26/06/2012

Dom Helder: defender a vida, combater a fome



Dom Helder Câmara com o Presidente João Goulart


Hoje e em todas as partes da terra, o homem é ameaçado, sofre violência, é condenado à morte ainda antes de nascer, a maior parte de nossos irmãos sofre fome, miséria e injustiça. Estamos aqui para defender a vida do homem, desde o primeiro instante de sua geração. Estamos aqui para renovar o nosso compromisso de lutar com a não-violência ativa dos fortes contra a fome e contra a injustiça. 

Estamos aqui para glorificar a Deus, como Criador e Autor da Vida, e do verdadeiro desenvolvimento. Que grande dom o Senhor nos faz tirando-nos do nada e chamado-nos à vida. Já repararam como o orgulho é atitude sem inteligência? Qualquer um de nos poderia deixar de ter nascido e ninguém daria pela nossa falta, nem sabia nosso nome, nem se lembraria de perguntar por nós... 

Sabem quando medi melhor o dom da vida eu estava em nossa diocese de Olinda e Recife, acompanhado de uma senhora francesa, na visita a uma favela. Em certo momento nossa visitante disse em Francês: “Mas quanta miséria!” Uma senhora da favela, que nos acompanhava, perguntou: “ Parece que ela falou miséria!?”... E continuou dizendo: “ da minha parte eu não me sinto miserável. Moro aqui passo fome. Minha casa não merece o nome de casa. Mas não troco meus dois olhos por dinheiro nenhum deste mundo. o mesmo digo dos meus ouvidos , do meu nariz, de minha boca, das minhas mãos, dos meus pés, da minha cabeça, do meu coração.” 

“E ainda não falei _ Disse a moradora da favela da minha fé. Podem juntar todo o ouro da Terra, e o dinheiro de todos os bancos que eu não troco aminha fé naquele Pai, e no nosso salvador Jesus Cristo, e em nossa Mãe Nossa Senhora!” Quando uma criatura se mata tenho certeza de que, ao menos na hora do suicídio, estava fora de si. Nosso amor à vida é tão instintivo que a criatura se mata, estava louca de sofrimento e desespero. Deus há de ter compaixão dos suicidas. 

E que pensar de quem tira a vida alheia, de que mata o próximo? Cristo ensinou que a gente não pode julgar. Tenho esperança de que o assassino estava fora de si, movido pelo ódio ou cego pela ambição. Mas, desde Caim, o Livro Santo nos fala do horror de tirar a vida do próximo. E que dizer de um filho que mata a própria mãe? O povo fica tão revoltado, que quer logo lixar aquele que parece um monstro... E que pensar da mãe que mata o próprio filho e filha inocente, que nem sabe nem pode defende-se?... E que pensar de quem ainda quer uma lei para dar cobertura a mãe- assassina, e declarar inocente quem mata o filinho no próprio seio, antes mesmo de ele chegar a ver a luz do dia. 
E pensar, e saber que Jesus Cristo, o Filho de Deus, sem deixar de ser Deus, igual ao Pai e ao Espírito Santo, se fez homem, especialmente para ensinar que Deus todo poderoso e cheio de majestade, quer ser Pai, mas quer ser Pai de todos nos. Ele, de modo algum, quer ser Pai só de um pequeno grupo, rico e sempre mais rico, e padrasto de mais de 2/3 da humanidade. 

Cristo veio para que todos tenham vida e vida em abundancia. Para nós cristãos, só se pode falar de desenvolvimento, quando se trata, de como ensinou Paulo VI e ensina o nosso querido João Paulo II, do desenvolvimento do homem todo e de todos os homens... É um absurdo chamar de desenvolvimento o mero crescimento econômico de grupos privilegiados, com o esmagamento de milhares e ate milhões de concidadãos, mantidos na miséria e na fome, mantidos em condição subumana. 
Mas, nós, cristãos sem esquecer as estruturas pesadas que esmagam milhões de filhos de Deus, somos e devemos ser filhos da esperança! É Verdade que, quando o mundo, a vinte anos do ano 2000 do nascimento de Cristo, a impressão que temos é que, para a maior parte da humanidade, ainda é Sexta Feira Santa. No fim da tarde de Sexta Feira Santa, no Calvário, a impressão tremenda era de fracasso total do mestre. De que tinha adiantado Cristo ter atravessado a vida fazendo o bem, pregado como nunca ninguém pregou, anunciado a boa nova aos padres, terminará morrendo na cruz entre dois ladrões, e enterrado como um mortal qualquer? 

Engano total! Na madrugada do 3º dia, Cristo, vencendo a morte, ressuscitou glorioso. E a ressurreição de Cristo é garantia de nossa própria ressurreição. Mais ainda: embora tenhamos certeza de que aqui morada permanente e de que somos todos peregrinos em macha para a nossa Casa da Eternidade, não estamos dispensados de trabalhar pela paz, o que supõe, necessariamente, trabalhar, de modo pacífico, mas decidido e corajoso para que haja justiça e amor, como caminho indispensável para paz. 

Velemos para que ninguém ouse tentar separar Cristo de sua igreja. Nem separar, na Igreja, progressista e conservadores, verticalistas e horizontalistas...Cristo disse que o 1º e o maior dos mandamentos é amar a Deus sobre todas as coisas. Mas logo acrescentou que o 2º mandamento, amar o próximo, é igual ao próximo, amar a Deus.
 
Sejamos sempre mais apóstolos de Cristo e da Igreja. Sejamos apóstolos da vida eterna que começa agora e aqui, pois é agora e aqui que construímos a nossa eternidade. Trabalhemos sem descanso, para que todos os homens vejam em Deus um Pai e não um padrasto. 

Trabalhemos para que todos tenham vida e vida em abundancia, não so na eternidade, mas já começando agora e aqui. Na America Latina, o povo, confiando em Cristo e em sua igreja, canta: 

“Queremos terra na Terra! 
   Já temos terra nos Céu” 

Mensagem de Dom Helder Câmara no estádio de Bérgamo (Itália), no dia 19/10/1980, em companhia de Madre Tereza de Calcutá.

POR DIOGO FREIRE 

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