Se estivesse vivo, Dom Helder Câmara completaria neste dia 07 de
fevereiro, 103 anos de idade. Dom Hélder marcou a região metropolitana do
Recife, nos anos em que foi nosso arcebispo. Esteve à frente do rebanho em
momentos sociais muito tensos e difíceis, como foi o tempo da ditadura militar.
O Brasil e o mundo conheceram um Dom Hélder porta-voz dos injustiçados e dos
empobrecidos. Um homem lúcido, profeta segundo o evangelho, dono de palavras
fortes e contundentes. Mas nós conhecemos mais do que esse profeta respeitado
no exterior e temido, em seu país, por suas posições em favor de um mundo
fraterno e solidário e de uma igreja pobre e servidora. Conhecemos um Dom
Hélder respeitoso das pessoas e cheio de amor para com os sofredores. Um homem
simples e ao alcance das pessoas de qualquer classe social.
Com toda certeza, uma das obras mais significativas de Dom Hélder
foi o Encontro de Irmãos. O Movimento de Evangelização Encontro de Irmãos
nasceu da confiança do Dom no povo pobre da periferia. Ele acreditou no povo
sofredor dos bairros populares e o convocou para a grande tarefa da
evangelização. Começou no rádio, dando dicas sobre o trabalho com a Bíblia.
Passou a reunir as lideranças que foram surgindo. O povo pegou a Bíblia nas
mãos e foi à luta. Formaram-se grupos que passaram a ler e estudar a Bíblia
semanalmente. A meditação dos textos sagrados animou a participação das pessoas
nas lutas dos bairros, reforçou a presença dos cristãos nas associações de
moradores, formou gerações de cristãos de fé e de compromisso. E continua
formando, porque o Encontro de Irmãos continua vivo e atuante, graças a Deus.
É o Dom Hélder do qual hoje nos lembramos. Um homem do povo. Um
homem de Deus. Como ele falava de Deus... havia tanto amor nas suas palavras,
quando se referia ao Criador e Pai.... havia tanta emoção nas palavras da
consagração que o vimos muitas vezes chorando ao celebrar a Missa. E sempre
repetia com toda convicção que o verdadeiro celebrante da Missa é Nosso Senhor
Jesus Cristo.
Não há quem não se lembre com afeto da figura de Dom Hélder: a
simplicidade de vida que ele abraçou, morando na sacristia da Igreja das
Fronteiras; como ia a pé para a Cúria na rua do Giriquiti, mesmo sob ameaça de
forças paramilitares ligados ao regime militar; como abraçava os bêbados, os
bêbados que teimavam em pedir-lhe a bênção na rua ou na porta de sua casa. Como
esse homem era respeitoso com as pessoas: a qualquer um recebia e abraçava,
independentemente de quem fosse, com a mesma alegria e sinceridade.
A passagem de mais um aniversário do nascimento de Dom Helder nos
oferece uma oportunidade para reavirmos em nossa mente e em nosso coração a
imagem desse vulto abençoado e santo. Uma oportunidade a mais para aprendermos,
com ele, o respeito pelos humildes, a confiança nos sofredores, o amor
incondicional ao Pai e Criador.
Pe.
João Carlos Ribeiro.
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