Hoje nós comungamos do mistério de Deus revelado na sua Palavra. Depois nós vamos comungar do Corpo e Sangue do Senhor, mas na primeira parte da Santa Missa nós comungamos da Palavra. Nós entramos em comunhão com a Palavra de Deus e ela nos faz entrar em comunhão uns com os outros.
A primeira leitura nos fala da fé do patriarca Abraão, que ainda se chamava Abrão, pois somente em Gn 17,5 o Senhor dará a Abrão o nome de Abraão, uma vez que ele se tornará “pai de um povo numeroso”. Deus fez a Abraão uma promessa, a promessa de uma descendência numerosa como as estrelas do céu. Abraão teve “fé” diz o texto e isso lhe foi imputado como justiça. Abraão se tornou justo por causa da sua fé. Sabemos que Abraão morreu sem ver essa prole numerosa, mas mesmo assim ele não deixou de acreditar na promessa que Deus lhe havia feito. Precisamos, como Abrão, crer na promessa de vida eterna que o Senhor tem para nós. Nós, que estamos na vida terrena, ainda não conseguimos apalpar a vida celeste, assim como outrora Abraão também não podia contemplar a sua prole numerosa. Todavia, pela fé, que ´pe justamente a virtude pela qual acreditamos já possuir aquilo que ainda não vemos, é que devemos crer e caminhar com Deus, como fez Abraão.
A quaresma é esse tempo em que, como Abrão, saímos da nossa terra para irmos em direção à terra que Deus tem para nós. A nossa terra, à qual estamos tão acomodados, é em sentido espiritual a terra do pecado, a terra das nossas paixões, da qual estamos escravos sem nem sentir. Dói sair desta terra. Dói deixar os antigos costumes. Mas este é o único caminho para entrarmos na terra onde corre leite e mel, na terra da bênção, na terra da promessa que o Senhor tem reservado para nós. Devemos sair desta nossa terra e irmos em direção à terra que o Senhor nos vai dar confiando tão somente na sua Palavra, como fez Abrão, porque o salmo hoje nos diz: “Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver na terra dos viventes”. O Senhor não nos engana e nem falha nas suas promessas, por isso podemos sem medo sair da nossa terra e irmos em direção à terra que o Senhor prepara para nós.
O Pai deseja que caminhemos rumo à transfiguração que Ele quer realizar na nossa vida. Na transfiguração os apóstolos contemplaram no corpo de Cristo, a glória que Deus tem reservada também para nós. Essa glória nós ainda não a vemos, porque carregamos um corpo de morte, mas sabemos que ela há de ser revelada em nós.
Assim como o Filho se transfigurou diante de Pedro, Tiago e João, o Pai também deseja transfigurar-nos. O coração dessa liturgia da Palavra é este evangelho que acabamos de ouvir. Jesus havia acabado de falar em Lc 9, 22 do mistério da cruz. Em seguida, Jesus apresenta a renúncia a si mesmo como único caminho para quem quiser segui-lo (cf. Lc 9,23-26). Os discípulos devem ter se escandalizado com o que Jesus lhes diz a respeito do sofrimento que o espera, como sabemos pelo texto de Mt 16. Os apóstolos não entendem a linguagem misteriosa da cruz. Os discípulos ficam horrorizados diante de um fim tão atroz que espera o seu mestre. A cruz poderia se tornar para os discípulos um escândalo, ou seja, uma pedra de tropeço. Ao olharem para o crucificado, ao invés de saírem edificados e prontos a anunciar o evangelho, poderiam ficar tão horrorizados com aquela situação de Jesus que, tropeçando na cruz ao invés de serem edificados por ela, poderiam cair de novo nos seus antigos caminhos. Cristo quer afastar do coração dos discípulos o escândalo e o horror da cruz, revelando-lhes a glória que até então estava oculta aos seus olhos. Jesus quer ainda, com a transfiguração, mostrar aos discípulos a sua verdadeira glória. Nós ouvimos no domingo passado o evangelho das tentações de Cristo no deserto. Uma das tentações do Senhor foi a vanglória. O diabo queria convencer o Cristo a buscar uma glória deste mundo, por isso convidou Jesus a se lançar do pináculo do Templo, para que, diante de todos, os anjos de Deus, como nos diz o salmo 90, aparecessem e levassem Jesus nas suas mãos para que Ele não se ferisse. Se Jesus fizesse isso Ele com certeza receberia uma glória humana muito grande, todos ficariam admirados, mas o fato é que a glória dos homens não é nada. Jesus não estava atrás dessa glória, porque Ele possui afinal, a verdadeira glória. Jesus se transfigura para revelar a Pedro, Tiago e João a sua verdadeira glória.
