30/07/2014

Mudar o horário do metrô só atende a Globo

Metrô de São Paulo vai funcionar até 0h30 nos dias de jogos que começam às 22h, depois da novela "Império".
Cristina, em cena da novela "Império" que termina às 22h na Globo.
Por Kiko Nogueira

A decisão de manter o metrô funcionando até mais tarde em dias de jogo no Itaquerão não é boa para o torcedor, não é boa para o esporte, não é boa para os funcionários, não faz sentido.

Ou melhor, faz sentido para quem manda no futebol e, em certa medida, na cidade: a Globo e, em sua cola, os dirigentes e quem tem medo ou se beneficia do conluio.

A resolução foi tomada numa reunião entre o presidente e o ex-presidente do Corinthians (para que os dois?) e secretários de Geraldo Alckmin. Partidas continuarão acontecendo às 10 da noite, para coincidir com o fim da novela “Império”. A CPTM passará a operar até meia-noite e meia, ao invés de 0h19. Isso vale também para o Pacaembu, o Palestra Itália, o Morumbi e o Canindé.

(Na quarta passada, corintianos que ficaram até o fim da partida perderam o trem. Os que saíram antes não viram o gol de Renato Augusto contra o Bahia.)

A suposta rapidez com que o problema foi resolvido significa, na verdade, que as coisas já estavam bem encaminhadas. Foi-se uma chance de, se não acabar com uma aberração, ao menos colocá-la em discussão de maneira transparente.

Não há problema no metrô funcionar até mais tarde em determinados dias da semana. O de Paris, por exemplo, vai até as 2h15 às sextas e sábados. A questão é o motivo. O transporte público de uma cidade como São Paulo ficou de joelhos diante de uma grade de programação televisiva.

Altino Prazeres, presidente do sindicato dos metroviários, declarou à ESPN que o atendimento será prejudicado. “Além de torcedores, eles são trabalhadores. Mesmo com o metrô aberto, eles demoram para chegar em suas casas e ainda têm de ir ao trabalho no dia seguinte. Por que não se muda o horário do jogo? É uma decisão que só atende à TV Globo”, afirmou.

Altino viu o óbvio: “O que me deixa inconformado é que tem uma decisão muito mais fácil nesse caso, que é a de mudar o horário do jogo. O cara que vai de carro para lá tem de voltar para a casa de madrugada, se arriscando, por causa de uma TV”.

Como no “Leopardo”, algo deve mudar para tudo continuar como está. O estádios vazios são apenas a parte mais feia e visível da história.
DCM
Kiko Nogueira é diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

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