26/08/2012

Acorda, Ceará! Mostra tua cara


Prof. José Cajuaz Filho*
Ainda não perdi a capacidade de me indignar contra os desmandos de nossos políticos. Li a notícia, no Diário do Nordeste de 23/8/2012, de que três milhões, trezentos e setenta e quatro mil, quinhentos e quatorze reais e quarenta e sete centavos foram gastos pelo governo do Estado do Ceará só na festa da pré – inauguração do novo Centro de Eventos do Estado, sem contar com a despesa de sua manutenção que custará ao governo, mensalmente, a bagatela de  quase seis milhões de reais.

Toda essa quantia se referiu simples e unicamente à solenidade do dia 15/8/2012, com três horas de duração mais ou menos, para um público seleto, formado por ministros de estado, governadores, senadores, deputados federais e empresários que nunca assistiram a um espetáculo dessa natureza por não terem como pagar. Só faltou o Cachoeira, impossibilitado de atender ao convite por razões alheias ao nosso conhecimento.

Foi uma pré-inauguração bombástica. Convites restritos só a personalidades, pois o dono do dinheiro, o dono da festa, o povo, teve sua festa separada no dia 17 seguinte, e, como diz a nota, de graça, como se a anterior tivesse sido paga pelos convidados com uma taxa de adesão. Ironia do destino. O povo, para acessar o Centro, teve que contar com o apoio do Ministério Público que obrigou o Estado a construir também uma passarela para pedestres e não só um túnel para carros dos ricos e poderosos. O governo não se lembrou disto. O povo, permitam-me a expressão, que se lasque.  Vem a propósito, aqui, a composição musical Cidadão de Zé Geraldo:

Tá vendo aquele edifício, moço
Foi um tempo de aflição,
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Logo depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado
Tu aqui admirado
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que ajudei a fazer.
                 
Esse esbanjamento do dinheiro público, dinheiro público é eufemismo, do nosso dinheiro, parece uma demonstração insofismável da riqueza do Estado e da prodigalidade do governador Cid Gomes para com seus amigos. Mui amigos! Mas... a coisa não é bem assim. Trocando em miúdos, a riqueza apregoada com o evento é uma riqueza que o Estado do Ceará não possui e uma prodigalidade esnobe do governador para sua promoção e a de seus aliados que querem empurrar, goela abaixo, seus candidatos aos cargos de prefeito e vereadores de Fortaleza.

Aqui entra em cena um aspecto senão legal, pelo menos ético. É o princípio jurídico da indisponibilidade do interesse público. Ele diz que o interesse público não se encontra à disposição do administrador ou de quem quer que seja, não podendo, o administrador, dispor livremente do interesse público, pois não representa seus próprios interesses quando atua. O governador é um simples gestor do dinheiro público que deve ser empregado em benefício da coletividade.

Não se é contra o tal Centro de Eventos, mas sempre deve haver, como diziam os latinos, modus in rebus, medida nas coisas. Isto quer dizer que, numa administração, deve- se levar em conta as prioridades, as prioridades e as prioridades.

Se as prioridades não forem elencadas para serem efetivadas dentro das possibilidades, acontecerão sempre estes desmandos administrativos com desvios de finalidades e de verbas como diariamente se tem conhecimento pela imprensa.

Quem veio para esta festa mirabolante com Plácido Domingo e companhia, volta com a impressão de que o novo Éden se chama Ceará.

Ledo engano. Ele está vivendo quase no Reino de Hades. Como prova, uma pequena amostra desse inferno:

a)      A seca no interior, como sói acontecer há séculos, acabou com a agricultura, mesmo a de subsistência, e nossos irmãos vivem quase a morrer de sede. Dos 185 municípios cearenses, 171 estão em estado de emergência sem água para o consumo humano e animal e sem perspectiva de melhora, pois os reservatórios estão abaixo do nível aceitável.

b)      A segurança individual, empresarial e social é um ente de razão. De segurança só tem o nome. São assassinatos, sequestros, assaltos a empresas, bancos, residências e pessoas. As polícias, sucateadas, fazem greve por melhores condições de salário e trabalho e por aumento de funcionários para um melhor desempenho de suas atividades.

c)      A saúde, com os hospitais e os postos de saúde desaparelhados e sem pessoal suficiente, está na UTI prestes a óbito. A educação não é exceção. Com estes mesmos problemas, mutatis mutandis, pede SOS, pois está também morrendo. Onde está o interesse público?

Nada disso importa ao gestor público. “Buemba!” diz o macaco Simão, mas o Ceará tem o maior Centro de Eventos da América Latina.

Como é diferente a filosofia do povão da dos políticos: a dos políticos é aparecer: “viva nosso luxo, morra o bucho dos outros”; a do povo é sobreviver: “morra o nosso luxo e o dos outros e viva o nosso bucho”.

Agora, uma observação interessante: o Estado esbanja como se não tivesse compromissos sérios dos quais sua camarilha tenta fugir e negá-los. São tantas as dívidas do governo para com seus funcionários e quejandos que, se enumeradas, seria enfadonho.

Quero, no entanto, me referir, apenas a um caso, sem menosprezar os outros que têm o mesmo direito, o dos professores das universidades estaduais do Ceará que já rola nos tribunais há quase três décadas com decisão prolatada pelo Supremo Tribunal Federal.  Falta de dinheiro? Não, pois só com a nova expansão do Iguatemi, diz a imprensa, o Estado vai arrecadar de ICMS 250 milhões. É muito dinheiro para esbanjar.

A questão já foi transitado em julgado e o governador litisconsorte de má fé quer, por cima de pau e pedra, dizer que a decisão do Supremo Tribunal Federal está errada(sic) e que deve ser como ele quer, pois ele é que está certo. Que pretensão! Que autoritarismo! Será que ele é o He-Man e diz: “Eu tenho a força”. Por quê? Ele se esquece de que ainda se vive o Estado de Direito e a Justiça deve prevalecer e que ele administra o Estado porque o povo ali o colocou. Um lembrete oportuno: O Brasil está em período eleitoral.

Uma mensagem também oportuna: Acorda, Ceará! Mostra tua cara. Escorraça da política estes vendilhões do Templo Sagrado da Democracia!

*Professor da Universidade Estadual do Ceará, do Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará e da Escola de Aprendizes Marinheiros, na área de Literatura, de Português e Francês.

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