O modernismo brasileiro, das raízes aos continuadores na arte contemporânea, é tema da exposição "Trajetórias: Arte brasileira na coleção Fundação Edson Queiroz", que abre, hoje, no Espaço Cultural Unifor.
A mostra marca os 40 anos de criação da Universidade de Fortaleza. A coletiva reúne 252 obras e uma série de videoinstalações de importantes artistas brasileiros. O olhar é amplo e contempla as variadas escolas e estilos que fizeram a histórica recente das artes no País.
Uma visão abrangente da arte moderna brasileira
Nova mostra do acervo da Fundação Edson Queiroz reúne grandes nomes da arte do País, desde fins do século XIX
Para comemorar o 40º aniversário de fundação da Universidade de Fortaleza, o Espaço Cultural Unifor abre, hoje, a exposição "Trajetórias - Arte brasileira na Coleção Fundação Edson Queiroz". Ao todo, 252 peças que integram o acervo da Fundação Edson Queiroz compõem a mostra. Candido Portinari, Anita Malfatti, Burle Marx, Di Cavalcanti, Samson Flexor, Lasar Segall, Alfredo Volpi e Antonio Bandeira são alguns dos grandes nomes presentes na coleção e na coletiva, que será registrada em catálogo comemorativo.
A curadoria é de Paulo Herkenhoff, um dos principais críticos de arte e curadores do Brasil, que já trabalhou em instituições como o Museu de Arte Moderna de Nova York e o Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro), além de ter estado à frente da mais marcante edição da história recente da Bienal de São Paulo, em 1998, dedicada à antropofagia, um dos temas caros ao modernismo brasileiro. O projeto também conta o trabalho do curador-adjunto Marcelo Campos, professor da UERJ.
Além de celebrar a data, "Trajetórias" constitui uma grande oportunidade para reflexão sobre o significado da Unifor e seu espaço expositivo. A Fundação Edson Queiroz construiu um acervo de arte brasileira do século XX como poucas instituições no Brasil fora do eixo Rio-São Paulo, cujo valor ultrapassa a qualidade intrínseca das obras, ao residir também no significados articulado entre elas. Nesse sentido, o chanceler Airton Queiroz compreende que coleções públicas de arte promovem a conversão do capital financeiro em capital simbólico, fato que a Unifor eleva exemplarmente à esfera pública.

