dar e a que não se nega: fazer o
que Moisés fez na colina de onde acompanhava o combate dos israelitas: orar. E
a prece de Dom Hélder será, para todos nós, tão útil e poderosa quanto a de
Moisés para o povo de Deus daquele tempo. (Cf. Ex 17, 10-12 )
Senhor, a
louvação prossegue. Mas passamos-Te a palavra. És Tu que irás conduzir o louvor
daqui para a frente apresentando ao Pai a louvação que quisemos tributar-Te pela
vida e pelos 65 anos de ministério sacerdotal de Teu servidor Hélder
Câmara.
Nosso
louvor, por Ti assumido, torna-se agora Eucaristia.
Permite
que coloquemos em Tuas mãos uma prece por esta Igreja. Nosso pedido é
semelhante ao que Eliseu dirigiu ao profeta Elias antes que ele fosse
arrebatado em carro de fogo:
Dá à Tua
Igreja de Olinda e Recife o espírito do profeta Hélder, mas dá em dobro. Amém!
*Arcebispo Emérito da Paraíba
Aos 15/08/1996
*Arcebispo Emérito da Paraíba
Aos 15/08/1996
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