10/07/2012

Cidadão Soteropolitano


Dom Murilo Krieger*
A Câmara Municipal de Salvador, por iniciativa do Vereador Sandoval Guimarães, concedeu-me, na semana que passou, o título de Cidadão da Cidade de Salvador. Da mensagem que pronunciei na oportunidade, colho os primeiros e o último parágrafo, para terem uma ideia de como vi e senti essa homenagem.
Esse título, além de extremamente honroso, traz consigo uma grande responsabilidade. Sinto-me honrado, porque os representantes desta cidade me julgaram digno de ser considerado um filho desta terra – um filho, mesmo que por adoção. Sei que assumo uma responsabilidade, porque ainda não assimilei todo o jeito soteropolitano de ser, de pensar e de viver. Vejo, contudo, que o que não falta nesta terra é paciência para esperar que um novo cidadão de Salvador se adapte aos usos e costumes do povo aqui nascido.
Estou há um ano e três meses em Salvador. Devo expressar o que sinto e como vejo esta cidade. Quando aqui esteve, em 1980, as primeiras palavras em público do Bem-aventurado Papa João Paulo II foram: “A tradicional hospitalidade baiana de que sou objeto nesta hora, para meu gáudio e felicidade...”. A tradicional hospitalidade baiana, digo eu, está na base do título que estou recebendo nesta noite. Sim, desde que pisei este solo para assumir, como 27º Arcebispo Metropolitano, esta Arquidiocese Primaz, fui tratado por todos como se eu fosse um conhecido amigo que estava chegando. Desde os primeiros momentos, senti-me em casa nesta cidade. Por isso, com João Paulo II, lembro: “Aqui foi criada a primeira diocese brasileira. Esta cidade foi a primeira capital da Pátria, quando esta nasceu para a independência. Creio que posso dizer, sem desdouro para as outras regiões do País, que aqui tocamos com as mãos a brasilidade no que lhe é mais essencial” (06.07.1980). E há algo mais brasileiro do que a hospitalidade? Desconfio que foi com os soteropolitanos que o Brasil aprendeu a ser gentil...
Para expressar os sentimentos que dominam meu coração, busquei inspiração no Hino Popular do Senhor Bom Jesus do Bonfim, que me tocou profundamente, desde a primeira vez que o ouvi. Aliás, bem que esse Hino Popular poderia ter sido escolhido como Hino Oficial do Estado da Bahia... Para mim, vindo do Sul do País, a composição musical religiosa e cívica de Arthur Salles (letra) e João Antônio Wanderley (música), de 1923, ano do centenário da Consolidação da Independência do Brasil, expressa como nenhuma outra composição o jeito baiano de acreditar, de reconhecer e de pedir.
“Glória a ti neste dia de glória,/ glória a ti, Redentor que há cem anos / nossos pais conduziste à vitória /pelos mares e campos baianos.”
Agradecido pela presença do Senhor na História desta terra, eu o glorifico. Uno-me, assim, aos seus primeiros habitantes, que identificaram esta cidade com um dos títulos mais importantes de Jesus Cristo: Salvador. É preciso, agora, estar atento à recomendação do apóstolo Pedro, em sua segunda carta: “Crescei na graça e no conhecimento de nosso Salvador” (2Pd 3,18). Sim, é preciso que o nome da cidade – Salvador – nos comprometa com o dever de conhecer sempre mais a pessoa e a proposta daquele que veio nos apresentar o caminho, nos trazer a verdade e nos dar a vida.
O Salvador, que conduziu nossos pais à vitória, conduza a cidade de Salvador a uma outra vitória, não menos importante: a vitória sobre as desigualdades, sobre os preconceitos e as discriminações. Uma cidade tem qualidade de vida quando dessa qualidade todos se beneficiam; quando nela as pessoas se respeitam, aceitam as diferenças e cultivam sentimentos de fraternidade.
“Desta sagrada colina,/ mansão da misericórdia,/ dai-nos a graça divina / da justiça e da concórdia.”
Os desafios que nossa cidade tem pela frente não são pequenos nem fáceis. Nossa esperança se fortalece quando subimos a sagrada colina e lá encontramos o Senhor do Bonfim, que nos acolhe com os braços abertos. Abertos para receber os que a Ele recorrem, para nos impedir de ficar com os braços cruzados, expressão de insensibilidade e indiferença, e para nos enviar para a cidade que Ele contempla lá do alto.
*Arcebispo Metropolitano de Salvador  e primaz do Brasil

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