Marcelo Barros
Monge beneditino e escritor
Adital
Foto: franciscanosmapi.org.br
O ato de dialogar sempre pede que nos coloquemos no lugar do outro. Em um país majoritariamente católico-romano e menos laical do que muitos de nós desejaríamos, esse momento de eleição papal em Roma não é ocasião muito propícia para falar de unidade das Igrejas. Entretanto, talvez caiba a um simples monge católico como eu lembrar aos irmãos da minha Igreja, assim como a todos "irmãos e companheiros na tribulação dessa vida e no testemunho do reino divino” (Cf. Apoc 1, 9) alguns aspectos ligados a essa eleição papal e ao futuro da nossa Igreja.
O inesquecível papa João XXIII, que a humanidade habituou-se a chamar de "o papa bom” recordava que podemos falar a mesma coisa de duas formas, uma que pode unir e outra que divide. No momento atual, tenho para mim que expressões usadas por alguns católicos como falar da "sucessão de Pedro”, das sandálias do pescador e de outros elementos mistificadores do papado, não ajuda nem a Igreja Católica a se renovar, nem as outras Igrejas a ser solidárias nesse momento de crise.
Nas últimas décadas, as Igrejas históricas e orientais se posicionaram que estariam dispostas a reconhecer o ministério do bispo de Roma como primaz das Igrejas, mas em uma forma de ser mais evangélica e respeitadora das outras confissões. É comum escutarmos certas afirmações de padres e bispos sobre o papado que ignora as outras Igrejas. Aliás, a própria imprensa afirma o que a Igreja pensa sobre isso ou aquilo, como se a Igreja fosse unicamente a Católica Romana e as outras não existissem. Corrigir essa linguagem é um primeiro ato de amor dialogal.
No campo ecumênico, 2002 foi o ano em que as Igrejas orientais perderam quatro patriarcas importantes. Nesse ano, faleceram Shenuda III, patriarca da Igreja Copta, Paulus da Igreja Ortodoxa Etíope, Máximus da Bulgária e Inácio IV de Antioquia. Além disso, Rowan Williams, arcebispo de Cantuária e primaz da Comunhão Anglicana, renunciou. A importância disso para o Ecumenismo é que essas figuras eram dos líderes eclesiásticos que mais colaboravam em criar um clima de diálogo e unidade entre as Igrejas. Além disso, em 2003, ocorrerá a 9ª Assembleia geral do Conselho Mundial de Igrejas (Em Busan, Coréia do Sul, em outubro). Nesse contexto, essa eleição papal poderá ter uma importância grande para as outras Igrejas.
Todo caminho espiritual cristão é resposta ao apelo de Jesus nos evangelhos pela conversão. Sem reconhecer que precisamos mudar de vida e de postura pessoal e comunitária, além de fazermos as devidas criticas institucionais e históricas, não há conversão. Então, pedir mudanças e desejar renovação não é sinônimo de amar menos, mas, ao contrário, é sinal e expressão de mais amor e compromisso.
Nesses dias, teólogos/as, pastores e o próprio papa têm citado o Concílio Vaticano II como referência importante e critério para guiar a Igreja nesse momento. É importante recordar que o Vaticano II foi convocado por João XXIII no contexto de um culto ecumênico e teve como objetivo fundamental a unidade das Igrejas. Muitas pessoas têm desejado que a eleição do papa seja feita não apenas pelo colégio dos cardeais, mas por um eleitorado mais amplo e representativo. É claro que os cardeais, por serem escolhidos por um único homem (o papa) são eleitores que votam por si. Mas, no atual modelo católico, todos os bispos são nomeados por um só homem (o papa). Não creio que seja mais democrático ou mais ecumênico mudar o modelo de eleição. Parece-me que o importante e urgente é mudar a estrutura do papado para que ele volte a ser o que era nos primeiros séculos, ou seja, desde que lá pelo século II ou III, se pode saber que havia mesmo um bispo em Roma. O papa seria o bispo de Roma, patriarca da Igreja Latina e animador da unidade de todas as Igrejas, mas no respeito à autonomia eclesiológica das Igrejas locais e da comunhão das Igrejas (nacionais nas conferências episcopais e locais nas dioceses). Se essa estrutura atual mudar, o papa pode continuar a ser escolhido pelos cardeais que são párocos das Igrejas cardinais de Roma. E nós nos libertaríamos do sensacionalismo dos meios de comunicação que vendem o produto exótico e folclórico que é hoje uma eleição no Vaticano, ritual cinematográfico de películas, tipo "Senhor dos anéis”. A diferença é que no Vaticano essa pompa se diz em nome de Deus e apela para a fé. Até chegam a dizer que tudo isso é inspirado pelo Espírito Santo. Isso me recorda uma palavra do Concílio Vaticano II ao pedir o adjornamento da vida religiosa: "Que sejam renovados e reformados os ritos e costumes, mesmo os que são antigos e veneráveis”.
Quero concluir essa reflexão recordando como se faz a eleição do papa da Igreja Copta no Egito. Primeiramente todas as dioceses mandam representantes para uma comissão de candidatos que chegam a ser 17 monges e bispos. Entre eles, se elegem cinco: dois bispos e três monges. Estes são indicados aos 2.500 eleitores representantes de todas as dioceses e instituições coptas no Egito e na diáspora. Esses elegem três e desses três, um é escolhido por sorteio, como foi a escolha de Matias no colégio apostólico. Esse será o novo patriarca ou papa da Igreja Copta. Todas as fases do discernimento são precedidas e acompanhadas por dias de jejum e oração de toda Igreja(1).
Não comparemos a eleição de Roma com a de uma Igreja que, mesmo com membros espalhados pelo mundo, é de certa forma nacional. E é claro que na base disso tudo é necessária uma nova reflexão sobre a relação entre Igreja local e Igreja Universal. Seja como for, em qualquer eleição, em Roma ou no Cairo, nenhum instrumento jurídico pode garantir a priori que a escolha humana seja de acordo com a vontade divina. Não é uma coisa mecânica ou automática. É importante que toda a Igreja dê verdadeiramente espaço ao Espírito para que, como mãe de ternura, a ventania divina possa agir. É fundamental que eleitores e povo de Deus nos ponhamos todos em atitude de escuta da palavra de Deus para que nossas Igrejas possam ser de fato sinais e instrumentos a serviço da comunhão entre Deus e a humanidade.
Nota:
(1) Descobri esses dados em um artigo de GUIDO DOTTI, monge de Bose, Ecumenismo: figure e segnali del 2012, in Popoli, revista dos jesuítas italianos, número de janeiro 2013, reproduzido na internet.

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