02/11/2014

Na morte, estamos nas mãos de Deus

Na liturgia cristã pelos defuntos, não há desolação, rebelião ou desespero.
Os seguidores de Jesus creem em Cristo ressuscitado.
Por José Antonio Pagola*

Os homens de hoje não sabem o que fazer com a morte. Por vezes, o único que se nos ocorre é ignorá-la e não falar dela. Esquecer quanto antes esse triste acontecimento, cumprir os trâmites religiosos ou civis necessários e voltar de novo à nossa vida quotidiana.

Mas mais tarde ou mais cedo, a morte vai visitando as nossas casas, arrancando-nos os nossos seres mais queridos. Como reagir então ante essa morte que nos arrebata para sempre a nossa mãe? Que atitude adotar ante o esposo querido que nos diz o seu último adeus? Que fazer ante o vazio que vão deixando na nossa vida tantos amigos e amigas?

A morte é uma porta que é atravessada por cada pessoa solitariamente. Uma vez fechada a porta, o morto nos é oculto para sempre. Não sabemos que terá sido dele. Esse ser tão querido e próximo perde-se agora no mistério insondável de Deus. Como relacionar-nos com ele?

Os seguidores de Jesus não se limitam a assistir passivamente ao acontecimento da morte. Confiando em Cristo ressuscitado, acompanhamos com amor e com a nossa oração nesse misterioso encontro com Deus. Na liturgia cristã pelos defuntos, não há desolação, rebelião ou desespero. No seu centro, apenas uma oração de confiança: "Nas Tuas mãos, Pai de bondade, confiamos a vida do nosso ser querido".

Que sentido pode ter hoje entre nós esses funerais em que se reúnem pessoas de diferente sensibilidade ante o mistério da morte? Que podemos fazer juntos: crentes, menos crentes, pouco crentes e também descrentes?    

Ao longo destes anos, temos mudado muito por dentro. Fizemo-nos mais críticos, mas também mais frágeis e vulneráveis; somos mais incrédulos, mas também mais inseguros. Não nos é fácil acreditar, mas é difícil não acreditar. Vivemos cheios de dúvidas e incertezas, mas não sabemos encontrar uma esperança.

Por vezes, costumo convidar a quem assiste a um funeral para fazer algo que todos podemos fazer, cada um desde a sua pequena fé. Dizer desde dentro ao nosso ser querido umas palavras que expressem o nosso amor a ele e a nossa invocação humilde a Deus:

"Continuamos a querer-te, mas já não sabemos como encontrar-nos contigo nem que fazer por ti. A nossa fé é débil e não sabemos rezar bem. Mas confiamos-te ao amor de Deus, deixamos-te nas Suas mãos. Esse amor de Deus é hoje para ti um lugar mais seguro que tudo o que nós te podemos oferecer. Desfruta da vida plena. Deus quer a ti como nós não fomos capazes de te querer. Um dia voltaremos a nos ver".
Instituto Hunitas Unisinos, 31-10-2014.
*José Antonio Pagola é teólogo. O texto é baseado no Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 5, 33-39.16,1-6, em comentário à celebração do Dia de Finados.

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