07/07/2012

Lugares para expandir o olhar


São lugares mágicos, quase sempre. Lugares de tranquilidade e silêncio, de reencontro consigo mesmo e com Deus. Mosteiros e conventos são, há muitos séculos, também lugares de hospitalidade. E possibilidades de, na fuga do mundo, reencontrar o mundo.  

Em Portugal, há também sítios destes. Que podem ser também lugar para umas férias diferentes ou para tempos de descanso. Mosteiros e conventos que nos convidam à busca interior, à procura do melhor de nós mesmos, da natureza e de Deus. Onde o acolhimento aos hóspedes é uma das dimensões importantes da vida monástica ou conventual.

Começou tudo, podemos dizer, com São Bento. Iniciador da vida monástica tal qual a conhecemos hoje, Bento de Núrsia viveu num tempo em que o cristianismo, convertido por Constantino em religião de Estado, esmorecia nas suas práticas e relaxava a exigência de vida. Muitos crentes começaram, então, a retirar-se para lugares de silêncio e solidão, em busca de uma vida mais ascética e purificada.

Bento de Núrsia foi um deles. Nascido cerca de 490, na Umbria italiana (onde, sete séculos depois, nasceria Francisco de Assis), iria fixar-se numa gruta de montanha em Subiaco, a leste de Roma. Pelo ano de 530, Bento mudou para Monte Cassino. Tomou o texto da Regra do Mestre e, abreviando-a, sublinhou a perspetiva comunitária do monaquismo, estabelecendo também as formas de rezar, as normas de obediência, as regras sobre a propriedade ou a forma de acolher qualquer hóspede que chegue.

“Todos os hóspedes que se apresentam [no mosteiro] sejam recebidos como se fosse o próprio Cristo, pois Ele dirá [um dia]: ‘Fui hóspede e recebestes-me.’”, lê-se na Regra de São Bento. O acolhimento surge, também, assim como um desafio mútuo, para quem chega ou quem está: “Com aqueles que acolhemos (...) queremos procurar a maneira de recuperar um impulso e descobrir como viver Cristo para os demais. (...) Em Taizé, gostaríamos que os jovens encontrassem a paz do coração”, escreve o irmão Roger, de Taizé (Elige Amar, ed. PPC, Espanha).

Estamos já longe da “fuga do mundo”, presente no início do monaquismo. Que traduzia a ideia de desprezo por aquilo que o mundo significava de pecado ou desumanização. Um exílio purificador, notava a escritora italiana Cristina Campo, sobre os eremitas e anacoretas: “É o exílio, a travessia o que conta para eles e que eles vieram ensinar, com os seus monossílabos siderais e as suas monumentais reticências: o ser irreversivelmente estranhos nesta terra, o viver exatamente ‘como um homem que não existe’.” (Ditos e Feitos dos Padres do Deserto, ed. Assírio & Alvim). 

Pode ser essa ideia de travessia,  de ir de um lugar a outro das  nossas vidas, que nos leve a procurar lugares como Tibães, Singeverga, Balsamão, Roriz, Valadares, Bande, Alpendurada... A geografia destes lugares está sobretudo a norte, coincidindo  com os movimentos de povoamento e de evangelização. Mas também em Fátima, Lisboa ou Algarve há lugares assim, onde podemos ser acolhidos por comunidades monásticas. E onde cada hóspede pode contemplar a natureza, passear, ler, meditar, buscar o essencial, rezar com a comunidade que ali vive. 

O Mosteiro de São Martinho de Tibães (Braga) oferece-nos um reencontro com a história. Antiga casa-mãe dos beneditinos portugueses, o mosteiro está situado numa zona rural e inserido numa quinta que fazia parte da antiga cerca monacal. Dentro desta, era suposto haver o necessário para subsistir: campo para a agricultura, floresta para extrair lenha, criação de gado, zonas de passeio e lazer... Fundado no final do século X, Tibães foi um dos mais importantes mosteiros portugueses, sujeito a sucessivas intervenções. A extinção das ordens religiosas, em 1834, levaria à venda do edifício e à sua posterior degradação. Há três anos, a hospedaria foi recuperada, com um belíssimo projeto de Eduardo Souto de Moura e entregue à congregação das irmãs da Família Missionária Donum Dei, que também gerem o restaurante Eau Vive (Água Viva) – em ambos os casos, é melhor reservar e os preços são equivalentes a outros estabelecimentos do género.

Beneditinos são ainda os mosteiros de Singeverga, onde os monges continuam a guardar o segredo da produção do licor, e das monjas de Santa Escolástica (Roriz), situados muito próximos um do outro (Santo Tirso). Ambos se inserem também numa paisagem rural, onde o casario disperso vem preenchendo espaços, mas sem retirar tranquilidade aos lugares monacais. Em Roriz, a hospedaria foi recentemente renovada. Mantendo a simplicidade e o despojamento característico de um alojamento monacal, os quartos são humanamente quentes e acolhedores. 

Bande (Carvalhosa, Paços de Ferreira), de monjas carmelitas, e Alpendurada (padres carmelitas), têm ainda o mesmo género de paisagem rural. Em Bande, ao contrário dos outros espaços, a hospedaria está fora do mosteiro, num edifício autónomo. Os hóspedes podem optar por manter relação com o espaço monacal e as monjas, quer nos ritmos de oração quer na alimentação; ou por ficar autónomos, já que têm uma pequena cozinha ao seu dispor. A casa dos missionários da Boa Nova (Valadares, Gaia), ao contrário, está numa periferia urbana, mas mantém a tranquilidade e um grande espaço de campo, aliado a uma arquitetura original.

O Convento de Balsamão (Macedo de Cavaleiros), dos padres Marianos da Imaculada Conceição, está no cimo de um monte, na Serra de Bornes. Deste miradouro natural, só se avista horizonte e os vários outeiros à volta, permitindo experiências de oração contemplativa pela natureza. Um lugar de espanto.
São lugares, enfim, para alargar o olhar. No livro Um Deus Que Dança (ed. AO), escreve José Tolentino Mendonça: “‘Reparai nos pássaros’. ‘Reparai nos lírios’. Jesus convida-te
a expandir o olhar, libertando-o dos rotineiros circuitos. Há quanto tempo não reparas? É tão fácil os olhos colarem-se ao chão e as visões ficarem reduzidas ao minúsculo círculo do eu. O desafio de Jesus é mudar a escala do nosso olhar. Repara além de ti. Fernando Pessoa escreveu: ‘Nós somos da altura do que vemos’. O que é que tens visto? E como?”.


Fátima Missionária

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