11/03/2013

Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, também é cotado para papa


 JOHN ALLEN JR.*, DO NATIONAL CATHOLIC REPORTER (HTTP://NCRONLINE.ORG/



Embora a eleição de um papa seja, sob muitos aspectos, um processo cuidadosamente programado, desta vez o que temos de mais imprevisível é o cardeal Christoph Schönborn, 68 anos, arcebispo de Viena. Dependendo de quem faz os prognósticos, esse dominicano erudito ou é um favorito óbvio, ou é alguém que basicamente colocou a si próprio fora da disputa.
Não há dúvida de que Schönborn tem o pedigree necessário para o posto. Membro da antiga e nobre família austríaca dos Schönborn-Buchheim-Wolfstahl, ele é um dos dois cardeais e 19 bispos, padres e freiras que sua família produziu. Ele nem mesmo é o primeiro dos Schönborn a ser primaz da Áustria; essa honra é de seu tio-avô cardeal Franz Graf Schönborn, que liderou o episcopado austríaco sob o antigo Império Austro-Húngaro, na qualidade de arcebispo de Praga (não sem antes ter sido o bispo de Budweis – o que faz dele, acreditem ou não, um “Budweiser”).
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Schönborn estudou Teologia e teve aulas com o então padre Joseph Ratzinger em Ratisbona (Alemanha), nos anos 70, e depois lecionou na famosa universidade suíça de Friburgo. Ele foi o editor geral do Catecismo da Igreja Católica, lançado em 1992.
Em Viena, ele foi inicialmente bem avaliado por segurar o leme de uma Igreja que tinha sido abalada por um escândalo de abuso sexual envolvendo seu predecessor. Mas, à medida que o tempo passava, a imagem de Schönborn foi mudando. Ele se envolveu em uma briga feia com o bispo de Sankt Pölten, Kurt Krenn, um demagogo sem papas na língua cujo discurso muitos preferiam, em vez dos comentários evasivos de Schönborn. Depois disso, o arcebispo promoveu uma faxina em sua equipe, chegando a avisar o popular vigário-geral, por meio de um bilhete deixado em sua porta, que ele estava demitido.
Mais recentemente, Schönborn assistiu a centenas de seus próprios padres assumirem uma postura de rebelião aberta; eles publicaram um “chamado à desobediência” em temas como o celibato e o papel da mulher na Igreja (o movimento era liderado pelo antigo vigário que ele demitiu). Se por um lado Schönborn não viu a revolta com bons olhos, por outro ele não cortou totalmente as linhas de diálogo, o que alguns veem como uma sensibilidade pastoral admirável e outros veem como covardia.
Dois anos atrás, muitos vaticanistas estavam prontos para escrever o obituário das pretensões papais de Schönborn depois de uma desavença pública com o cardeal Angelo Sodano, um ex-secretário de Estado e, ainda hoje, decano do Colégio dos Cardeais. À medida que os escândalos de abuso sexual estouravam pela Europa, chegando a colocar em dúvida a própria trajetória pessoal do papa Bento XVI, Sodano causou furor ao chamar as críticas de “fofoca” durante uma missa de Páscoa no Vaticano. Pouco depois, em uma conversa com jornalistas austríacos, Schönborn não apenas disse que Sodano tinha enganado as vítimas de abuso, como também acusou o cardeal italiano de bloquear uma investigação sobre o predecessor de Schönborn, o cardeal Hans Gröer, que tinha sido acusado de molestar seminaristas e monges (Gröer renunciou em 1995). Schönborn disse que o então cardeal Ratzinger queria agir, mas perdeu uma batalha interna contra Sodano. Schönborn aparentemente achou que as declarações morreriam ali, mas o conteúdo vazou.
O austríaco foi convocado para uma conversa com Bento XVI, e pouco depois tanto Sodano quando o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, se juntaram à reunião. Quando ela terminou, o Vaticano emitiu um comunicado que foi visto como uma reprimenda a Schönborn – entre outras coisas, lembrando-lhe que não é da sua conta fazer julgamentos sobre um colega cardeal. Mas, hoje, a disposição de Schönborn em desafiar a hierarquia e falar abertamente em favor da reforma nos casos de abuso conta mais em seu favor que contra.
Schönborn também se redimiu durante o último Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização, em que muitos participantes o elogiaram, classificando-o entre as duas ou três figuras mais impressionantes do evento. Membros do Sínodo ficaram especialmente animados com sua sugestão de que o Sínodo fosse menos sobre discursos idealistas e mais sobre bispos dividindo seus problemas práticos.
A defesa de Schönborn é fácil de fazer.
Primeiro, o seu porte intelectual. Schönborn é um poliglota e fica à vontade discutindo temas complexos em vários idiomas; é um acadêmico completo. Durante o Sínodo no ano passado, perguntei a outro cardeal o que havia em Schönborn que trazia as pessoas para junto dele, e a resposta foi simples: “inteligência atrai”.
