O prêmio Nobel de Literatura, recebido em 1990, não lhe emprestou uma imagem oficial, conservadora e caduca. Octavio Paz (1914 - 1998) ainda é, 15 anos após sua morte, um autor para leitores e poetas inquietos.

O escritor mexicano Octavio Paz: reflexão clássica sobre a poesia e o papel do poeta
O mexicano foi um dos grandes nomes da poesia (em língua espanhola, mas não só) do século passado. Deixou, também, uma obra como ensaísta que ombreia a lavra poética em qualidade e importância.
É o Octavio Paz ensaísta, mas imerso na poesia, que encontramos em “O Arco e a Lira”, recém-lançado pela Cosac Naify. A obra é uma das mais importantes da bibliografia de Paz. O volume conta com a tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, dupla que já assinou conjuntamente transcriações de autores como Julio Cortázar, Mario Benedetti, Mario Vargas Llosa e Juan José Saer.
O livro continuava parcialmente inédito no Brasil. Seis capítulos dos 16 que compõem o livro integram a coletânea “Signos em Rotação” (1972, editora Perspectiva), traduzida por Sebastião Uchoa Leite. O próprio texto que dá título a coleção foi tirado de “O Arco e a Lira”.
Ousadia
Lançado originalmente em 1956, “O Arco e a Lira” foi o segundo livro de ensaios de Paz. Nele, o escritor tomou um caminho bem diverso daqueles trilhado em sua estreia no gênero. “O Labirinto da Solidão”, de 1950, reunia uma série de textos sobre a cultura mexicana, indo da vida intelectual do país até a ideia de revolução. Paz refletia muitas coisas para dar conta de pensar o México.
Em “O Arco e a Lira”, o escritor pela o caminho inverso. Ele não parte de várias direções em busca de um centro, mas toma um ponto para, a partir dele, irradiar reflexões sobre a natureza da poesia, sua estrutura, seu significado, sua relação com o mundo, bem como a vivência do poeta. O grande risco da empreitada de Paz era justamente não dar conta do projeto, demasiado amplo e ousado.
Contudo, o poeta se mostrou à altura do desafio. O livro de Octavio Paz foi daqueles livros recebidos com rebuliço, por poetas, críticos e leitores. Tal qual previra seu amigo Julio Cortázar. O escritor argentino – autor do clássico “O Jogo da Amarelinha” – foi um dos primeiros leitores do ensaio a cerca da poesia de Paz. Em uma carta enviada ao poeta, e incluída nesta edição de “O Arco e a Lira”, Cortázar não poupou elogios ao ensaio, o qual reconheceu como “um trabalho profundo e completo sobre algo que é de longe um dos fogos centrais, se não o fogo propriamente central do homem”.
“Quando se pode fazer convergir uma gama tão vasta de experiências num trabalho desta natureza, unir a Europa, a Ásia e a América numa síntese ditada por uma longa reflexão, os resultados só podem ser evidentes”, escreve Cortázar. E continua: “Do começo ao fim, ‘O Arco e a Lira’ é um avanço em riqueza, em profundidade e em beleza. (...) As duas primeiras partes bastariam para fazer dessa obra o melhor ensaio (e a palavra é pequena) sobre poética que já se escreveu na América. O livro reduz outros trabalhos paralelos a simples monografias”. O valor da opinião do argentino não é pequeno. Afinal, ele próprio tornou-se conhecido pelo brilhantismo com que exerceu o ensaísmo, sobretudo no que toca a reflexão sobre a palavra literária.
Mundial
“O Arco e a Lira” também foi importante para firmar o nome de Paz como um pensador da literatura. É certo que, no México e em outros países da América Latina, já não restavam muitas dúvidas quanto à qualidade de seu trabalho como poeta ou ensaísta. No entanto, o livro antecipou em poucos anos o chamado “Boom Latino-Americano” – momento histórico, entre os anos 60 e 70, que a Europa “descobriu” a literatura do continentes americano não-anglófono.
E, neste momento, era fundamental que nossos autores não fossem vistos como “talentos crus”, como a arte não lapidada de terras selvagens. Paz, como avaliou Cortázar, e os leitores ainda hoje podem comprovar, mostrou que o Hemisfério Sul não estava apenas à altura de suas antigas metrópoles. Também estava à frente delas.
LIVRO
O arco e a liraOctavio Paz
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht
Cosac Naify
2012, 352 páginas
R$ 69
Dellano RiosEditor
Diário do Nordeste
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