18/01/2013

Um brasileiro chamado Oscar



Mais tarde sentiu-se na obrigação de perpetuar em concreto a utopia do amigo aventureiro
AUDIFAX RIOS

Assim como na arte, ao conceber os monumentais edifícios da nova capital, descartando a rigidez das retas e moldando o concreto em graciosas curvas, na vida, o genial arquiteto optou, outrossim, por formas mais simples de convivência, mais maleáveis na conduta para com o semelhante. Ao companheiro deu mais do que cobrou.

Comunista convicto, ateu por extensão, Oscar Niemeyer todavia não se furtou em empenhar-se desmedidamente no projeto da catedral de Brasília, hoje o maior símbolo material do cristianismo; ao romper com a milenar tradição arquitetônica templária marcada por pesados estilos. A tradução convincente é a de mãos unidas que se elevam para o alto em oração. Quem adentra o moderno templo há de passar por um túnel escuro, adrede construído, por onde o fiel ou o turista, o simples mortal fica reduzido à sua diminuta dimensão. E ao ingressar na nave circular é ofuscado pela luminosidade natural filtrada pelos imensos vitrais que produzem espetacular efeito: o “fiat lux” onde anjos barrocos habitam a vidraçaria vanguardista para anunciar a grandeza do Criador.

Era o próprio Niemeyer que dizia: “A vida pode mudar a arquitetura. No dia em que o mundo for mais justo, ela será mais simples”. Quando de sua partida, aos 104 anos, no dia 5 de dezembro último, folhas e redes ocuparam tempo e espaço com biografias e ideologias, tendências e tenências, a criatura e a arquitetura. Principalmente o artista foi reverenciado. Saudemos o homem que foi, por excelência, fiel a si mesmo e às suas paixões. Quando recebia clientes ou amigos em seu escritório acomodava a visita defronte a um retrato de Luiz Carlos Prestes, seu amigo de ideologia desde 1940. Tão camarada a ponto de ceder parte do estúdio para a instalação da sede do Partido Comunista.
Mais tarde sentiu-se na obrigação de perpetuar em concreto a utopia do amigo aventureiro. Projetou monumentos em Crateús, no Ceará; Palmas em Tocantins; Santa Helena no Paraná e Santo Ângelo no Rio Grande, escalas do roteiro da famigerada Coluna Prestes em feitio de memorial.
Ideologias à parte foi o ser humano priorizado na obra de Niemeyer. Consta que o conjunto do Congresso Nacional foi pensado no homem e na universalidade unidos à outra força visceral: a brasilidade. Tal universo repartido e bilateral, o côncavo e o convexo, o confronto de ideias numa simbologia que beira o folclore: uma cúpula recebendo os fluidos do cosmo, a outra transmitindo essa energia ao recinto interior. Subterrâneo onde os homens de boa vontade, assim se presume, traçam e discutem os destinos da patriamada. E os dois imensos pilares (gabinetes) unidos por uma haste (passarela) formatam a letra “H” que, trocando em miúdos, seria o Homem na sua plenitude. E acreditam os mais fanáticos que no dia 21 de abril (dia de Tiradentes e da inauguração de Brasília) o sol se posiciona, esplendoroso, bem no meio deste espaço vital.

Assim era a obra de Niemeyer, plena de significados. Estudos foram publicados em torno da egiptologia comparando a capital brasileira moderna a um Egito da antiguidade, cheia de pirâmides: catedral, teatro, biblioteca; relicários da fé, da arte e do pensamento. No entanto a brancura de seus palácios remetem à já citada brasilidade: eles não passam de alpendradas casas grandes em cujas colunas do se armavam redes a fim de programarem o amanhã e repassarem o ontem. Assim é Alvorada, Planalto, Justiça e Itamaraty. A própria capelinha do paço residencial assemelha uma casa de joão-de-barro, a mais funcional morada de um pássaro. Oscar Niemeyer, Juscelino o sabia, soube com mestria assentar seus bibelôs no imenso aeródromo de Lúcio Costa, berço esplêndido de uma nave premonitória projetando, desta feira em concreto, a profecia de que o Brasil seria o país do futuro com a sina de voar alto. Lúcio Costa e o operário candango acreditavam nisto. O povo brasileiro ainda tem esperança.
Voltando à ideologia, o arquiteto, mesmo trabalhando por encomenda, aproveitou o ensejo para vender explicitamente seu peixe. Ao conceber o Memorial de JK quis que a estátua do estadista fosse, como que, tutelada por um componente do partido político a que pertenceu até a morte: a foice. E asseguram os mais vermelhos que quando do ocaso o sol projetava no gramado a sombra do emblema em sua totalidade. E vejam, Juscelino nem era socialista, mas foi quem mais compreendeu esse inquieto operário. Tanto que quando governador de Minas lhe havia encomendado o complexo da lagoa da Pampulha com plena liberdade para criar. E pela primeira vez Niemeyer abdicou do traçado retilíneo vigente e dos caixões em voga para projetar a igrejinha católica fora dos cânones preconizados pela Santa Madre. Redesenhou os cumes das serranias das Gerais tão maleáveis como o coração do homem ou o perdão divino.

A maioria das matérias publicadas pela imprensa fala, muito justamente, na seu trabalho revolucionário. Preferimos falar do homem. Uma demão de humanidade a respingar sobre a obra já consagrada. Um homem simples que soube moldar ousados sonhos. E de seu sentido de reconhecimento e gratidão pelo companheiro, o semelhante, o operário que viabilizou seu traço. Assim quis que erigissem na Praça dos Três Poderes uma escultura descomunal de dois guerreiros abraçados (obra de Bruno Giorgi), na verdade candangos unidos na solidão do Planalto pela saudade do Nordeste natal. Orgulhosos de ter tirado do papel a utopia colossal de um gênio.

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