Segundo, Schönborn é um “protegido intelectual” de Bento XVI, tanto que ao longo dos anos ele foi quase visto como o “filho querido” do papa. Mas ele também tem um forte senso pastoral e uma capacidade de perceber as nuances. Por exemplo, Schönborn já deixou a entender que ele estaria aberto a considerar a possibilidade de um clero casado; e, dada sua reação à revolta dos padres na Áustria, é altamente improvável que, como papa, saísse cortando cabeças como resposta inicial a qualquer tipo de desentendimento.
Terceiro, justamente por ter enfrentado o tumulto na Áustria, é possível acreditar que nenhuma outra autoridade no catolicismo conhece melhor que Schönborn as exigências do gerenciamento de crises. Especialmente em uma época na qual o Vaticano está novamente imerso em problemas, essa poderia ser uma característica importante na avaliação dos outros cardeais.
Quarto, Schönborn é um apóstolo do que agora se chama de “nova evangelização”, ou seja, o esforço de reacender o ardor missionário no coração do Ocidente secularizado – e ele batia nessa tecla muito antes de o termo virar moda. Ele escreveu muito sobre o tema, e encorajou o crescimento, nas bases da Igreja, de uma série de movimentos de caráter missionário e espiritual, boa parte deles com apelo também entre o público jovem.
Quinto, Schönborn se sente muito à vontade com a imprensa e já está acostumado aos holofotes, o que certamente ajuda quem quer que ocupe o posto de liderança religiosa mais visível e exigente do planeta.
Os argumentos contra Schönborn, no entanto, são igualmente fortes.
Primeiro, alguns cardeais podem observar a guerra fratricida no catolicismo austríaco e pensar: “esse cara teve 18 anos para botar ordem na casa e isso não aconteceu. Por que acreditaríamos que ele faria melhor como papa?” Independentemente de essa ser uma avaliação justa ou não, ela pode passar pela cabeça de alguns cardeais.
Segundo, a desavença com Sodano pode tê-lo ajudado aos olhos da opinião pública, mas dentro do Colégio dos Cardeais a coisa pode ser diferente. Não só Sodano ainda é o decano do Colégio e uma figura influente, mas também outros cardeais podem se perguntar se Schönborn estaria disposto a defenestrá-los caso seus santos não batam.
Terceiro, Schönborn certamente é uma figura conhecida no Vaticano, mas nunca trabalhou na Cúria. Para cardeais que buscam alguém que possa promover uma reforma profunda na burocracia vaticana, Schönborn pode ser uma incógnita.
Quarto, apesar da habilidade de Schönborn, ele às vezes demonstra uma tendência a dizer ou fazer coisas que não caem muito bem. Em 2001, por exemplo, Schönborn interveio em favor do padre Joseph Fessio, em um esforço para conseguir do Vaticano mais autonomia para o Instituto Inaciano (comandado por Fessio) da Universidade de San Francisco, na prática tornando-a imune à autoridade do reitor da universidade. A ação irritou não apenas os jesuítas que administravam a faculdade como também o então arcebispo de San Francisco, William Levada, que já estava negociando com todas as partes para resolver o problema. O responsável pelas universidades católicas no Vaticano também não gostou da intervenção de Schönborn, vista como uma tentativa de contornar sua autoridade.
Mais recentemente, Schönborn fez declarações públicas críticas à Teoria da Evolução, aparentemente endossando a tese do Design Inteligente, que críticos classificam como criacionismo disfarçado. Depois de um artigo explosivo sobre o tema no New York Times, em 2005, Schönborn foi forçado a esclarecer sua opinião sobre o assunto (ele diz não se opor à evolução como teoria científica, mas contra o seu uso como posição filosófica que exclui a possibilidade da existência de Deus). Diante de um arcebispo com um histórico de controvérsias, retratações e desmentidos, alguns cardeais podem se perguntar se é disso que o Vaticano precisa agora.
Quinto, Schönborn seria o segundo papa germânico seguido, e há quem pense que seria melhor procurar alguém em outras partes do mundo.
Dadas as reações diametralmente opostas que Schönborn costuma provocar, é muito difícil estimar suas chances de eleição. Num mundo pós-11 de fevereiro, no entanto, em que Bento XVI, ao renunciar, fez o que muitos viam como impensável, é melhor não ser excessivamente dogmático sobre nada – e isso inclui as chances do austríaco no conclave.
Tradução: Marcio Antonio Campos
John Allen Jr. é um dos mais experientes vaticanistas da atualidade. Jornalista do site norte-americano National Catholic Reporter (http://ncronline.org/), ele também colabora com o canal de televisão CNN e com a National Public Radio norte-americana. Allen é autor de vários livros sobre a Igreja Católica, incluindo duas biografias de Bento XVI, uma delas escrita quando Joseph Ratzinger ainda era cardeal. Duas de suas obras foram traduzidas para o português: Opus Dei, mitos e realidade, de 2005, e Conclave, de 2002, em que ele descreve os rituais que envolvem a sucessão do papa e apontava vários favoritos para assumir o posto após a morte de João Paulo II.

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