Essa dupla finalidade da transfiguração atinge em cheio a nossa vida espiritual. Nós também nos escandalizamos da cruz de Jesus. Basta que ela se apresente a nós na sua realidade. Quando a cruz é apenas um objeto de adorno e veneração nas nossas igrejas nós gostamos muito dela. Nós nos aproximamos, tocamos, achamos bonito, rezamos diante do crucifixo e até o beijamos na sexta-feira santa. Mas, quando a cruz de Cristo se torna real, quando sentimos os pregos rasgarem a nossa carne, aí nós nos escandalizamos e perguntamos: Porque eu? Porque esse sofrimento para mim que te sou tão fiel? Ora, justamente porque somos fiéis é que devemos experimentar a cruz. Ela está nas nossas igrejas não como enfeite, mas como um memorial, a fim de que nos recordemos sempre que a sorte do Mestre deve ser a sorte dos discípulos: a cruz. Mas, uma cruz que nos conduzirá à glória. Esse é o grande ensinamento de hoje.
O segundo ensinamento recebido hoje é que nós não precisamos mais buscar uma glória vazia. Ao olhar para a glória de Jesus transfigurado nós sabemos que Deus tem uma glória para nós. Nós buscamos incessantemente a glória desse mundo, o aplauso dos homens e isso nos faz tanto mal. Às vezes nos tornamos tão escravos da vanglória que não conseguimos fazer nada que os outros não aprovem. É um sentimento que nos dilacera e que nos deixa completamente vazios. Cristo, que assumiu a forma de servo, que se escondeu dentro de nossa frágil humanidade, que se esconde na Palavra da Escritura, que está oculto sob o véu dos sacramentos, revelou hoje a sua glória para nós, anunciando-nos do alto do Tabor, que não precisamos buscar a nossa própria glória, porque Deus tem reservada para nós a sua glória.
Os discípulos estão tão extasiados com a visão da glória de Cristo que dizem pela boca de Pedro, porque este devia ser o sentimento de todos: “Senhor, é bom estarmos aqui”. É bom para nós, que procuramos uma glória vazia, contemplarmos uma glória que realmente nos preenche, porque fomos feitos para a glória. Uma nuvem os cobre, lembrando-lhes a nuvem gloriosa que enchia a Tenda da Reunião quando Deus falava com Moisés e diz: “Este é o meu Filho,o Eleito. Escutai-o!” Cristo é o Eleito. N’Ele nós também somos um povo eleito. Ele é o servo obediente, “até a morte”, e nós somos chamados a ser também servos obedientes, que sabem escutar a voz do seu Senhor, do seu Mestre. Ouvir o Cristo é o caminho para a glória. Nós o ouvimos na Palavra da Escritura Sagrada; nós o ouvimos na Tradição da Igreja; nós o ouvimos quando os nossos pastores nos conduzem e nos dirigem uma Palavra que nos orienta e guia até o mesmo Cristo; nós o ouvimos quando aceitamos entrar na intimidade do nosso quarto, do quarto do nosso coração, onde, no dizer de Santo Inácio de Antioquia “existe uma água viva e murmurante que me diz: Vem para o Pai!”
A veste de Cristo ficou “muito branca e brihante”. No paralelo de Marcos se ressalta que as vestes de Cristo ficaram brancas de tal forma que nenhuma lavadeira sobre a terra poderia tê-las alvejado. A brancura das vestes de Cristo não era uma brancura terrena, mas uma cor do céu. Cristo apareceu aos discípulos revestido de luz, porque Ele é a luz, nos vai dizer São João, talvez como fruto dessa experiência. Cristo alvejou as nossas vestes no seu sangue. O sangue d’Aquele que é luz alvejou as nossas vestes. A nós cabe agora um esforço para vivermos de acordo com a veste nova recebida. Esse esforço aparece concretamente na quaresma sob a forma do jejum, da oração e da esmola. No domingo passado vimos que o diabo tentou Jesus com a gula, a avareza e a vanglória. Aqui estão as três formas de vencermos as três tentações fundamentais: para nos curar da gula, o jejum; para nos curar da avareza, a esmola; para nos curar da vanglória, a oração. A gula, avareza e a vanglória são tidas por alguns padres do deserto como os três pecados ou pensamentos desordenados principais. Essas seriam as três raízes de todos os demais pecados. Na nossa luta por ganhar a vida nesse mundo somos gulosos, avarentos e buscamos uma falsa glória. É uma tentativa desordenada, um “amor irracional” por nós mesmos que nos leva a autodestruição. A oração, o jejum e a esmola colocam o nosso amor próprio no seu devido lugar, nos ensinando que Deus nos ama mais do que nós mesmos nos amamos e, por isso, aquilo o que ele nos indica como caminho só pode ser infinitamente melhor do que os caminhos que nós mesmos criamos. O caminho de Deus nos conduz a vida. Os nossos caminhos sem Deus nos conduzem à morte. Esse é o nosso caminho quaresmal. Um caminho de cura e purificação que trilhamos na força do Espírito Santo. Um caminho no qual aprendemos o que é amar, imitando a Cristo que nos amou não procurando seu benefício, mas dando-nos a vida. Caminhemos guiados pelo Espírito. Tenhamos em nosso espírito a Palavra do Salmo e creiamos “O Senhor é nossa luz e salvação!” Que iluminados pela luz do Cristo, caminhemos rumo à vida eterna!
Padre Fábio Siqueira
Arquidiocese do Rio
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