Portada é o que restou da igreja barroca demolida em 1970 por ordem do então pároco, padre Jacinto Lovato. Construída em 1774, ela integrava o Conjunto Arquitetônico e Urbanístico de São João Del-Rei.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) irá analisar as propostas colhidas durante a reunião pública realizada pelo Ministério Público Federal (MPF), no último dia 2 de abril, em que se discutiu os locais para instalação ou acolhimento da portada da antiga Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei/MG.
Essa portada é o que restou da igreja barroca demolida em 1970 por ordem do então pároco, padre Jacinto Lovato. Construída em 1774, ela integrava o Conjunto Arquitetônico e Urbanístico da cidade de São João Del-Rei, tendo sido tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) por constituir importante exemplar da arquitetura produzida no século XVIII em Minas Gerais.
Os materiais resultantes da demolição – madeiras, ornatos de pedra, arco do cruzeiro, retábulo e a portada em pedrão sabão – foram vendidos. A portada, especificamente, foi adquirida por um empresário paulista, que a instalou em fazenda de sua propriedade no interior de São Paulo, onde foi localizada no ano de 2003.
Após a localização, os Ministérios Públicos Federal e Estadual ingressaram em juízo com a Ação Civil Pública nº 2009.38.15.000812-0 pleiteando o reconhecimento de que a portada pertenceria ao acervo tombado de São João del-Rei, de onde nunca deveria ter saído.
Durante o andamento da ação, foi celebrado acordo judicial em que os então proprietários concordaram com a devolução do bem ao patrimônio cultural da cidade de São João del-Rei. Em julho de 2012, a Justiça Federal homologou o acordo, determinando o retorno da portada, o que acabou gerando uma discussão sobre o local onde ela deverá ser instalada, já que a igreja de onde foi retirada não existe mais.
Propostas - Com a presença do prefeito municipal, Helvécio Luiz Reis, e de outros políticos, cidadãos, estudiosos e representantes de diversas entidades voltadas à preservação do patrimônio cultural, a reunião realizada na semana passada contou com a apresentação de duas sugestões arquitetônicas para instalação da portada, uma de autoria da professora do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Artes Aplicadas da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Luzia dos Santos Abreu; a outra, proposta pela arquiteta Eneida Ferraz.
Luzia Abreu sugeriu colocar a portada no mesmo local de onde foi retirada: um terreno que está situado exatamente ao lado da igreja construída para substituir a antiga. Pela proposta, as ruínas da fundação do bem demolido seriam objeto de escavação arqueológica e consolidação, para que, em conjunto com a portada, possam vir a constituir um Memorial com o histórico e contextualização do monumento.
A UFSJ, representada pelo chefe do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, Mateus de Carvalho Martins, colocou-se à disposição para o desenvolvimento do projeto, através de seus especialistas em ruínas, caso essa proposta seja a escolhida.
A outra sugestão, feita pela arquiteta Eneida Ferraz, foi a de se instalar a portada em frente à nova igreja, com um canhão de luz apontado para ela, de maneira que lance sua sombra nas paredes da edificação atual. Segundo ela, com isso, estar-se-á “fazendo referência do monumento antigo sobre o novo”.
A ideia de colocar a portada no mesmo local de onde ela foi retirada, ao invés de levá-la, por exemplo, para um museu, foi a opção preferida pela maioria dos presentes à reunião.
Entre eles, estava o antigo coroinha da igreja demolida, Nelson Abreu. Além de se manifestar pela reintegração da portada ao bairro de Matosinhos, ele lembrou que outros bens culturais da cidade encontram-se abandonados e em precário estado de conservação, citando a Estação Ferroviária Chagas Dória.
De acordo com a procuradora da República Ludmila Junqueira Duarte Oliveira, “a oportunidade de reunir a população e especialistas foi de extrema importância, porque a portada, mais do que um bem material, traz reminiscências emocionais e um significado subjetivo para a população, que também integram o seu valor cultural. Como se trata de bem objeto de tombamento federal, o próximo passo, a partir de agora, será submeter as propostas ao Iphan para análise de sua viabilidade técnica”.
MPFMG
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