Francisco estoura a bolha de futilidade e indiferença na qual a humanidade está fechada

Papa beija criança: gosto pelo contato com a humanidade
Por Enrico Fierro*
Como humilde peregrino, Francisco estoura a bolha de sabão na qual a humanidade está fechada, "a ilusão do fútil, do provisório", que leva à "globalização da indiferença" falando ao mundo inteiro. E o faz aqui, nesta ilha que se chama Lampedusa. Terra de turismo, de belos corpos bronzeados e diversões. Sol, mar límpido, boa comida, amor. Mas também extremo confim da Europa, onde os corpos de outros homens, mulheres e crianças (quantos são? Quem conseguirá contá-los? Vinte mil? Poucos... são mais) se perderam no mar, para sempre.
"Eu tenho um espinho no coração", confessa o Papa Francisco, que sabe dos corpos mutilados recuperados nas redes dos pescadores, viu as imagens desses párias que partem da África agarrados nas gaiolas para disputar um espaço com os atuns. O seu padre de mar, Pe. Stefano Nastasi, lhe falou das vítimas sepultadas no cemitério na ponta da ilha. Caixões de madeira todos iguais, que não tem um nome impresso sobre eles, homens que se tornaram números. A extrema ofensa.
"Eu tenho um espinho no coração", diz o Santo Padre, que tem diante de si toda a ilha. Lampedusa é um corpo único, uma só voz, uma história em si de sentimentos corais, de gratidão e afeto pelo homem que veio da Argentina, pelo filho de migrantes italianos que buscaram a sua sorte do outro lado dos Andes.
Escravos fugidos
Às suas costas, posta na parte superior da multidão, uma Nossa Senhora muito particular. A Nossa Senhora de Porto Salvo. Ela foi esculpida no Chipre em 730. Os Cavaleiros Templários tinham que levá-la para Pisa, mas o seu navio naufragou na costa de Lampedusa, e a Nossa Senhora ficou aqui para sempre. Eles a colocaram em uma igrejinha "que os bárbaros também costumam venerar.
Cristãos e turcos depõem ali víveres para servir aos náufragos e aos escravos fugidos", anotaram os viajantes do tempo. São os homens que fugiram da África, os modernos "escravos fugidos", que, no dia da visita do papa também desembarcaram em Lampedusa em busca de esperança. São uma centena, todos jovens, vêm da Eritreia, da Somália e da Palestina, querem se salvar de guerras e fome, navegaram por vários dias e estão esgotados, vencidos pelo medo e pelo frio.
O papa não os vê, eles são levados rapidamente para o Centro de Acolhida e detidos lá. Os ônibus que os transferem atravessam o espaço de onde Francisco vai falar sobre o seu espinho no coração. Milhares de homens, mulheres e crianças o veem, sentados com o chapéu amarelo na cabeça, seus olhos se fixam naquele barco transformado em altar e não entendem.
Alguém lhes diz que hoje é um dia histórico, que o papa vai vir. E eles esperam. "Eu senti que eu tinha que vir aqui – o Santo Padre repete várias vezes, quase justificando uma decisão que fez torcer o nariz a tantas burocracias políticas e diplomáticas – para rezar, mas também para despertar as consciências". Esses corações "anestesiados" pela ilusão do bem-estar.
"Eu não podia fingir que não acontece nada – diria a prefeita de Lampedusa, Giusi Nicolini – porque no fundo do mar há 20 mil mortes". O papa recebe de presente um livro de fotos que documenta os anos da tragédia, os 200 mil desesperados que, desde 1998, desembarcaram nessa rocha no meio do Mediterrâneo.
Amante da ternura
No cais, onde chegou depois de jogar uma coroa de flores no mar, ele encontrou alguns deles. Samir o faz sorrir, porque veste uma camiseta branca com o rosto de Che. Ernesto Guevara de la Serna, argentino como Francisco e, a seu modo, como ele se entende, amante da "ternura".
"Santo Padre – diz-lhe um jovem eritreu de religião católica –, nos ajude, fugimos dos nossos países por causa da fome, das guerras". O papa segura a sua mão e a aperta forte quando o jovem lhe fala da viagem da Líbia às costas tunisianas, dos "obstáculos superados", dos "traficantes que nos exploraram".
São imagens e palavras que o Papa Francisco grava no coração e que o levam, no discurso pronunciado do altar, a lançar o seu grito contra a indiferença. Fá-lo com a voz menos severa do que o alerta lançado há 20 anos por João Paulo II, no Vale dos Templos, em Agrigento, contra a máfia. O tom é doce, as palavras quase sussurradas, é como uma imploração ao mundo político.
"Que o que aconteceu não se repita mais. Que não se repita mais. Por favor". "Quem é responsável pelo sangue destes irmãos e irmãs? Ninguém! Todos nós respondemos: não sou eu... Perdemos o senso da responsabilidade fraterna, olhamos para o irmão meio morto na beira da estrada, talvez pensamos ´pobrezinho´ e continuamos o nosso caminho". Quem chorou, pergunta-se ainda, "pela morte destes irmãos? Pelas jovens mães? Somos uma sociedade que não é mais capaz de chorar".
E então Francisco também pede perdão por "aqueles que, com as suas decisões em nível mundial, criaram situações que levam a esses dramas".
"Francisco, um de nós", lê-se em uma faixa. E é assim, porque logo o papa quebra todos os protocolos, mesmo aqueles muito rígidos impostos pela segurança. Ele quer, busca, gosta do contato físico com essa humanidade. No mar, a lancha da Guarda Costeira que o hospeda é imediatamente cercada por cerca de 50 barcos pesqueiros. Os pescadores o saúdam e tocam suas sirenes.
*A reportagem é de Enrico Fierro, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Dom Total
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