26/02/2013

Caminhos do som


Mais do que fomentar o surgimento de possíveis talentos, o ensino da música contribui para o aprendizado em geral

Biografias de virtuoses como Ray Charles, Jimi Hendrix e os brasileiros Heitor Villa-Lobos e Naná Vasconcelos – para ficar em quatro exemplos aleatórios e autodidatas em algum momento da vida – levam a pensar que 
música realmente não é para todos, mas para indivíduos dotados de um dom inato.

Turma de flauta doce do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno

Embora determinadas pessoas de fato apresentem maior facilidade para aprender, ou mesmo habilidades naturais – uma voz poderosa, por exemplo –, tornar-se bom músico exige mais que isso. A equação envolve disciplina, dedicação, muito estudo e prática, com direito a resquícios no corpo (dores, calos e outros ossos do ofício).

O aprendizado pode acontecer de diferentes maneiras. Uma delas é pela via formal, em escolas e cursos de música. Em Fortaleza, as opções incluem escolas privadas, projetos sociais e cursos de graduação e pós-graduação, voltados tanto ao exercício da docência quanto para a atuação artística.

Nas escolas, boa parte do público é composta por crianças, algumas ainda bem pequenas. Na Viva Escola de Artes, por exemplo, Gustavo Carvalho esforça-se para dar conta das teclas do piano. Do alto dos seus seis anos, já é “veterano” entre os alunos. “Aos três, matriculei-o no curso de musicalização. Como mostrou afinidade, resolvi deixar mais. Percebo que a música ajuda a desenvolver outras habilidades”, explica a mãe, Fernanda Carvalho. Na sala ao lado, Maria Luiza Miranda, de 11 anos, presta atenção às orientações do professor de violão. No caso dela, a situação foi oposta: precisou convencer a mãe sobre as aulas, por conta de uma agenda já lotada. “No fim, deu certo. Sempre quis aprender a tocar”, conta.

Maria Luiza, aluna da Escola Viva de Artes Fotos: José Leomar/ Kelly Freitas

Além de crianças, a Viva oferece cursos para adolescentes e adultos, com aulas práticas e também de linguagem e percepção musical – espécie de “alfabetização”, na qual o aluno aprende a ler partituras, solfejo etc.

A mensalidade gira em torno de R$ 285. “Para o público adulto e já iniciado, temos também o ‘Personal Music Trainer’, no qual a pessoa tem apenas aulas práticas planejadas para atender necessidades específicas”, explica Lia Venturieri, coordenadora musical da escola.

Inclusão

Mas o grosso do público da escola é mesmo de crianças e adolescentes. “Para além de aprender um instrumento, a música é importante porque ajuda na socialização, no desenvolvimento cognitivo e na assimilação de outros conteúdos. Também trabalha a coordenação motora e traz desenvoltura”, aponta Venturieri.

A avaliação é ampliada pela diretora do departamento de estruturação musical do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno (CMAN), Paula Franco. “A partir do que aprendem aqui, crianças e adolescentes expandem seu repertório cultural; no caso de jovens e adultos, chegam a arrumar emprego na área ou concorrer a bolsas de estudo no exterior”, observa, referindo-se aos alunos de projetos sociais que funcionam na entidade. 

Com 75 anos de funcionamento, o CMAN é a escola de música mais tradicional da cidade. Fundado com o apoio da Sociedade de Cultura Artística, então presidida pelos músicos Paurillo Barroso e Alberto Klein, deu origem a Curso de Música da UECE.

Desde 1969 o Conservatório é reconhecido como instituição de utilidade pública, mas, em determinado momento, precisou recorrer à cobrança de mensalidades para manter-se de portas abertas – embora tenha sido oficialmente incorporado à UECE em 1975.

No Curso Fundamental, crianças a partir de quatro anos começam com aulas de musicalização e pintura (“Cor e Som”). O passo seguinte é a inicialização em flauta doce, voltada a alunos com idade perto de seis anos.

“Depois da flauta eles já têm um tempo na escola, então podem escolher entre continuar com ela ou escolher outro instrumento”, explica Paula Franco. Para alunos de 14 anos em diante, há o Curso Básico (sem essas etapas iniciais). Em ambos os casos, a grade também inclui aulas de coral e teoria e percepção musical. A mensalidade gira em torno de R$ 200.

Bolsas

Às famílias sem condições de pagar esse valor resta tentar uma vaga nos projetos sociais parceiros do CMAN, o “Eduque Bem – Artes” (realizado pelo Shopping Benfica, para jovens de 17 a 22 anos) e o “Cultivando Talento” (da Fundação Beto Studart, para crianças de sete a 13 anos). Em ambos os casos, são oferecidas bolsas integrais de estudo.

Já no Forma – Formação Musical de Adultos, realizado pelo próprio Conservatório, são cobradas mensalidades mais acessíveis aos participantes (em torno de R$ 80). Nesse caso, o curso tem duração de dois anos.

“Temos casos de alunos que vêm de outras cidades para ter duas horas de aulas. É impressionante e inspirador o interesse deles. Se mais empresários tivessem essa visão de responsabilidade social seria muito bom”, avalia Franco.

Outra opção é o curso Técnico em Instrumento Musical, do Instituto Federal do Ceará (IFCE), criado em 2002. Como o próprio nome diz, é de caráter técnico, voltado à formação de profissionais para atuação artística (performances, concepção de produtos etc).

Embora seja público e realizado concomitantemente ao ensino médio, o processo de seleção inclui teste de aptidão – quer dizer, o candidato já precisa ter certo domínio do instrumento que escolher.

Adriana MartinsRepórter
Diário do Nordeste

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