FÁTIMA MISSIONÁRIA - Quem são estes jovens que vão partir?
Pedro Fernandes - Os jovens participantes são originários de diversas regiões de Portugal, de norte a sul, e têm as mais variadas ocupações profissionais, desde a economia e gestão às ciências da saúde ou à comunicação. Em comum, têm a sua fé em Jesus Cristo e a sua vontade de assumir a nossa comum vocação missionária, essencial ao nosso batismo, deste modo concreto: indo ao encontro de irmãos de outra Igreja local e de outra cultura, e dando assim testemunho da catolicidade da Igreja e da sua solidariedade e abertura a todos os povos e situações humanas.
FM - Que atividades vão desenvolver com a população local?
PF - O trabalho dos nossos jovens consistirá sobretudo em integrar-se na estrutura local colaborando com a equipa missionária que está no terreno e com os responsáveis locais que nos acolherão e integrarão. Há uma necessidade grande de formação, a todos os níveis, por parte das lideranças locais. O grupo espera dar a sua contribuição a este nível. Por outro lado, uma das grandes riquezas de Moçambique é a juventude; iremos também procurar interagir com crianças e jovens, em atividades de apoio escolar e de ocupação de tempos livres.
FM - Que impacto tem uma experiência como esta na vida de um jovem?
PF - O conhecimento direto de outro povo e de outra cultura, a possibilidade de colaborar e participar ativamente na missão de uma Igreja local que acolhe e integra, muda para sempre a nossa visão do mundo e a nossa sensibilidade de Igreja. Os horizontes alargam-se, afina-se a sensibilidade ao valor da diversidade, cresce o sentido da solidariedade e o sentimento de proximidade com povos que estão longe e são muito diferentes. Em rigor, uma experiência deste tipo é uma enorme oportunidade de amadurecimento da própria experiência de fé e de pertença eclesial: se quem parte dá muito de si próprio, é verdade que recebe muitíssimo também.
FM - Antes de partir para Itoculo o grupo terá de fazer formação. Em que consistem as sessões?
PF - Tendo em conta a exigência do projeto, é normal que a formação seja também exigente. Temos habitualmente três fins de semana em conjunto, repartidos ao longo do ano pastoral precedente. Aí se reza, partilha e reflete, de modo a preparar as pessoas para o que vão viver. Os conteúdos são variados: motivação missionária; espiritualidade e teologia da missão; conhecimento básico da cultura e do povo a que se é enviado; teologia do laicado; espiritualidade espiritana; teologia da ministerialidade; etc. Ao mesmo tempo, tendo em conta o programa concreto de atividades que se irão desenvolver, procura-se elaborar com detalhe os conteúdos e atividades que se irão propor no terreno, aos destinatários dos programas de formação.
FM - O projeto Ponte decorre em países de língua portuguesa e da América do Sul. Porque escolheram este ano a localidade de Itoculo?
PF - Itoculo é uma missão do interior da diocese de Nacala, no norte de Moçambique, é habitado por pessoas de etnia macua e conta com um total de 77 comunidades, distribuídas por um território vasto, onde desde há vários anos trabalha uma equipa de missionários e missionárias do Espírito Santo. A Igreja tem uma organização que assenta em grande parte no compromisso dos leigos, que se mobilizam e investem fortemente num trabalho voluntário de animação das suas comunidades. É uma região verdadeiramente missionária, onde se faz um forte investimento na saúde, na educação, na promoção social em geral e, obviamente, no trabalho evangelizador. É uma área vasta, com muitas comunidades cristãs, onde tem também havido uma presença mais ou menos constante de leigos missionários. Pelas carências e pelo potencial missionário, Itoculo afigura-se um destino onde jovens portugueses de boa vontade podem dar muito de si mesmos, ao serviço da Igreja e do povo. Aliás, há uns sete anos, uma outra equipa de jovens voluntários tinha já levado a cabo um projeto semelhante, com bastante fruto.
FM - Os jovens vão estar em missão durante um mês. Quais são os objetivos que a Congregação dos Missionários do Espírito Santo pretende atingir com a iniciativa?
PF - Basicamente, viver e ajudar a viver a dimensão missionária da Igreja: não estamos sozinhos, vivemos em comunhão com os irmãos e irmãs de outras comunidades cristãs que, mesmo longe, formam connosco a única Igreja de Jesus Cristo. Partir ao encontro destes irmãos e com eles dar testemunho do amor de Deus é uma grande experiência de fé e de vida cristã. Isso é muito enriquecedor para a Igreja local que recebe, mas também extremamente marcante e frutuoso para quem parte.
FM - Através do projeto Ponte, muitos jovens portugueses já estiveram em missão fora de Portugal. Após essa experiência, há contatos que se mantêm?
PF - Sim, de facto as comunidades que receberam estes grupos missionários guardaram deles uma recordação viva: o intercâmbio e comunhão que se gerou durante o tempo que conviveram ajudou a cimentar o sentimento de comunhão, de amizade e de solidariedade para além fronteiras. Projetos de solidariedade prosseguiram em favor das antigas missões de acolhimento: muitos voluntários, conhecendo a realidade pessoalmente, mantiveram-se em contacto e comprometidos, mesmo a partir daqui, com os projetos missionários que ali se desenvolvem.
FM – Conte-nos um episódio que o tenha marcado durante os vários anos que esteve na missão moçambicana de Itoculo.
PF - Trabalhei em Itoculo durante quase 13 anos, tendo chegado a Moçambique em 1996 e partido em 2009. Diria que toda a experiência de caminhada com este povo e esta Igreja foram, em si mesmos, marcantes. É uma Igreja jovem, em grande parte ainda catecumenal, cheia de irmãos e irmãs na fé que realmente se comprometem no serviço às suas comunidades. Investem muitíssimo tempo e energia na vivência pessoal da fé e na ajuda que prestam aos outros na descoberta de Jesus Cristo e no aprofundamento do seu compromisso batismal. Partilhar essa experiência com estes irmãos foi para mim um grande privilégio e uma oportunidade maravilhosa para crescer como cristão e como padre. A situação de pobreza material e de algum despojamento, em vários sentidos, longe de ter sido algo de negativo ou frustrante, foi uma grande ocasião de aprofundar o sentido do essencial e do seguimento de Cristo pobre, e de me sentir mais próximo de um povo que é chamado a lutar contra todas as formas de opressão e de pobreza injusta.
Fátima Missionária
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