Plínio Bortolotti*
Quando a redação passou a ser
obrigatória nos vestibulares, fui um dos que saudaram a medida como muito
positiva. Pensava, ingenuamente, que os professores passariam a tomar o ato de
escrever como oportunidade para provocar a criatividade dos estudantes. Ledo
engano.
As escolas, particulares à frente,
passaram a treinar os alunos usando uma “fórmula” de escrever dissertações,
visando unicamente à “boa nota” na prova. Haveria de ser um texto mediano, de
modo a agradar a média dos encarregados da correção. Por óbvio, o engessamento
é inimigo da criatividade - e o método (equivocado), em vez de ajudar o
estudante a escrever melhor, tende a torná-lo um escritor medíocre, se tanto. O
mesmo “esquema” vem sendo aplicado para orientar os candidatos do Enem.
Vi algumas aulas no Youtube, de
famosos cursinhos preparatórios. O negócio chega a tal ponto que a “redação”
fica parecida com aqueles formulários em que o “autor” precisa apenas preencher
os espaços pontilhados, variando de acordo com o assunto pedido.
Tomo o assunto agora aproveitando
matérias publicadas em portais da internet mostrando redações, que obtiveram
boas notas, com inserção de trechos de hino de um time de futebol (500 em 1.000
pontos possíveis) ou receita para cozinhar macarrão instantâneo (560); algumas
outras, com erros gramaticais, conseguiram nota máxima. (Quanto a este caso, é
preciso lembrar que erros de grafia não indicam, necessariamente, falta de
domínio da língua.)
O fato é que, além da subjetividade
de cada corretor, a carga de trabalho que se põe sobre eles dificulta um
trabalho acurado. Leve-se ainda em conta que, na grande maioria dos casos, quem
vai bem na prova “objetiva” tende a tirar boa nota na redação.
Posto isso, a meu ver, dever-se-ia
suprimir a redação das provas do Enem. Quem sabe assim, as escolas poderiam
ajudar o estudante a desenvolver o gosto pela leitura e pela escrita, deixando
as fórmulas para a Física e para a Matemática.
Plínio
Bortolotti - plinio@opovo.com.br
Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO

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