27/02/2013

O fraterno olhar franciscano


   Frei Luiz Turra, OFMcap*

                          "A pessoa que acolhe o olhar de Deus não pode viver na hipocrisia, nem na duplicidade"


     Quando acenamos para o olhar franciscano, de imediato nos reportamos à matriz deste olhar. Sua característica brotou de uma experiência original e singular, cultivada pelo processo de conversão de Francisco. Aos vinte e cinco anos foi acontecendo a transformação do seu olhar, porque ele se deixou olhar pelo Senhor. 

     Ao lado dos caminhos por onde passava havia flores, água, pássaros e animais. Na beira das estradas e lugares sombrios estavam os leprosos. O sol iluminava o dia e aquecia a terra. A lua e as estrelas também brilhavam. A terra e o fogo lhe ofereciam vida e calor. Porém, até que a raiz do olhar não era iluminada, Francisco enxergava, mas não via. A partir do momento em que se deixou iluminar pelo Senhor, começou a ver com o coração. Toda a criação passou a ser um convite de encontro com o Criador.

     A experiência do antes e do depois da conversão foi, para Francisco, uma revolução que não se pode imaginar. São Boaventura, ao escrever sua vida, comenta que Francisco não cessava de purificar seu olhar interior com lágrimas de compaixão. Preferia perder a luz da vista corporal do que reprimir a devoção do espírito que lhe concedeu um novo olhar.

    Olhar de Deus em Francisco não foi uma violência que invadiu a sua intimidade, nem uma presença rival, mas a clarificação do próprio mundo interior. Quando Francisco sentiu-se olhado por Deus, todo o seu ser se iluminou. Começa a ver a vida e tudo o que o cerca com novos olhos. Seu olhar, seu ver e interpretar os outros, os pobres, a fraternidade, os clérigos, os ricos, na natureza com todos os seus seres, refletem sempre a presença total. Daí brota um comportamento de respeito, de cortesia e de serviço.
Como sabemos, o olhar sempre comunica, seja vida, seja morte, ódio ou perdão. 

    Na carta que Francisco escreveu a um ministro, responsável pelos frades, diz claramente: “Que não haja no mundo irmão algum que, tenha pecado a mais não poder, que se afaste de ti depois de ter contemplado teus olhos, sem ter recebido a tua misericórdia, se este a busca” (Carta a um ministro, 9). O olhar fraternal necessariamente precisa ser de perdão e reaproximação.

     O olhar de Deus cria transparência. Por esse motivo a pessoa que acolhe esse olhar não pode viver na hipocrisia, nem na duplicidade. Todo o viver de Francisco, que se tornou proposta ao mundo franciscano, foi uma real experiência de transparência. Neste universo transparente a vida e a convivência se tornam um cenário de simplicidade, alegria e confiança. Trânsito livre, sem receios e temores é o espaço de quem se deixa olhar pelo Senhor e vai mudando a raiz do próprio olhar.

     Um filósofo crítico e inconformado com a vida chegou a um momento em que gritou ao público: “É urgente e necessário que aprendamos a afastar o olhar de si para si para começar a ver muitas coisas, especialmente os outros”. Creio que o olhar franciscano nos ensina exatamente isso: passar de um mesquinho olhar egocêntrico e, a partir do olhar de Deus, ver com justiça a criação e os humanos que refletem a imagem e semelhança do Criador.

*Capuchinho da Província Sagrado Coração de Jesus, do Rio Grande do Sul.

Franciscanos RS

www.franciscanos-rs.org.br/

Correio Riograndense 

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