22/05/2012

Moradores de rua, dignidade e novos aspectos da Cidade


Saraiva Júnior*


Ninguém é morador de rua por acaso. O cidadão vai para a rua por absoluta falta de opção. Os motivos são diversos: o trabalhador perde o emprego e, sem condições de sustentar a família, cai no vício do álcool e logo é abandonado; o sujeito do Interior é levado doente ao Instituto José Frota (IJF), e, após receber alta, dá-se conta de que não tem dinheiro algum e que seus familiares há muito retornaram para a cidade de origem. Sem alternativas, eles vão mendigando pela Cidade.


Aquilo que mais dói no sem-teto não é o frio à noite, ou o calor e a fome durante o dia - nem mesmo a vergonha da condição de pedinte. O que realmente deixa o cidadão desamparado é perceber que, ao caminhar por uma calçada, com suas vestes e corpo sujos, as pessoas cruzam a rua e o evitam. O desprezo o faz invisível e, a partir desse momento, ele desacredita no mundo.

Estima-se que, em Fortaleza, o número de moradores de rua se aproxima de 3.500. Até existem albergues, porém, em número insuficiente para acolher tanta gente. Os albergues estão mais para as estatísticas da campanha política de prefeito e vereadores que se avizinha do que para a solução desse grave problema social.

Não se trata de tirar o sem-teto da rua, dar-lhe uma refeição e um cobertor que a questão estará resolvida. É preciso envolvê-lo em um projeto de trabalho em que ele acredite. Esse projeto social tem de ser uma ação permanente e conjunta entre União, estados e municípios.

O maior medo dos moradores de rua é a chegada da Copa do Mundo de Futebol ao País. Eles sabem que não podem aparecer por aí como o lixo da paisagem. Por falta de políticas públicas que lhes beneficiem, temem ser jogados para debaixo do tapete. Pois, quando começam a dizer que o número de moradores de rua é ínfimo, é bom ficar de orelha em pé.

E não me diga que por aqui não existe violência contra os moradores de rua e que esse fato acontece somente em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Não se pode esquecer que, em 10 de fevereiro deste ano, na pracinha em frente ao 23° Batalhão de Caçadores do Exército, no nobre Bairro de Fátima, o morador de rua conhecido como Justino foi assassinado a facadas. Existem outros exemplos de violência com moradores de rua em Fortaleza. Não é para ter medo?

*Saraiva Júnior
Auditor fiscal do Trabalho e membro do Conselho de Leitores do O POVO
Fonte: Jornal O Povo

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