Acervo da Fundação Edson Queiroz contempla as mais variadas vertentes da arte brasileira
Leituras
A exposição e o catálogo foram desenvolvidos a partir de um conceito que permite leituras, historiográficas e transversais inovadoras, da trajetória da arte brasileira, fora da perspectiva habitual dos manuais didáticos. Isso transforma a mostra em uma contribuição para o debate em torno da produção artística nacional.
O conjunto apresenta-se como uma espécie de constelação de exposições autônomas, organizadas sob perspectivas menos comuns, para além da divisão histórica entre escolas e correntes artísticas (embora esse critério também seja observado). São 16 núcleos temáticos e cada um deles é objeto de um texto dos curadores que apresenta suas principais questões estéticas.
"Quando falamos de ´Trajetórias´, indicamos que a arte brasileira é múltipla, com muitos caminhos transversais. A coleção percebeu e abrigou essas trajetórias e nós buscamos torná-las coesas e visíveis ao público, a partir da maneira de organizar a exposição", explica Herkenhoff.
"Claramente, percebe-se o olhar regente do chanceler Airton Queiroz na construção desse museu, um projeto que constitui percursos da arte brasileira, com nomes fundamentais e obras de alta qualidade, muito significativas", complementa o curador.
No núcleo "O Moderno antes do modernismo (travessia entre séculos)", por exemplo, estão reunidas obras de artistas considerados precursores dos modernistas no Brasil, como Eliseu Visconti, Nicolau Antonio Facchinetti e Antonio Parreiras. Eles se dividiam entre um "olhar estrangeiro", com influências europeias, e a "invenção de uma pátria republicana", pós-independência. Nesse sentido, havia um esforço em constituir uma arte "com referências históricas alheias ao caráter religioso vigente nos séculos anteriores".
"No Brasil, o modernismo abafou o que havia de moderno antes dele, e é preciso restaurar nossa história. Visconti, por exemplo, foi um artista radicalmente moderno, e a Unifor o apresenta com grande categoria", sublinha Herkenhoff. "Embora o modernismo já esteja assentado na história, ainda há muito a ser redescoberto e rediscutido, como esse aspecto dos artistas antecessores", complementa.
Na mesma sala encontram-se núcleos divididos por temas, com obras de diferentes artistas e períodos - "Crianças" (com retratos), "Cidades", "Natureza" (com paisagens e temas que remetem a esses dois universos) e "Fantasmática" (em que a representação da figura humana é mais abstrata ou estilizada). "É uma ideia importante para as artes plásticas, porque a figura humana vai se transformando, por vários motivos, entre eles a busca pela abstração", esclarece o curador adjunto Marcelo Campos. "Nas obras reunidas nesse núcleo percebe-se que a relação figurativa vai ficando mais etérea, mais espiritual - no sentido filosófico da palavra", detalha.
Merecem destaque ainda alguns nomes do acervo como Volpi (cuja relevância resultou em um núcleo só para o artista), Candido Portinari (a amplitude de sua obra faz o pintor aparecer em mais de um núcleo) e Samson Flexor (um dos primeiros professores de pintura geométrica no Brasil), além do núcleo "A invenção do Ceará", com protagonistas da história artística do Estado, desde Chico da Silva, Heloísa Juaçaba, Aldemir Martins e Raimundo Cela até o fotógrafo Chico Albuquerque.
No espaço dedicado ao Ceará, Herkenhoff explica que a intenção foi apresentar a construção do "projeto de um Ceará moderno, que se antecipa em algumas questões em relação a outros Estados e como parte desse processo singular de constituição da modernidade no Brasil".
O interesse pela produção local em breve deve levar a outra ação importante por parte da instituição. "A pedido do Chanceler, a edição 2013 da Unifor Plástica será dedicada à arte contemporânea do Ceará, o que, de certa forma, complementa esse núcleo em ´Trajetórias´ e dá visibilidade à produção contemporânea daqui", adianta Herkenhoff.
No caso do ítalo-brasileiro Volpi, a ênfase deve-se tanto pela importância de sua obra quanto pela relevância do conjunto reunido na coleção da Fundação - segundo Herkenhoff, não apenas pela quantidade de trabalhos, mas pela visão "muito especial" que ele apresenta da trajetória de Volpi. "Só o Museu da USP tem algo semelhante", destaca.
Na exposição, aparecem 28 quadros do pintor. "Importante notar que ele faz essa ponte entre o modernismo do período da Semana de 22 e o abstracionismo da década de 1950", ressalta o curador adjunto Marcelo Campos.
Amanhã, 22, às 9 horas, no auditório da Biblioteca, Herkenhoff ministrará palestra aos alunos da Unifor e demais interessados sobre o trabalho de preparação da exposição. Serão abordados os recortes curatoriais e as obras de destaque do acervo, entre outros aspectos. Logo após, haverá uma visita guiada com o curador.
Reconhecimento
O período de trabalho com o acervo da Fundação Edson Queiroz levou Herkenhoff a apontá-lo como um dos melhores do Brasil, por conta da abrangência em termos de modernidade e da arte do século XX, com obras primas que raramente se veem em museus do sul. "O conjunto de Visconti, por exemplo, é excepcional. Da mesma forma, o conjunto de obras de Segall só é superado pelo próprio Museu Lasar Segall", avalia o curador.

Obra de Lasar Segall Foto: Kid Júnior
"É uma coleção feita com muita atenção à historiografia e qualidade seletiva. E impressiona o fato de o prédio não comportar a coleção em sua dimensão total. Isso torna a Unifor uma Universidade privilegiada no Brasil, no tocante à presença de um acervo artístico vinculado à educação", complementa o curador.
O catálogo, de 248 páginas e capa dura, além de trazer as obras da atual exposição, registra a trajetória bem-sucedida da Unifor no campo da educação superior e da realização de eventos artísticos diversos, cumprindo uma função historiográfica e documental, além, claro, de comemorativa.
A publicação tem um texto de apresentação do Chanceler da Unifor, Airton Queiroz, e a introdução geral à coleção da Fundação Edson Queiroz, sua trajetória e significado para a compreensão da história da arte brasileira, assinada por Herkenhoff.
Cada núcleo da exposição compõe um capítulo do catálogo, com textos do curador adjunto Marcelo Campos. O design é da editora Thomass Mann & Company e a coordenação editorial, de Maria Clara Rodrigues.
Mais informações:
Exposição "Trajetórias - Arte brasileira na coleção Fundação Edson Queiroz", no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321). Abertura às 20 horas. Aberto à visitação de 22 de março a 8 de dezembro, de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, sábados e domingos, das 10h às 18h
Diário do Nordeste

Nenhum comentário :
Postar um comentário